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SETOR EM AGRURAS

A cultura em espiral decadente no governo Bolsonaro

Retirada de cartazes da Ancine e polêmicas de novos presidentes da Biblioteca Nacional e da Funarte refletem uma cultura em espiral decadente

A cultura em espiral decadente no governo Bolsonaro
Cartazes de filmes nacionais são banidos de site e sede da Ancine (Foto: Divulgação)

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O governo federal nomeou na última segunda-feira, 2, os novos presidentes da Biblioteca Nacional e da Fundação Nacional das Artes (Funarte). Poucos dias depois, tanto Rafael Alves da Silva, mais conhecido como Rafael Nogueira, da Biblioteca Nacional, quanto o maestro Dante Mantovani, da Funarte, já colecionam críticas.

Na última terça-feira, 3, os servidores da Biblioteca Nacional se reuniram nas escadarias do prédio para protestar contra a nomeação do novo presidente. A crítica se dá porque, segundo os servidores, Rafael Nogueira – que é formado em filosofia e em direito e tem mestrado em educação – não é conhecido no meio editorial e não tem qualificação para ocupar o cargo.

“Nosso receio é que houve uma nomeação repentina de um novo presidente, que a gente não conhece. A gente tentou buscar um trabalho dele na cultura, na nossa área, e não encontramos nenhuma. A gente não encontrou nenhuma qualificação dele para esse cargo, não sabemos como vai ser essa gestão”, afirmou a servidora Maria Fernanda Nogueira, da Associação dos Servidores da Biblioteca Nacional, em entrevista ao portal G1.

Um dos principais pontos de crítica, inclusive da sociedade civil, foi uma postagem de Rafael Nogueira, de 2017, que associou Caetano Veloso e Legião Urbana ao analfabetismo. “Livros didáticos estão cheios de músicas de Caetano Veloso, Gabriel, O Pensador, Legião Urbana. Depois não sabem por que está todo mundo analfabeto”, escreveu na época.

Na última terça-feira, porém, Nogueira se defendeu. O novo presidente da Biblioteca Nacional não negou o que escreveu, mas afirmou que as manchetes polêmicas promovidas pela imprensa foram retiradas de contexto, que a postagem foi escrita há muito tempo e como um cidadão privado. Ademais, reforçou que, agora, ocupando um cargo público, não teria o mesmo posicionamento, pois “um cargo assim exige que eu me comporte de acordo com a sua dignidade, respeitando a coisa pública”.

“Eu não estou dizendo que a imprensa, como um todo, quer destruir minha reputação (os casos especialmente danosos eu estou enviando ao meu advogado). […] Ainda que não seja má-fé — podem estar só pesquisando dados sobre mim, meio atrapalhados, confundindo-se a si mesmos, para informarem seu público — o efeito disso tudo está sendo muito agressivo e injusto. Cobram-me como Presidente da FBN [Fundação Biblioteca Nacional] pelo que dizem que eu falei como cidadão privado, muitos anos atrás”, escreveu.

Sobre o que pretende fazer na sua gestão na Biblioteca, Nogueira afirmou que não acha adequado explicar a todos o que vai fazer ou não antes mesmo de ter sido empossado como presidente da instituição. Por fim, ele agradeceu o apoio do presidente Jair Bolsonaro e do atual secretário especial de Cultura, Roberto Alvim.

Repúdio à direção da Funarte

Outro que teve a nomeação recheada de críticas foi o novo presidente da Funarte, Dante Mantovani, cuja ascensão ao posto foi rechaçada por diferentes setores da sociedade, tanto da classe artística, quanto da política e civil.

Até mesmo deputados alinhados com ideias do governo, como é o caso do deputado estadual Arthur do Val (Sem partido-SP), se posicionaram contra a nomeação. Em tom irônico, Val escreveu: “Ainda bem que foi uma ‘indicação técnica e sem viés ideológico’, né”, escreveu o deputado, fazendo alusão sarcástica ao discurso de Bolsonaro em campanha sobre nomeações.

Arthur do Val lembrou ainda declarações incoerentes de Mantovani, como a que associou o rock à indústria do aborto e o aborto ao satanismo; a teoria da conspiração de que soviéticos tinham se infiltrado na CIA e distribuído LSD no festival de Woodstock; e a relação entre o surgimento do Beatles o comunismo.

Até mesmo o músico Roger Moreira, fervoroso bolsonarista atuante nas redes sociais, da banda Ultraje a Rigor, que recentemente classificou o governo Bolsonaro com uma “nota 10”, criticou a nomeação de Mantovani. Contido, o cantor apenas escreveu “Cu-co” em uma postagem sobre a declaração de Mantovani sobre o aborto.

Enquanto isso, políticos da oposição ao governo Bolsonaro, de diferentes partidos, teceram duras críticas à nomeação. “Não é simplesmente um governo de loucos. É um governo que tenta enlouquecer as pessoas enquanto destrói o Brasil”, escreveu a deputada federal Sâmia Bomfim (Psol-SP).

Mudanças na Ancine

Outro ponto alvo de debate é a mudança de postura na Agência Nacional do Cinema (Ancine). A entidade parou de expor em seu site e nos corredores de sua sede cartazes de filmes nacionais. Boatos de funcionários indicam que a medida mira apenas produções que contrariam as posições políticas do governo.

No entanto, o diretor de comunicações da Ancine, Érico Cazarré, em entrevista à Folha de São Paulo, negou que a decisão tenha relação com o governo. De acordo com Cazarré, a retirada dos cartazes foi definida em novembro pelo presidente-interino da entidade, Alex Braga, como uma forma de priorizar a área reguladora do órgão.

“Havia muitos pedidos de divulgação, de festivais a eventos e palestras. Se eu fosse botar um filme, teria que ter todos. Depois, informações de distribuidores e produtores, e por aí vai. Por isonomia, optamos por não divulgar mais nada”, apontou o diretor.

A cultura do governo Bolsonaro

A Medida Provisória (MP) 870/2019, a primeira grande ação do presidente Jair Bolsonaro, entrou em vigor em 2 de janeiro de 2019. Entre diferentes ações, a MP rebaixava o Ministério da Cultura, que passou a ter status de uma Secretaria Especial, então ligada ao Ministério da Cidadania.

Apesar de constantes críticas à falta de investimento na área da Cultura ao longo de todo o ano de 2019, apenas a partir do último mês de novembro a área começou a ficar mais em evidência. O primeiro passo, que colocou a Secretaria Especial de Cultura em evidência, foi a exoneração do então secretário Ricardo Braga no último dia 6 de novembro.

Em seguida, em processo de mudança, o presidente Jair Bolsonaro transferiu a secretaria para o Ministério do Turismo, retirando-a do Ministério da Cidadania. Além da Secretaria Especial de Cultura e órgãos a ela conectados, outras entidades também foram transferidas para o Turismo, como a Ancine, a FBN, a Funarte e a Fundação Cultural Palmares (FCP).

Após as mudanças, o governo nomeou o dramaturgo Roberto Rego Pinheiro, conhecido como Roberto Alvim, para o cargo de secretário especial de Cultura. Alvim ganhou as manchetes em setembro, quando teceu duras críticas à atriz Fernanda Montenegro, a quem classificou como “sórdida”.

Alvim, que recebeu autonomia do governo Bolsonaro para indicar nomes para diferentes entidades, iniciou um grande processo de mudança na área da Cultura. Entre as indicações estão os nomes de Dante Mantovani, da Funarte, e Rafael Nogueira, da Biblioteca Nacional, além de Sérgio Camargo, novo presidente da Fundação Cultural Palmares.

A FCP tem por finalidade “promover a preservação dos valores culturais, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira”. Porém, paradoxalmente, Camargo é crítico ao movimento negro, contra cotas raciais, já afirmou que Marielle Franco ‘não era negra’ e reprova o Dia da Consciência Negra.

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