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A delação do delator

Novo livro baseado em 50 horas de entrevistas com Julian Assange cria curioso novo gênero da 'autobiografia não-autorizada'

A delação do delator
'Todo livro de memórias é prostituição', diz Assange (Reprodução/CBS)

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Se as coisas tivessem acontecido de acordo com a vontade de Julian Assange, o novo livro “Julian Assange: Unauthorized Autobiography” (Uma autobiografia não-autorizada) não existiria. “Todo livro de memórias é prostituição”, disse o fundador do Wikileaks após ter lido a primeira prova do livro, assinado por Andrew O’Hagan, um ghost writer, que se baseou em 50 horas de entrevistas com o hacker. Mas Assange já havia gastado o seu adiantamento para pagar dívidas jurídicas contraídas ao batalhar contra sua extradição para a Suécia, onde promotores desejam interrogá-lo em dois casos de alegações de estupro, e não tinha mais recursos para barrar a publicação de suas entrevistas.  Uma editora resolveu comercializar o manuscrito,  criando o curioso novo gênero da “autobiografia não autorizada”.

O resultado é um livro estranhamente desequilibrado. A segunda metade de fato não merecia ter sido impressa. Esta não adiciona muito à meia dúzia de livros que apareceram sobre a WikiLeaks, uma organização sem fins lucrativos devotada a tornar pública informações vazadas. Às vezes trata-se de uma diatribe que só alimenta a si mesma.  Como por exemplo, essa declaração de Assange sobre as alegações de estupro: “Posso ser alguma espécie de porco chauvinista, mas eu não sou estuprador, e somente uma ideia distorcida de política sexual poderia me transformar em um”. Ou sobre seus desentendimentos em série com colaboradores, em especial com Daniel Domscheit-Berg, ex-porta voz do WikiLeaks: “não poderíamos ter antecipado o quão temerário e ambicioso ele se tornaria”. E sobre jornalistas com quem trabalhou: “A vaidade num homem de imprensa é como perfume numa puta: eles fazem uso disso para mascarar uma faceta sombria deles mesmos”.

Contudo, a primeira metade do livro oferece um autorretrato intrigante. Qualquer um com tal “existência peripatética”, como Assange a denomina, acabaria se tornando uma alma inquieta. Sua mãe e padastro, hippies e ativistas políticos, viajavam por Queensland, Austrália, com um pequeno palco desmontável. Quando Assange tinha nove anos, eles se separam e sua mãe se apaixonou pelo membro de uma seita, que passou a persegui-los quando o relacionamento chegou ao fim. Para se afastar dele, a família pulou de cidade em cidade. Somente no início dos seus vinte e poucos anos Assange finalmente encontrou um lar: o submundo hacker de Melbourne, onde ele se juntou a companheiros que se divertiam vagueando por redes de computadores espalhadas pelo mundo (ele mais tarde teria que pagar uma soma vultosa de multa por suas atividades de hacker).

A temporada de hacker de Assange, e posteriormente a de estudante de física na Universidade de Melbourne, parece tê-lo imbuído de uma visão deveras mecanicista do mundo, o que o levou a criar o WikiLeaks. “Comecei a pensar na informação como matéria, e passei a avaliar o seu fluxo através de pessoas e da sociedade, e como a disponibilidade de informação nova promove mudanças”, diz ele. “Imaginemos que existe um duto que permite o fluxo de uma substância que impele a sociedade a um estado de justiça”. São essas passagens que fazem a leitura do livro valer a pena. Elas são também um lembrete de que, apesar de ser alvo fácil, Assange tem coisas interessantes a dizer, independentemente da carga de controvérsia. E o mundo às vezes precisa de pessoas irritantes e obstinadas para ir adiante. Assange e sua criação, o WikiLeaks, tornou o mundo um lugar mais aberto e transparente, logo mais justo.

Fontes:
Economist - Leaker´s leak

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