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Sociologia

À frente de seu tempo

Morto na última semana de janeiro, Daniel Bell foi um dos grandes sociólogos do capitalismo

À frente de seu tempo
Bell produziu três grandes obras da sociologia do pós-guerra

Quando perguntado sobre sua especialização, Daniel Bell respondia: “generalizações”. Bell cresceu em Nova York, tão pobre que às vezes era obrigado a comer do lixo. No entanto, terminou seus dias no conforto burguês de Cambridge, Massachussets. Ele passou 20 anos como jornalista, a maior parte deles, como editor da “Fortune”, antes de partir para a carreira acadêmica. Seu chefe, Henry Luce, desesperado para manter sua estrela, o perguntou por que estava deixando a revista. Ele apresentou quatro razões: junho, julho, agosto e setembro.

Seu gosto por generalizações cresceu naturalmente. Ele produziu três grandes obras da sociologia do pós-guerra: “O Fim da Ideologia” (1960), “A chegada da Sociedade Pós-Industrial” (1973) e “Contradições Culturais do Capitalismo” (1978). Na lista do suplemento literário do “New York Times”, dos 100 livros mais influentes desde a Segunda Guerra Mundial, dois eram de Bell.

Muitos dos pensamentos de Bell permanecem tão relevantes hoje em dia quanto no momento em que foram expostos pela primeira vez. Por exemplo, a transição do capitalismo industrial para o capitalismo de consumo, que ele narrou nos Estados Unidos há décadas, está agora acontecendo na China e na Índia. Mesmo quando estava errado, Bell errou de maneira que estimulavam o pensamento. Umas poucas horas com suas obras são mais válidas do que uma semana em Davos (e menos propensas a causar contusões decorrentes da prática do esqui).

“O Fim da Ideologia” descreveu o cenário político pós-Guerra Fria, 30 anos antes que a Guerra Fria acabasse. Bell defendeu que as grandes lutas ideológicas que definiram a primeira metade do século XX estavam esgotadas. A nova política, disse ele, será baseada em uma administração enfadonha, não nas colisões ideológicas. Sua noção de tempo não poderia ter sido pior: os anos 1960 foram uma das décadas mais carregadas de ideologia da história norte-americana. Ainda assim, Bell estava certo ao declarar que o comunismo ideológico estava condenado. Na China, ele deu lugar ao Leninismo de mercado. Na Rússia, foi substituído pela cleptocracia.

Bell passou a década seguinte e mais alguns anos trabalhando em um livro imenso, “A Chegada da Sociedade Pós-Industrial”, um termo que ele cunhou e que ficou marcado. Muitos dos pensamentos expressos no livro – sobre a mudança da manufatura para os serviços, a ascensão dos processadores de dados, e o declínio da luta de classes – agora soam tão familiares, que é fácil esquecer o quão inovadores eles eram em 1973. No entanto, Bell não conseguiu perceber uma das revoluções que se formavam ao seu redor: a transição do capitalismo de gestão que ele acompanhou trabalhando na “Fortune” para um capitalismo empresarial muito mais livre. Talvez tenha sido o preço que ele teve que pagar por desprezar a oferta de Luce e mergulhar na carreira acadêmica.

Muito de seus pensamentos ainda fazem sentido. Ele defendeu que a luta de classes tradicional seria substituída por outros conflitos igualmente irritantes: por exemplo, entre os princípios de igualdade e meritocracia na educação superior. Ele também previu o atual debate sobre a felicidade, afirmando que o progresso material não é capaz de eliminar as frustrações inerentes na competição por poder, prestígio e atenção. Quanto mais livres as pessoas forem para ascender graças a seus méritos, mais tempo elas passaram correndo na esteira para aumentar seu status.

O melhor livro de Bell foi “As Contradições Culturais do Capitalismo”. Nele, ele levantou a possibilidade que a abundância material produzida pelo capitalismo poderia destruir as mesmas virtudes que tornaram o capitalismo possível. O capitalismo, como disse Max Weber, depende das virtudes puritanas do trabalho pesado, economia e recompensa posterior. Mas Bell temia que o consumismo moderno estivesse estimulando o apetite pela gratificação instantânea e a auto-expressão irracional. A ética protestante estava sendo destruída nos shopping centers e na contracultura.

Esse argumento não é definitivo. Apesar das contradições culturais de Bell e das contradições econômicas de Karl Marx, o capitalismo segue firme e forte. Em seu livro “Bobos no Paraíso” (no qual “Bobos” é uma palavra criada para designar burgueses e boêmios), o colunista do “New York Times”, David Brooks, defendeu a ideia de que um coquetel de virtudes burguesas e valores boêmios pode se mostrar economicamente revigorante. Algumas das empresas mais bem sucedidas nos últimos anos foram fundadas por figuras nada puritanas como Sir Richard Branson (Virgin), Steve Jobs (Apple) e Bem Cohen e Jerry Greenfield (Bem & Jerry’s). Empresas high-tech como o Google não têm dificuldade em combinar a busca por lucros com o ethos de um campus universitário. Mas em uma área Bell foi um verdadeiro profeta: ele temia que o consumismo encorajasse as pessoas a pegar mais empréstimos do que poderiam ter alguma esperança razoável de pagar.

Ele foi ainda mais profético sobre o que poderia ser chamado de “contradições culturais do Estado do bem-estar social”. Esse foi o tema de um apaixonado debate nas páginas do “Public Interest”, um jornal que ele co-fundou com outro rapaz bem-sucedido de origem pobre, Irving Kristol. O Estado do bem-estar social não pode durar a menos que alguém crie a riqueza que pagará por ele. Mas grupos de interesses exigem cada vez mais do Estado, e os políticos se digladiam para prometer cada vez mais benefícios. À medida em que o Estado do bem-estar social se expande, ele pode eventualmente minar a disposição das pessoas de correrem riscos ou de cuidarem de si próprias.

Um dos pensamentos mais provocativos de Bell permeou sua obra: a ideia de que, ao contrário do que afirmavam os deterministas econômicos como Marx, diferentes “reinos” de sociedade poderiam operar de acordo como diferentes princípios (sempre preocupado com o rótulo de neoconservador que Kristol recebeu com entusiasmo, Bell se descrevia como “Um socialista na economia, um liberal na política e um conservador na cultura”). O capitalismo pode coexistir tanto com o autoritarismo chinês quanto com a democracia norte-americana, dizia ele. Nesse caso, alguns esperam que o grande sábio estivesse errado.

Fontes:
Economist - Ahead of the curve

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4 Opiniões

  1. Carlos U. Pozzobon disse:

    Li alguns artigos de Daniel Bell nos anos 70 e 80. Sempre me pareceu um pensador lúcido e coerente. Foi quem primeiro observou a mudança de hábitos morais e culturais da juventude de Woodstock que viria a mudar o comportamento das gerações posteriores. Também transformou-se no profeta da transformação da sociedade industrial em sociedade de serviços. Espero que sua obra seja revalorizada e redescoberta. Uma imagem que nunca esqueci foi sua infância à Dickens, em que narra sua pobreza extrema em Nova York, onde esperava o final das feiras livres para apanhar as maças descartadas que escorriam para as sarjetas. Sem dúvida, uma cena brasileira ainda no século XXI.

  2. André Luiz de Jesus Silva disse:

    Gostaria de agradecer ao “Opinião e Notícia” a oportunidade de conhecer este autor, do qual jamais ouvi qualquer menção mesmo quando estive em um curso superior (para ser mais preciso na UFMS- Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). É com novas ou renovadas oportunidades de leituras que podemos, sobretudo eu mesmo, melhor estruturar nossa compreensão dos problemas que nos cercam e, a partir disso, efetuar críticas ou ações que tornem possíveis a evolução político-social tão desejada no Brasil.

  3. thomas@thomaskorontai.org disse:

    Estou de acordo com os comentários sobre esse brilhante artigo trazido por esta coluna eletrônica. Parabéns!
    Eu também não conhecia este pensador. vou repassar adiante em minhas listas de discussões federalistas.

    As digressões do pensador levam à conclusão mais forte ainda do valor de um federalismo pleno de autonomias locais e regionais, subsidiariamente, cada vez mais longe dos arroubos de planejadores centrais. A vida humana sempre será composta de laboratórios, tanto nos experimentos individuais quanto nos coletivos – sempre com a componente mais afrodisíaca que existe na vida da maioria dos Homens: o Poder. Um modelo descentralizado, muito desconcentrado, é a melhor defesa contra esse afã natural.
    Saudações Federalistas,
    Thomas Korontai
    http://www.movimentofederalista.org.br

  4. André Vinícius Vieites disse:

    O desenvolvimento do post society articulado com as derivadas conceptivas que tratam o efeito dos dissidentes, especialmente sobre os jovens, depende da facilidade com que as informações se propagam. Nas sociedades primitivas visto que a tratativa concluida era de forma interpretativa por referenciais, onde os meios de comunicação modernos eram desconhecidos, os canais de comuinicação se identificavam, com pequena discrepância daquilo que vimos em rios navegados e achados históricos que dependiam de estradas ou caminhos dos sistemas vigentes junto àquilo que se transformou em cidades e as distâncias relativas que se encurtaram devido a velocidade de informações e facilidades de transportes coerentes com uma realização progressista, com esse pensamento básico, aliás bem básico se estendeu proporcionais ambientes de dilascerações obstrutivas momentâneas que a luz de Rachevky foram formuladas questões com certas expressões matemáticas para caracterizar o tamanho médio das cidades antigas que seriam da ordem 10³ e as distâncias seriam da ordem de 10² quilômetros. É importante ressaltar as análises de post society porque elas depois de algumas depreciações características puderam se cruzar com inúmeras descobertas arqueológicas, defendendo assim a hipótese de radical unilateral, que gera situação de análise posterior dos acúmulos decisivos e filtros de realidades passadas. O post society, mais as derivadas conceptivas e com ações indiretas por deterministas econômicos fizeram uma nova forma de vozes, acúmulos de saber e visão contemporânea ocidental.

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