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A história de um dos últimos escravos dos EUA

Em 'Barracoon: The Story of the Last', Oluale Kossula narra sua trajetória desde a captura na África até a vida como escravo nos EUA

A história de um dos últimos escravos dos EUA
Oluale Kossula se tornou Cudjo Lewis após chegar ao Alabama (Foto: Claire Harbage/NPR)

Mobile é uma cidade americana localizada no sul do estado do Alabama, banhada pelo Golfo do México, em uma região pantanosa e de florestas onde cinco rios encontram o mar. É no fundo da Baía de Mobile que se encontram, enterrados entre os detritos, os restos do Clotilda, o último navio a transportar escravos para os Estados Unidos.

Um desses escravos chegou do continente africano como Oluale Kossula, mas se tornou Cudjo Lewis no Alabama. Por três meses, entre o final de 1927 e início de 1928, ele foi entrevistado pela escritora Zora Neale Hurston, uma premiada e renomada escritora negra do Alabama que integrou um movimento de explosões artístico-literárias da cultura negra.

Cudjo estava entre os últimos sobreviventes que chegaram aos EUA como escravo e Hurston narrou sua história de vida no livro Barracoon: The Story of the Last (“Barracão, a história do último”, em tradução livre). O nome é uma referência às barracas onde os negros capturados eram mantidos antes de serem vendidos como escravos.

Agora, Barracoon está sendo publicado pela primeira vez, pela editora Amistad. A história de Cudjo é incomum e desoladora. Isso porque a maior parte das narrativas de ex-escravos que viveram nos EUA é composta por pessoas que nasceram no país, logo, não possuíam lembranças de sua captura nem de sua viagem até o continente americano.

Entretanto, Cudjo, que foi escravizado em 1859, quando era adolescente, relembra os fatos vividamente. Em Barracoon, ele recorda de como soldados do Reino de Dahomey (atual Bênin) cercaram sua cidade, capturaram os moradores, decapitaram alguns e preservaram os demais para vender. Cudjo recorda de ver a execução de seu rei enquanto eram levados para o Reino de Dahomey; ele recorda de ver os soldados queimando a cabeça de seus conterrâneos, e de ter chamado pelos pais e ouvir os soldados responderem “que não tinham ouvidos para choros”.

Em 1931, Hurston apresentou Barracoon a duas editoras, mas ambas rejeitaram o livro. Posteriormente, ela apresentou a obra a uma terceira editora, que pediu que ela reescrevesse o livro descartando o dialeto de Cudjo, o que Hurston se negou a fazer, uma vez que o dialeto era essencial para a obra.

Hurston seguiu com sua carreira, publicando mais livros e viajando pelo país entre as décadas de 1930 e 1940. Porém, nos anos 1950, sua fama se esvaiu e ela passou a trabalhar como empregada em Miami. Dez anos depois, ela morreu e foi enterrada em uma sepultura anônima. O legado Hurston foi resgatado na década de 1970, pela escritora Alice Walker, autora da obra A Cor Púrpura (1982), pela qual ganhou o National Book Award e o Prémio Pulitzer de Ficção.

A história de Cudjo não é a única narrativa feita por um ex-escravo no continente americano. Em 2016, foi lançada no Brasil a biografia Mahommah Gardo Baquaqua, que vivou como escravo em Recife e no Rio de Janeiro entre 1845 e 1847, quando fugiu para os EUA, onde se livrou da escravidão e teve sua autobiografia publicada em 1854. O lançamento da obra fazia parte do Projeto Baquaqua, que contava também com um website com documentos e um livro interativo sobre a vida de Baquaqua.

Fontes:
The Economist-The story of one of the last slaves imported to America

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