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Música Clássica

A OSB de volta. Mas qual?

Uma espécie de orquestra dentro da orquestra foi criada, com a readmissão de algumas dezenas de músicos afastados. Por Clóvis Marques

A Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) volta ao palco esta semana e na próxima (10 a 21 de agosto) com uma integral das Sinfonias de Beethoven em seis concertos regidos por Lorin Maazel no Teatro Municipal do Rio e um na Sala São Paulo. Mas as interrogações ainda são muitas, depois da quase desintegração provocada pelo confronto entre os músicos e seu regente, Roberto Minczuk.

A nomeação dos diretores artísticos Fernando Bicudo e Pablo Castellar para assumir funções antes exercidas por Minczuk parece mais – sem desdouro para a qualificação dos dois – uma solução de compromisso para não deixar a peteca cair do que uma aposta de potencialização da qualidade em nível equivalente ao que se ambicionava no início do ano.

Bicudo e Castellar respondem abaixo às perguntas do Opinião e Notícia com mais evasivas que esclarecimentos, refletindo o caráter ainda incerto do momento de transição. A mesma impressão tive em breve conversa com a violinista Deborah Cheyne, presidente do Sindicato dos Músicos e integrante da OSB, que só fala por enquanto de questões trabalhistas e profissionais, não havendo ainda o que dizer no terreno musical – que é o que interessa ao distinto público, o que tende a ser esquecido no calor dos debates e na realidade brasileira de modo geral.

Uma espécie de orquestra dentro da orquestra foi criada, com a readmissão de algumas dezenas de músicos afastados por recusarem as propostas de renovação (reavaliação interna) feitas sem o necessário tato diplomático e profissional, em março, pela Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira (FOSB) e Minczuk.

Haverá, assim, duas OSBs, com regimes jurídicos diferentes. Uma com músicos que já a integravam e aceitaram a reformulação, reforçados pelos que foram contratados depois de audições no Brasil e no exterior: este corpo orquestral, por enquanto em torno de 70 músicos, terá salários de 10 mil reais aproximadamente, carga maior de ensaios e trabalho, obrigação de exclusividade e direitos de imagem.

A outra OSB, menor, acolhendo de volta músicos afastados, terá os salários antigos, com piso próximo dos 4 mil reais, sem obrigação de exclusividade – nem, perguntaria eu, de equivalente excelência?

Bicudo me explica ao telefone que a missão de reaproximação e flexibilização dos ânimos e condições é a principal da direção artística no momento. Botar a coisa pra funcionar de novo, de alguma forma, e sobretudo – frisa ele – dialogar e reintegrar os músicos cuja situação profissional se viu de uma hora para outra desestabilizada, criando no meio musical carioca e brasileiro um clima de hostilidade.

Mas as perguntas que não querem calar são muitas, nem sempre respondidas na entrevista por e-mail que Bicudo e Castellar nos concedem abaixo. Para que duas orquestras? Como reintegrar de maneira MUSICALMENTE JUSTIFICADA músicos que não se solidarizaram com um projeto de renovação, por mais truculenta que tenha sido a tentativa? Quem vai moldar o som e a qualidade da OSB, agora que o regente titular aparentemente será apenas um maestro com carga horária maior que os outros à frente da orquestra?

A seguir, as respostas de Bicudo e Castellar.

Na nova configuração proposta, como será o funcionamento simultâneo de dois corpos orquestrais na OSB – do ponto de vista gerencial e do artístico?
Fernando Bicudo e Pablo Castellar – Os dois corpos orquestrais da OSB, o atual e o novo, serão gerenciados com toda a atenção que ambos merecem. Pretendemos, após a integração, imediatamente montar uma temporada artística para a nova orquestra ainda este ano.

Qual o interesse, para a orquestra, de readmitir músicos que se dessolidarizaram de um projeto de reforma?
F. B. e P. C.: A Fundação já havia oferecido, em 15 de abril passado, o retorno integral dos músicos ao corpo orquestral, porém este grupo de músicos não queria voltar sob a regência do maestro titular. Desta forma, encontramos, na crise, uma oportunidade de enriquecer o Rio de Janeiro com mais uma orquestra, formada exclusivamente com esses músicos afastados.

Como esclarecer para o público a formação desses contingentes: quais e quantos músicos estarão em cada um deles e com que funções/atribuições?
F. B. e P. C.: A orquestra atual está hoje com 59 músicos, sendo que ainda aguardamos a chegada de mais doze. Já a nova orquestra será integrada pelos 33 músicos afastados, se todos quiserem regressar à FOSB. Adicionalmente, conforme solicitado pelos músicos afastados, os veteranos da OSB com mais de 30 anos de casa poderão optar para qual grupo gostariam de ir.

Considerando-se o afastamento do maestro Minczuk da direção artística e a criação de um corpo orquestral paralelo que em princípio não trabalhará com ele, como fica a questão do desenvolvimento musical da orquestra aos cuidados de um regente que modele seu som a longo prazo?
F. B. e P. C.: Inicialmente trabalharemos repertórios mais camerísticos, possíveis de serem executados, até sem a presença de um maestro. Porém, ao longo deste ano, deveremos convidar alguns maestros para que possamos, eventualmente, escolher um regente titular para este novo conjunto.

Quais as funções da nova direção artística? Que atribuições ainda cabem ao maestro Minczuk?
F. B. e P. C.: Compete à direção artística, principalmente, propor ao Conselho a programação da temporada e projetos especiais, indicando artistas e repertório, responsabilizando-se por negociar todas as contratações. Passamos também a ser responsáveis pela relação dos músicos com o Conselho. A função do maestro titular será a de zelar pela qualidade sonora da orquestra.

Que já se sabe ou se pode divulgar do restante da temporada 2011?
F. B. e P. C.: Estamos trabalhando neste momento no restante da programação e em breve divulgaremos. Nossa prioridade é a solução da crise dos músicos.

Como será o planejamento das temporadas daqui para a frente?
F. B. e P. C.: Todo o planejamento se dará em comum acordo entre os dois diretores artísticos, aconselhados pela comissão artística, que é formada por músicos da orquestra.

Como está a questão da residência da OSB na Cidade das Artes (antiga Cidade da Música), cuja obra está sendo encerrada pelas empreiteiras estes dias?
F. B. e P. C.: Estamos aguardando a liberação da prefeitura para que possamos transferir e começar nossas atividades de ensaios e apresentações na Cidade das Artes.

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8 Opiniões

  1. Gennady Kupperheimer disse:

    Assisti o concerto com a OSB, a única, por que essa realmente é a OSB que existe. O concerto foi fantástico, os músicos mostraram competencia e executaram a peça com um alto desempenho.

    Não sei como alguns ainda ficam fomentando essa turma que saiu, que formou um movimento falido, cheio de brigas, difamações, e etc. Não existe mais crise, acabou, quem saiu saiu e a OSB continua gloriosa como sempre foi, com uma série de gente nova.

    Como disse um Sr. para a reportagem do Estadão, ele, assinante desda dos anos 70 viu que a orquestra melhorou muiiiito com a chegada de Minczuk, o cara fez muita coisa acontecer.

    Foi a carisma dele e competencia que juntamente com a FOSB conseguiram os grandes patrocionios, não interessa se foi incentivo ou BNDES ou o raio que foi, aconteceu.

    Agora, os que foram demitidos já tem um histórico NEGRO, não podemos esquecer isso, eles expulsaram o Karabtchesvsky (que ironiamente apareceu solidário ao grupo rebelde), Tibiriça não serviu, massacraram o Eleazar no passado e por ai vai.

    Agora resta saber, se esses camaradas voltarem para a FOSB, quem vai querer trabalhar com eles?

    Meio complicado, pois demonstraram que não tem nenhum um pouco de diplomacia em nenhuma negociação. Recusaram uma avaliação de desempenho? Recusaram tudo, muito estranho mesmo. Afinal, nem o Kurt Masur e Lorin Maazel servem para eles, são todos crápulas a busca de dinheiro, segundo os rebelados.

    Ficaram famosos em promover discussões em blogs do Lebrecht, Neschling e etc, se por curiosidade você der uma lida vai ver que sempre são os mesmos e um outro outro debatendo eles.

    Vergonha é o Ministério do trabalho azedando os vistos dos músicos estrangeiros que foram contratados, isso é terra tupiniquim mesmo.

    Falar que isso é um procedimento normal e que antes de contratar um estrangeiro tem que se provar de que não existe alguém similar no Brasil para ocupar a vaga é falácia.

    Será que o Ministério do Trabalho fez a mesma coisa quando a OSESP contratou uma maestrina que nem fluente em português é? Será que não existem maestros Brasileiros a altura? Dúvido que fizeram essa firula.

    Se o ex mnt Jobin foi demitido por um comentário apenas, o Mnt. Lupin já deveria ter sido exonerado a muito por essa plahaçada. Rumores são de os vistos sós sairam se a FOSB recontrar mesmo a turma que foi demitida por justa causa, que diga-se de passagem, de acordo com a CLT.

    Não adianta, o Brasil é uma terra tupiniquim e sempre será.

  2. Helo disse:

    Irei hoje no Municipal assistir a orquestra dentro da orquestra, sem Minczuc. Será uma surpresa certamente.

  3. Arturo Toscanini disse:

    Concordo com Antonio, Roberto Minczuck pode ser um bom regente mas é péssimo líder de pessoas. Se fosse numa empresa já estava na rua há muito tempo.

    Outra coisa: qual o gabarito de Fernando Bicudo e do jovem Pablo Castellar para sozinhos fazerem a direção artística.

  4. Antonio Campos Monteiro Neto disse:

    Caro Clóvis,

    A situação me parece semelhante à que ocorreu com a OSESP: os “reprovados” nos exames passaram a integrar uma “Orquestra B”, extinta depois de alguns anos.

    No meu entender é mais uma manobra da FOSB para diminuir a pressão dos patrocinadores, que verteram verbas na Orquestra e até agora tiveram somente uma grande bagunça como contrapartida.

    Tomo emprestadas as palavras de Irineu Franco Perpetuo, que melhor que ninguém expressou o que queremos ver na OSB, ao escrever sobre a Orquestra Simón Bolivar e Dudamel: “Músicos sentados nas beiras das cadeiras, “mandando ver”, com os olhos grudados no maestro, sem medo de extremos de dinâmica e tempo – mais do que isso, sem medo de serem felizes. E, no pódio, um músico superlativo, que não parece tratar a orquestra como subordinados a serem esmigalhados por seu ego e salário gigantescos e, sim, como companheiros de viagem, parceiros de fazer artístico”.

    Lamentavelmente, o que vemos na OSB é o oposto. Um maestro cuja excelência artística é obliterada por seu ego gigantesco, e músicos seguidamente desrespeitados como artistas e como seres humanos.

    O aparente “recuo” da FOSB demonstra que atitudes autoritárias não são mais viáveis em nosso país, como há muito tempo já não o são nos países europeus e nos EUA.

  5. Jesuina Passaroto disse:

    Caro Clóvis Marques

    O título desta matéria é o que todos nós, público, artistas, músicos, estamos perguntando.
    A proposta de criação de uma nova orquestra pela FOSB foi feita não como alardeado em outras imprensas. Se falou que a FOSB estaria realizando o sonho dos músicos demitidos ou ainda que o Rio de Janeiro ganharia mais uma orquestra, entre outras justificativas.
    Para mim o sonho dos demitidos era voltar para a orquestra que eles ajudaram a construir, a OSB; portanto nenhum sonho foi realizado. Dizer que o Rio de Janeiro ganha mais uma orquestra é tentar tapar o sol com a peneira para uma situação lastimável em que nos foi imposta e causada pela FOSB.
    Não estamos ganhando nada, ao contrário, perdemos muito. Perdemos um patrimônio que era de todos. A OSB era consagrada em todo o país e tambem no exterior. Resgatar este patrimônio é que eu acho a mais difícil das missões, se é que algum dia esta mancha será apagada.
    A identidade de uma orquestra não acontece da noite para o dia, muito menos pescando músicos aqui e ali, com escolas totalmente diferentes; levará anos para que a OSB tenha sua identidade de volta.
    A criação de uma orquestra feita ao contrário me parece meio estranho. Normalmente quando se cria alguma coisa é porque temos em mente algum projeto. E não estamos falando de um projeto simples. Qual o projeto para esta orquestra? O que foi apresentado até agora como projeto para esta “orquestra”?
    Uma orquestra onde temos uma diversidade de instrumentos, entre cordas, madeiras, metais e percusão, com naipes totalmente desfalcados. Haverá mais contratações para preenchimento destes naipes?
    A programação e os espaços vão ser divididos de forma equalitária? Nem um nome temos para esta nova “orquestra”. Entre outras tantas perguntas que fazemos para um projeto existir.
    Parece-me uma operação tapa-buraco para talvez conseguir a solução para os muitos bloqueios que a FOSB vem tendo por conta destas medidas truculentas.
    O artista busca a excelência por si só, não é preciso que ninguem os force a isto, ainda mais da maneira como a FOSB fez.
    Só não vou poder lhe dar toda a razão neste artigo porque este episódio triste da nossa história NUNCA será esquecido por ninguem e posso afirmar que, para nós músicos e artistas, toda esta crise serve para nos chamar a atenção, e dá o pontapé inicial mesmo que tardiamente, para um movimento em busca de dignificação e respeito à nossa profissão.
    Grande abraço.

  6. Guilherme Vergueiro disse:

    Pelo jeito funciona mais ou menos como o Senado, a Câmara dos deputados, o ministério … orquestra dentro de orquestra … essa é ótima …

  7. Rael disse:

    Porém discordo da afirmativa: “[…] terreno musical – que é o que interessa ao distinto público, o que tende a ser esquecido no calor dos debates e na realidade brasileira de modo geral.”

    A não ser que considerarmos o “distinto público” acéfalo, alienado e que optaria pelo caminho simplista de dissociar a música das questões sociais em torno dela.

  8. Antonio J Augusto disse:

    Caro Clóvis Marques,
    O seu artigo é muito pertinente ao demonstrar a fraca argumentação que envolve a criação deste novo corpo orquestral dentro da OSB, mesmo que sempre defendido com o mote criado por algum profissional de assessoria de imprensa de que se pretende “enriquecer o Rio de Janeiro com mais uma orquestra”.
    Entretanto, a premissa que estabelecida que os músicos se dessolidarizaram de um projeto de reforma, não me parece adequada. Primeiro, que o questionamento levantado pelos músicos não foi a reforma, posto que em um primeiro momento ela nem existia, certo? Afinal a avaliação de desempenho proposta seria apenas para dar aos músicos um feedback sobre sua atuação. A idéia que haveria uma reforma, ou seja demissões, foi sempre refutada pela FOSB, embora fosse evidente que aconteceria, como viria a confirmar o então diretor artístico em entrevista ao jornal O Globo, de 18 de fevereiro de 2011.
    Mas também, vale ressaltar, que o maior desejo dos músicos sempre foi que acontecesse uma reforma na OSB. Reforma esta não somente necessária no corpo artístico, como na Fundação como um todo. A FOSB precisava e ainda precisa, de um choque de ordem em sua gestão. Seu modelo é anacrônico, autocrático e por isso completamente inadequado para uma gestão que vive em grande parte de verbas públicas. Também era necessário uma grande reforma no pensamento artístico da instituição, mas o que se via no que você chama projeto de reformulação era o que foi muito bem denunciado pelo articulista da Revista Concerto, Irineu Franco Perpetuo: uma “limpeza étnica” (http://www.concerto.com.br/textos.asp?id=218)
    Portanto, mesmo concordando com o teor do seu artigo no que concerne a inviabilidade deste novo corpo orquestral,permita discordar em relação a esta visão sobre o movimento dos músicos da antiga OSB.

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