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Aquarela

Crônicas antigas de Chico Buarque: edição 1

Leia uma das crônicas escritas por Chico no jornal do Colégio Santa Cruz, o Verbâmidas. Este texto é do mês de maio de 1961

Crônicas antigas de Chico Buarque: edição 1
Veja crônicas publicadas por Chico Buarque entre maio de 1961 e novembro de 1962

* A Redação optou por manter a ortografia original do jornal da época.

Mal nasceu, criou complicações:
– Qual é o nome?
– Verbâmidas.
– Não… não… Com esse nome, não…
O escrivão se resignava. Como é mesmo?
– Verbâmidas, insistimos.
– Coitado, tão pequenino.
– Coitado, por quê?
– Por quê? E ainda perguntam? Esse nome é simplesmente monstruoso. Verb… Como é mesmo?
Trocamos a impaciência por uma ponta de orgulho. Tiramos o projeto do jornal da pasta e esfregâmo-lo na cara do tabelião.
– VERBÂMIDAS, entendeu? VERBÂMIDAS!
– Para nosso espanto ele pronunciou um “Ah!” prolongado e registrou o nome sem mais pestanejar.
– Agora entendei!
– Entendeu o quê?, perguntamos, curiosos.
– Entendi a razão do nome. Esse jornal é um monstro!
– Monstro é a… íamos insultando sua progenitora em harmonioso coro, no momento em que chegou a censura.
– Monstro é o que?, perguntou.
– Monstro é a…
– Censurado!
– Que idéia fixa! Assim não vale.
Fiel a seu cargo, temendo a propagação de um nome indecoroso, a censura quis saber o significado exato da palavra “verbâmidas”.
– Ora, você não sabe?, ironizamos.
Nessa hora chegava Anacleto da Cunha, personagem de grande destaque do mundo da cultura.
– Ora, você não sabe? Perguntou ele repetindo nossas palavras, olhando a censura de alto.
– Ó ignorância crassa, acrescentou, ó vil funcionário da imbecilidade, não percebes então o sentido clássico da palavra de Sócrates. Não te evoca cultura grega? Verbâmidas, símbolo de cultura, cultura do símbolo! Nome que reflete mais que um espelho! Um nome que diz porque condiz.
E assim Anacleto prosseguiu com suas interpretações de significado um pouco duvidoso, de conteúdo um pouco fofo.
Mas nós, inventores desse nome, modestos criadores desse jornal, ficamos visivelmente surpresos e alegres com o vasto sentido desse nome que ainda nos era desconhecido.
Verbâmidas… sem dúvida, um nome versátil.

Chico Buarque

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5 Opiniões

  1. Karen Manzzini disse:

    Muito bacana,gostei mas estranhei um pouco por não possuir separações!!!!!

  2. FRAMBELL disse:

    APESAR DE VOCÊ
    Às vezes eu acho que em termos culturais o Brasil sofreu um grande retrocesso. Às vezes eu acho que fui eu quem retrocedeu. Talvez, para os padrões atuais eu tenha parado no tempo. Isso, levando em conta, apenas, a música, como um dos veículos mais importantes de disseminação da cultura de um povo.
    Vejamos: nos aos 70 e 80, o chamado circuito universitário era um evento cultural que, devido à alta qualidade do seu conteúdo, nos orgulhava a todos. Não, apenas, a classe universitária, mas a mim e a todo o Brasil. Chico Buarque de Holanda era um dos pesos pesados da época a freqüentar este circuito. Não necessariamente, se apresentavam em teatros universitários. Muitos desses shows eram realizados em espaços convencionais, como teatro e cinema, para quem quisesse assistir. Além de Chico, outros grandes nomes, como Milton Nascimento, Elis Regina, Gil e Caetano, Gal, Bethânia, Os Mutantes, Joelho de Porco, Toquinho e Vinicius e aí por diante, enchia as nossas vidas de poesia e orgulho.
    A MPB, Música Popular Brasileira era, e continua sendo, a representação de um contexto musical que, além de extenso, dada a sua infinidade de ritmos e estilos e da sua intensidade poética e rítmica, é de singular beleza. Talvez, por isso, tenha sido segmentado visando facilitar as discussões e a compreensão sobre este ou àquele estilo, o que a enriqueceu, ainda, mais. Em seus segmentos, o estilo e seus destaques, eram julgados e entronizados, como reconhecimento à importância que representava para a nossa cultura. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Novos Baianos e outros representavam a Tropicalha, um estilo contestador carregado de ironia e poesia, não necessariamente político, como o era a MPB, principalmente, com Chico e Geraldo Vandré.
    A BOSSA NOVA, sem dúvida, o mais respeitado dos movimentos musicais brasileiros, dentro e fora do país, teria sido a grande inspiração para este pessoal com tanto talento.
    Entretanto, o grande representante da MPB, a despeito de outros grandes talentos, era e continua sendo Chico Buarque de Holanda. Em que pese o talento de Chico o habilitar a navegar com autoridade por todos os canais desta fonte, o destaque da BOSSA NOVA SEMPRE foi Tom Jobim e João Gilberto. Não diriam por isso serem seus estilos politicamente corretos. Sem nenhum demérito. Longe de mim pensar uma coisa dessas.
    Na época, era muito comum, não sei se ainda é, as universidades incluírem textos, das canções dos nossos compositores e poetas, para explicar os momentos político e social por que passava o Brasil. Até grupos de debates da MPB e seus diversos segmentos existiam nas universidades. Nesta época, os artistas eram obrigados a produzir sua obra às sombras, apesar de tudo, porém, eram divulgados na mídia. Mesmo quando eram obrigados a se ausentar do país.
    A criatividade e a inteligência desses monstros sagrados, sempre, lhes proporcionaram uma nesga de luz para falarem o que pensavam. Diferentemente de hoje que, apesar da intensa luminosidade são pouco divulgados. Mas não se iludam àquele que pensam eles desanimaram. Além de muita gente nova que vêm seguindo os passos desses ídolos, todos continuam a produzir com a beleza e a fidelidade de sempre. É só pesquisar que você encontra. “Apesar de você amanhã há de ser um novo dia…” Busque saber o que quis dizer Chico Buarque, com este verso. E veja, também, porque, apesar de o ambiente não ser o mesmo, esta poesia continua tão atual.
    Frambell Carvalho.

  3. Helio (rio de janeiro) disse:

    Gosto do Chico compositor e letrista. Na prosa nem quando moço nem já depois de longa história, Chico não é tão feliz.

  4. ÍTALA disse:

    “Tem dias que a gente se sente
    Como quem partiu ou morreu
    A gente estancou de repente
    Ou foi o mundo então que cresceu.”
    (Chico Buarque)

  5. João Cirino Gomes disse:

    É como diz o VELHO ditado,ou deitado:
    O pobre que não fizer sucesso; se estiver montado em uma moto, é ladrão, quem fizer; se estiver montado em uma cabra é motociclista!
    Desconhecido correndo é ladrão, se for sucesso, só esta fazendo Cooper!
    É o velho ditado, deitado, ou sentado, me induzindo a relembrar,copiar, colar e refletir!

    E olha que sou fã e admirador do Chico Buarque! Mas…

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