Início » Cultura » Aquela velha história de ‘era uma vez’
TENDÊNCIAS E DEBATES

Aquela velha história de ‘era uma vez’

Voluntários levam a leitura para crianças e adolescentes em hospitais

Aquela velha história de ‘era uma vez’
Adriana Marinho conta uma história para Gabriel Pereira, de 4 anos (Foto: Mariana Mauro)

Prezados leitores, o Opinião e Notícia encerrará suas atividades em 31/12/2019.
Agradecemos a todos pela audiência durante os quinze anos de atuação do site.

Adriana Marinho é conhecida como Drica no Centro Pediátrico da Lagoa. Seu uniforme é um pouco diferente do comum, o jaleco é bem colorido e ela usa anteninhas na cabeça. Ao fazer 50 anos, ela resolveu se dedicar a algo que realmente tivesse valor. Depois de pesquisar na internet, ela conheceu o Instituto Rio de Histórias e ficou encantada com o projeto. Atualmente, aos 51 anos, ela faz trabalho voluntário como contadora de histórias. Adriana é uma dos muitos voluntários que dão voz aos personagens da ficção para distrair a realidade de pacientes em hospitais.

cont5

Gabriel Pereira, de 4 anos, recebendo atenção da equipe e de sua mãe (Foto: Mariana Mauro)

Adriana explica que quem é mãe já está acostumada a ser contadora de histórias. Com três filhos, ela sabe bem como é. Depois dos seis meses de treinamento e do estágio supervisionado, ela começou a atuar no ambiente hospitalar. “A gente não tem que entrar na sala e ficar perguntado sobre a doença, tornando a atmosfera mais pesada. A gente veio para contar história e para alimentar a parte boa da criança, a parte saudável.”

Durante o momento da contação de história, a imaginação da criança pode fazer com que ela voe ou seja uma princesa, por exemplo, e é exatamente por isso, que segundo ela, é preciso que o voluntário esteja firme e com um sorriso no rosto para poder, de fato, ajudar.  “É preciso ter equilíbrio para não ver a criança como um doente. Quanto mais afastado emocionalmente da criança, mas a gente vai poder ajudar.”

Ela se formou em jornalismo, depois resolveu fazer teatro e já trabalhou até como empresária. Atualmente, ela diz que se aventura em escrever para crianças. “A gente escuta que como voluntária, a gente vai doar tempo, mas a gente recebe muito mais em troca dessas crianças.”

cont6

Gabriel com vergonha da câmera fotográfica (Foto: Mariana Mauro)

E foi nesse clima de descontração e alegria que Adriana entrou no quarto de Gabriel Pereira, de 4 anos, que estava com sua mãe Joselite Pereira, para contar algumas histórias. Gabriel sabia que seria observado por uma câmera fotográfica e não teve dúvidas ao se esconder debaixo do lençol e usar o travesseiro como escudo. Mas foi só começar a ouvir as histórias que foi deixando a timidez de lado. No final da contação, Gabriel era o mesmo menino, mas com um sorriso completamente diferente depois de ouvir sobre o casamento da Dona Baratinha  e sobre o som de diversos animais, que ele dizia sequer conhecer.

Instituto Rio de Histórias

Regina Porto, 64, é a fundadora do Instituto Rio de Histórias, que começou em 2005. O projeto é afiliado da Associação Viva e Deixe Viver. Atualmente, os mais de 180 contadores voluntários atuam em 22 hospitais no Rio de Janeiro. Anualmente, há uma chamada de novos voluntários pelo site do projeto. Depois da chamada, há um treinamento obrigatório de seis meses, que geralmente, totaliza 14 encontros aos sábados pela manhã, e um período de estágio supervisionado pelos contadores antigos. Os voluntários escolhem os dias, os horários e o hospital onde vão atuar. Após a formatura, que na verdade é um grande sarau, os novos voluntários efetivamente começam a atuar nos hospitais.

cont1

Da esquerda para direita, Shirley Santos, Adriana Marinho e Regina Porto (Foto: Mariana Mauro)

Regina explica que o projeto desconstroi muito o olhar de pena do outro. “A gente não pergunta a doença da criança. O que nos interessa é fazer daquele momento, um momento feliz.” Ela explica que dentro de um hospital, o paciente tem que receber os médicos, os enfermeiros, a medicação, e a única coisa que ele pode se negar é a visita do voluntário. E isso é trabalhado com eles. “Quando a gente abre a porta, se apresenta e diz o que a gente faz, os pais ou a criança podem dizer não. E nós aceitamos esse não.”

Mas a receptividade costuma ser grande tanto dos pais quanto dos pacientes. “As crianças se envolvem e têm uns que gostam de contar a história para gente. Têm uns que interferem na história. Nós somos contadores, porque deixamos a criança interferir, nós a deixamos recriar aquela história conosco, nós não vamos simplesmente ler o livro.”

A psicóloga do Centro Pediátrico da Lagoa, Shirley Santos, 52, é quem coordena as atividades lúdicas. “Apesar de a leitura estar sendo muito divulgada, as crianças têm se afastado um pouco dos livros por conta dos eletrônicos. Quando os voluntários trazem essa proposta para dentro do hospital, esse desejo renasce.” Ela explica que é através do lúdico, que os voluntários conseguem alcaçar as crianças. “Dentro da gente, existe uma criança. A diferença é que a gente deixa de brincar.”

Núcleo de Apoio a Projetos Educacionais e Culturais

“Não tem um dia que não tenha história aqui dentro.” É assim que a fundadora e coordenadora, Magdalena de Oliveira, do Núcleo de Apoio a Projetos Educacionais e Culturais (NAPEC) do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) resume a rotina do voluntariado no hospital.

A pedagoga trabalha há 17 anos no IFF. “Eu não consigo imaginar criança sem cultura e educação pelo lúdico, pelo brincar, pela literatura.” E é nesse clima que eles mantêm atualmente oito projetos, inclusive a leitura de histórias. Ao todo, 143 voluntários atuam no NAPEC. No IFF, há uma sala de leitura que fica aberta das 7h às 17h todos os dias. “Os pais usam isso como artifício para que a criança venha para o hospital com mais facilidade.”

Mas a leitura não fica só em uma sala. “A gente lê em todos os espaços, da UTI neonatal, onde ficam os bebê prematuros, até a ginecologia cirúrgica, onde as mães que são atendidas aqui fazem cirurgias.” Segundo ela, os voluntários são capazes de criar o hábito da leitura, algo que ninguém vai poder tirar das famílias, das crianças e dos adolescentes.

cont4

Juliane Andrade que trabalhou como voluntária durante três anos (Foto: Mariana Mauro)

A capacitação dura cerca de dois meses. Na primeira reunião, o tema é o hospital. Na segunda, os assuntos passam a ser a equipe, a metodologia e os projetos. Depois, durante um mês, as pessoas vão ao hospital para uma capacitação com voluntários antigos em diferentes espaços. Na terceira e última reunião, os temas são as dificuldades, as normas e o compromisso. Depois, os selecionados assinam um termo de adesão e passam a ser oficialmente voluntários. “Muitas vezes a gente começa capacitando 60 pessoas e acaba com 10, 15 pessoas.” Ela explica que o trabalho voluntário exige um compromisso grande. “A pessoa tem que estar aqui no dia e no horário marcado, tem que respeitar as normas.”

Aos 24 anos, a biomédica Juliane Andrade é funcionária do hospital, mas antes ela atuou três anos como voluntária. “É muito legal ver o sorriso das crianças, ver que você conseguiu fazer com que ela esquecesse por um momento que ela está no hospital.”

cont3

Magdalena de Oliveira e Maria de Fátima Henriques (Foto: Mariana Mauro)

Maria de Fátima Henriques, 60, tem três filhos e dois netos e é voluntária do NAPEC desde 2007. “O envolvimento existe, você não consegue não se envolver com as crianças. Você está ali no dia a dia. A perda é muito triste, não resta dúvida. Mas a gente tem que trabalhar a cabeça para isso.” Ela conta que uma das maiores alegrias do trabalho é quando o voluntário consegue ganhar da tecnologia. “A maioria das mães das crianças internadas traz celular para deixar com as crianças. Mas para gente que vai ler, isso é ruim. A criança fica enfeitiçada com aquele vídeo, ela nem pisca. Quando você chega, pede a ela licença e fala que vai ler uma história e ela olha para você e sorri… Isso não tem preço.“

Caro leitor,

O que acha deste tipo de trabalho voluntário? Acha que o “era uma vez” tem um poder transformador?

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

2 Opiniões

  1. Ester M C Rodrigues disse:

    Parabéns! Lindo esse trabalho.Excelente Organização.
    Fizemos por três anos (eu e um grupo de amigos) um trabalho com esse propósito. E foi extremamente gratificante. Só não tinhamos essa sutileza de não tocar no assunto da doença. E, sem, preparo, muitas vezes nos envolvíamos demais e inevitáveis perdas nos “matavam aos poucos”. Acabei me afastando.

    Hoje estou iniciando um novo projeto chamado “Juntos Somos Capazes” com pré e adolescentes de 12 a 15 anos. Sobre a importância de estudar e o primeiro emprego.

  2. Sydney Feitosa disse:

    Muito gratificante este trabalho voluntário, gostaria de parabenizar a todos os voluntários por esta causa tão nobre, ao ler esta reportagem me lembrei de quando começei a trabalhar, foi no Hospital da Clinicas com manutenção elétrica e ao fazer um conserto conheci alguns pacientes que costumava ficar conversando na Ala de paralizia infantil.
    Grato a todos !

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *