Início » Cultura » Aracy, a ‘justa entre as nações’
Livros

Aracy, a ‘justa entre as nações’

O livro 'Justa — Aracy de Carvalho e o resgate de judeus: trocando a Alemanha nazista pelo Brasil' relata a longa amizade de Aracy e Margarethe Levy, que o acaso aproximou. Por Marisa Motta

Aracy, a ‘justa entre as nações’
Aracy foi chefe do setor de passaportes do consulado brasileiro em Hamburgo

Em 5 de março de 1934, recém-separada do marido, Aracy de Carvalho embarcou no navio Monte Pascoal com o filho Eduardo Tess, de 5 anos, com destino a Hamburgo. Logo ao chegar à cidade começou a trabalhar no consulado brasileiro, onde quatro anos mais tarde conheceu o cônsul adjunto João Guimarães Rosa, com quem teria uma ligação amorosa e uma vida conjugal até a morte do escritor.

O livro Justa — Aracy de Carvalho e o resgate de judeus: trocando a Alemanha nazista pelo Brasil (Civilização Brasileira, 518 páginas, R$ 49,90,) fruto de uma extensa pesquisa documental, consultas às agendas de Aracy, depoimentos e entrevistas da historiadora brasileira Mônica Raisa Schpun, doutora em história pela Universidade de Paris, com pós-doutorado na Universidade de Milão, relata a vida e a longa amizade de Aracy de Carvalho e Margarethe Levy que um acaso aproximou.

Rica, cosmopolita e integrante da elite de Hamburgo, Margarethe falava sete línguas. De repente, considerada membro de “raça inferior” pelos nazistas, decidiu partir da Alemanha com o marido. A intensificação das iniciativas antissemitas com as medidas legais antijudaicas apresentadas por Hitler em Nuremberg no congresso anual do Partido Nazista, em setembro de 1935, levou Margarethe e o marido Hugo Levy a apresentarem-se no consulado brasileiro de Hamburgo solicitando vistos para o Brasil. Lá conheceu Aracy, chefe do setor de passaportes, que obteve os vistos solicitados ,e o casal partiu para São Paulo em 1938. Assim como no caso de Margarethe e Hugo, Aracy de Carvalho obteve a concessão de vistos para centenas de judeus, correndo sérios riscos de ser demitida e entregue à Gestapo.

Por esse ato de coragem e solidariedade que salvou a vida de inúmeros judeus, Aracy de Carvalho foi homenageada em 1982 com o título de “Justa entre as Nações” concedido pelo Museu do Holocausto de Jerusalém. Dos cerca de 20 mil “Justos” reconhecidos por Yad Vashem, 30 eram diplomatas em postos na Europa nazista. Desses trinta, dois são brasileiros e uma única é mulher, Aracy de Carvalho. O outro brasileiro é Luiz Martins de Souza Dantas (1876-1954), ex-embaixador do Brasil em Paris. 

Sempre discreta em relação às suas atividades, em uma de suas poucas entrevistas a respeito, disse: “Nunca tive medo; quem tinha medo era Joãozinho. Ele dizia que eu exagerava, que estava pondo em risco a mim e a toda família, mas não se metia muito e me deixava ir fazendo.”

Este livro retrata também em detalhes riquíssimos um contexto histórico e social duplo, em que se misturam as narrativas dos primeiros anos do Terceiro Reich, da política migratória restritiva do Estado Novo imposta por Getúlio Vargas, de como o fluxo dos imigrantes judeus alterou a distribuição urbana, assim como a vida da comunidade judaica local, e a reconstrução da Alemanha pós-guerra. É uma história fascinante de amizade, solidariedade e de acolhimento em meio aos horrores da guerra.

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *