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ARQUITETURA

Construindo para quem?

Novo complexo cultural bilionário de Abu Dhabi pode ter destino semelhante ao de Bilbao. Ou ao de Dallas

Construindo para quem?
Museu Guggenheim de Abu Dhabi, projetado por Frank Gehry

Se você construir, eles virão? Essa é a questão básica que motiva os planos de desenvolvimento dos grandes centros culturais em áreas urbanas até então negligenciadas. A ideia é sábia: contratar arquitetos para construir algo belo (ou ao menos, grandioso), e então deixar que os negócios sigam seu caminho. Essa abordagem do rejuvenescimento urbano – conhecido como “efeito Bilbao”, graças a transformação realizada por Frank Gehry na cidade basca – produziu alguma histórias interessantes, como a do Penn Quarter, em Washington, DC (graças aos esforços do empresário Abe Pollin), e o Mill’s District, em Minneapolis (que conta com o impressionante Guthrie Theatre). O Gordon Square Arts Ditrict, de Cleveland, aplicou essencialmente choques econômicos a toda uma área. Mas o que aconteceu em Dallas?

Com uma construção que levou mais de trinta anos e custou mais de US$ 1 bilhão, o Dallas Arts District é uma área de 19 quarteirões, repleta de museus e salas de espetáculos. Seus enormes prédios são reluzentes, e incluem quatro vencedores do prêmio Pritzker (I.M. Pei, Renzo Piano, Norman Foster and Rem Koolhaas). Mas Blair Kamin, o crítico de arquitetura do “Chicago Tribune”, não se impressionou. Segundo ele, apesar de seu “poder arquitetônico”, o distrito é um lugar “incrivelmente enfadonho”:

Não há livrarias, poucos restaurantes fora dos museus, e pouca vida nas ruas, pelo menos nos momentos em que não há espetáculos em cartaz. Mesmo alguns dos arquitetos que projetaram prédios no local se referem ao distrito como um zoológico arquitetônico – abundante em nomes badalados importados, e escasso em vitalidade urbana doméstica.

Parte do problema é que Dallas tem uma baixa densidade urbana, particularmente nessa área, então, inevitavelmente, poucas pessoas circulam pelo distrito. Outro empecilho são os próprios prédios – belas fortalezas projetadas como grandes monumentos, difíceis de serem encarados como espaços públicos. Alguns moradores locais reclamam que os prédios foram claramente construídos para pessoas que dirigem em busca de um pouco de cultura, mas que em seguida voltam a dirigir para longe do distrito. Kamin sugere que planos para um novo parque, que irá substituir uma velha autoestrada, e conectar o distrito com um bairro mais agitado, ao norte, deve criar mais trânsito de pedestres quando for inaugurado no fim de 2012. Caso contrário, Dallas pode ter criado, “o centro cultural mais enfadonho e caro da história”.

É claro que é possível gastar mais dinheiro para criar um distrito cultural ainda mais enfadonho. É só levar em consideração a Ilha Saadiyat, o enorme complexo cultural em construção em Abu Dhabi. Como o distrito de Dallas, Abu Dhabi importou uma série de nomes “bling-bling” (artistas renomados) para trabalhos estelares de arquitetura. Frank Gehry projetou a nova versão do Guggenheim, avaliada em US$ 800 milhões (12 vezes maior que o Guggenheim de Nova York, e buscando uma enorme coleção de arte para sua abertura em 2015); Jean Nouvel, o vencedor do Pritzker responsável pelo projeto do Guthrie Theatre, está criando a versão de Abu Dhabi para o Museu do Louvre; Norman Foster está projetando um museu de história natural. No emirado, o problema da densidade pode ser resolvido com a criação de novos condomínios e resorts de luxo. Com relação a livrarias e cultura de cafés, o impressionante prédio de Gehry tornará a leitura impossível e o consumo de cafeína desnecessário.

O Guggenheim de Abu Dhabi tem recebido bastante atenção da mídia recentemente, graças a um possível boicote organizado por mais de 130 artistas, que protestam com relação às condições de trabalho dos operários encarregados de erguer esses templos modernos. Mas deixando de lado o desastre das relações públicas, que pode atrapalhar significativamente os esforços do museu para preencher suas galerias, o complexo de Saadiyat apresenta uma dúvida ainda maior: as pessoas irão até ele? Será que construir monumentos gigantescos da modernidade (em lugares remotos e nem sempre tão modernos assim) e presumir que a fascinação conquistará os turistas é suficiente? A experiência de Dallas ilustra as falhas em projetos que se concentram nas necessidades arquitetônicas em detrimento da população. Um distrito cultural sem o encanto de pedestres que vagueiem por suas ruas (ou uma atmosfera de artistas) pode ter que lutar para se manter.

Fontes:
The Economist - "This looks like a job for Frank Gehry"

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2 Opiniões

  1. Regina Caldas disse:

    As pirâmides do Egito foram construidas 2.700 anos a.C..e àquela época foram mega-projetos destinados ao usufruto de poucos…quem sabe não será este o destino (e a intenção de seus construtores)dos mega prédios edificados na atualidade?

  2. Rogerio disse:

    Aqui no meu Município (Duque de Caxias/RJ), construiram na Praça do Pacificador (antes arborizada e com chafariz), um caixote de concreto com o nome de Centro Cultural, feito pelo Aquiteto Oscas Niemeyer. Uma cidade que quer ser moderna sem ter modernidade. As calçadas sujas e irregulares continuam cheias de camelôs, tem uma feira aos domingos famosas por comercializar produtos roubados e pássaros silvestres, favelas e a violência imperam e a corrupção política (famosíssima) sempre foi um cartão postal de nosso Município. Uma cidade que chega facilmente aos 42 graus no verão sente falta de áreas com verde e frescor em seu centro. Por quê não gastar dinheiro público em obras sem sentido (possivelmente superfaturado).

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