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Besteirol, onde o politicamente correto não tem vez

Nascido no teatro, o gênero ganha remontagens de espetáculos, exposição e reprise do seu melhor exemplar na televisão. Por Solange Noronha

Besteirol, onde o politicamente correto não tem vez
Sexo frágil, um exemplo de besteirol que pisa no politicamente correto
Luis Salem, Marcia Cabrita e Aloisio de Abreu encenam Subversões

Luis Salem, Marcia Cabrita e Aloisio de Abreu encenam 'Subversões'

 

No princípio, era a comédia. Depois, veio o besteirol — que virou gênero teatral, invadiu a televisão, foi tema de livros e até de tese de mestrado. Anos mais tarde, disseram que ele havia morrido — talvez assassinado impiedosamente por um tal de PC, bandido de alta periculosidade que anda solto por aí e não se esconde. Pelo contrário, pode ser encontrado em lugares insuspeitados e, por trás da alcunha, tem nome e sobrenome: Politicamente Correto. 

Para quem não conhece o insidioso elemento, aqui vai a característica mais marcante de seu retrato falado: PC é muito parecido com sua prima (bem mais velha, mas facilmente reconhecível), a Censura. Um de seus ataques mais violentos — perpetrado à época das últimas eleições, em conluio com a temível parente — foi amplamente divulgado. Já as suas ameaças são constantes — mas só algumas chegam ao noticiário, como a que foi feita à personagem enfermeira de Glória Pires em “Insensato coração”, novela de Gilberto Braga e José Linhares que mal estreou. Pensando bem, isso é besteirol da melhor qualidade! Renderia uma peça inteira de esquetes com várias categorias profissionais indignadas e destituídas de humor. 

A boa notícia é que o PC não conseguiu matar o besteirol. Ele está vivo, passa bem e pode ser visto em muitos lugares atualmente. No Rio, juntamente com a remontagem de “Solidão, a comédia”, de Vicente Pereira, ganhou até uma exposição no Teatro Cândido Mendes em forma de árvore genealógica, nas palavras do curador Luís Francisco Wasilewski, um expert no assunto. No Teatro dos Quatro, na Gávea, “Subversões“ também voltou a fazer rir esta semana, agora com o número 21 incluído no título, para marcar a idade do espetáculo — já modificado seis vezes ao longo de todos esses anos, para se manter atual. Aqui, o forte são as paródias musicais — e, à exceção das enfermeiras, não escapa ninguém das gozações feitas por Márcia Cabrita, Luis Salem e Aloísio de Abreu. 

O melhor dessa vertente da comédia está justamente nas referências da vida cotidiana e — como escreveu o autor e diretor teatral Flávio Marinho no livro “Quem tem medo do besteirol?” — no seu “humor inteligente, que exige da plateia certa dose de informação”. 

Refrigério aos sábados

Também na televisão o gênero teve seu período áureo — e quem não o conheceu tem a chance de ser apresentado a ele no Viva. O canal por assinatura, da Globosat, ainda parece estar tateando em busca da grade ideal e passa muita chorumela enquanto não se acerta. Nessa bagunça, o pior de tudo são as reprises de programas recém-exibidos em outras emissoras da rede — especialmente Globo e GNT — e filmes B pra lá de rodados — que acabam de espantar o espectador mais exigente por serem sempre dublados e sem o recurso da tecla SAP (a chamada da sessão, estilo me engana que eu gosto, diz que o público que não lê legendas, na verdade, precisa descansar. Vai ver importaram essa preguiça dos Estados Unidos, sei lá). 

Mas nem tudo está perdido. Pelo lido e ouvido por aí, a reapresentação de “Vale tudo” foi um acerto. E no sábado, dia em que a programação costuma ser fraquíssima em todos os canais, pagos ou não, o Viva tornou-se um verdadeiro refrigério, exibindo, entre as quatro da tarde e as nove da noite, uma sucessão de antigos humorísticos cujo ponto alto é a “Comédia da vida privada”, com base no fino humor de Luis Fernando Verissimo. 

O horário tornou-se ainda mais atrativo com a recente inclusão de um dos expoentes do “telebesteirol”, o “TV Pirata”, que brincava com tudo o que era exibido na televisão. Como pouca coisa mudou na estrutura dos canais abertos desde 1988, quando o programa estreou, continuam engraçadas as sátiras a comerciais, novelas e atrações jornalísticas, como “Casal telejornal”, “Plantão da Farmácia Central”, “TV macho” e “Campo rural”. 

Criado por Guel Arraes e Cláudio Paiva, o “TV Pirata” contava com uma equipe de roteiristas de peso — que incluía o já citado Verissimo e os futuros integrantes do “Casseta e Planeta” — e atores do porte de Ney Latorraca e Marco Nanini. Foi um sucesso no seu tempo e continua sendo agora — como o próprio besteirol. 

Tomara que esse revival estimule novas criações do gênero. E que o Viva estique ainda mais a sua faixa de humor aos sábados, que termina com o “Sai de baixo” e tem lá seus momentos mais fraquinhos, como o “Sob nova direção”. Uma ótima pedida seria a inclusão de “Sexo frágil” na sequência. No lugar de “descansar” assistindo a filme dublado e reprisado à exaustão, quem aí não prefere ver Wagner Moura, Lázaro Ramos, Lúcio Mauro Filho e Bruno Garcia vivendo situações das mais inusitadas em papeis masculinos e femininos — e sapateando com força e saltos altíssimos na cabeça do PC? 

Caro leitor,
 

Você acha possível fazer humor politicamente correto?
 

Qual é o seu besteirol preferido?
 

Gostaria de rever algum clássico do gênero?

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4 Opiniões

  1. Olga disse:

    Algumas observações sobre a TV Pirata: os atores que a consagraram não foram Nanini ou Latorraca, figurinhas então já carimbadíssimas na telinha, mas Luis Fernando Guimarães, Regina Casé, Guilherme Karam e Regina Casé, que eram ainda de segundo escalão na TV. Também estavam ali Deborah Bloch, Cristina Pereira e Claudia Raia – surpreendendo como comediante -, além de Louise Cardoso. O elenco se renovou com o passar dos anos, mas o núcleo inicial, quase todos trabalhando na inteminável novela “Fogo no Rabo” foi o mais representativo do programa. Que gerou um filhote fraco – o Casseta e Planeta, mais calcado num programa de humor produzido por toda a turma que depois foi (infelizmente) para a frente das câmeras, provando que ser engraçado na mesa de bar é totalmente diferente de fazer espetáculo cômico.
    Ah, e mais um ponto: não só os americanos têm preguiça de lerem legendas. Os italianos e alguns outros europeus também. Na Itália até o cinema tem filmes dublados para adultos.

  2. Carlos U. Pozzobon disse:

    Bem, o humor politicamente correto é o resultado do humor livre passado pela tesoura da emissora de TV. O Casseta e Planeta era meu preferido, mas foi cortado por falta de audiência, segundo informa a Globo. Desconfio que tem o dedão da Dilma neste corte. Audiência se resolve em horário de programação, não em corte de programas. Casseta e Planeta poderia ser empurrado para mais tarde na tabela da Globo, mas foi podado. Pelo que sei o PT adora satirizar os outros, mas reage ofendido quando é satirizado. Isto demonstra a existência de um ideal de pureza que só se encontra nas religiões. A liberdade de sátira é uma medida da tolerância existente na sociedade. E não existe sátira sem que o alvo termine na estrutura política. E agora, quem vai escrachinar com o Tiririca no Congresso? Tiririca é um prato feito para um quadro de humor semanal.

  3. Peter Pablo Delfim disse:

    O melhor besteirol é aquele que não tem outro comprometimento que não seja o de divertir o público. O resto é com os críticos e o povo não quer saber de criticos. Vale lembrar que quando um critico, jurado, detém a atenção do povo este se decepciona. A única coisa que presume ver nele, o critico, é o tal de PC. Geralmente escolhem aquelas cenas ou piadas que você somente vai descobrir o significado depois de algum tempo já em casa. Castram qualquer espetáculo ou possibilidade de divertimento por conta de suas opiniões, geralmente pagas, que ninguém quer. Por tais razões que muitos canais de tv oferecem programações de baixíssima qualidade onde melhor caberia o besteirol. Mas até nisso o PC interfere. Vai que o povo acostume. Bom besteirol não é assim não. Que o diga Carlos Manga.

  4. Markut disse:

    Sendo politicamente correto (PC) deixa de ser humor,para se transformar em babaquice.E,por favor, não vão ao dicionário, para ver o significado formal.
    O humor pode ser escrachado, besteirol puro, ou mais sutil e refinado.
    O essencial é que ele justifique aquela velha máxima: Ridendo Castigat Mores.
    Humor fino , lembro de Carlitos,O Groucho dos Irmãos Marx,Woody Allen. Aquí, entre nós, Millor Fernandes, Luis Fernando Veríssimo e Arnaldo Jabor, alem de José Simão, mais escrachado, mas muito engraçado.

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