Início » Brasil » Carnaval, cinema e televisão: uma combinação que dá samba
CULTURA

Carnaval, cinema e televisão: uma combinação que dá samba

Mesmo quando o cineasta é estrangeiro e 'atravessa' o ritmo (ou talvez por isso mesmo) o resultado diverte quem conhece a festa de perto

Carnaval, cinema e televisão: uma combinação que dá samba
Mito de Orfeu e Eurídice, transformado em peça moderna (Foto: Reprodução)

O cinema e a TV vivem flertando com o nosso Carnaval. E são correspondidos, como provam, para citar só dois exemplos, o enredo do Império Serrano em 1987 — que contou a história da Comunicação no Brasil e teve Chacrinha como destaque especial, fechando o desfile — e a homenagem que a Unidos da Tijuca fez em 2010 à chamada sétima arte, especialmente a nacional, e a José Mojica Marins, ou Zé do Caixão, com o enredo “Esta noite levarei tua alma”. Novelas, mini-séries e filmes já usaram a festa como cenário — e o resultado disso, especialmente quando feito com olhar estrangeiro, já rendeu livros, teses, mostras e muito debate.

Numa rápida visita ao dicionário, sabe-se que uma das acepções da palavra “Carnaval” é “provocar confusão ou desordem”. Dá para esperar algo menos que o caos quando quem registra a folia caiu aqui de paraquedas e não tem noção do que acontece à sua volta? Talvez “o fim do mundo civilizado como nós conhecemos”, como pensou inicialmente Orson Welles, que veio aqui filmar É tudo verdade e em pouco tempo passou do horror à fascinação em relação a nosso país. Talvez “uma aventura dos sentidos”, como apregoa o slogan do filme Orquídea selvagem. Afinal, é “do lugar mais exótico da Terra que ‘007 contra o foguete da morte’ transporta você para outro mundo’” e é também no Brasil — mais especificamente na Bahia e no Rio de Janeiro (com direito a belos flamingos rosa-shocking na paisagem) — que até o Pato Donald de Walt Disney bebe cachaça e cai no samba, guiado pelo papagaio malandro Zé Carioca.

Diversão garantida

Claro que estudiosos como Tunico Amancio, autor de O Brasil dos gringos — Imagens no cinema, têm muito a dizer sobre o assunto. Porém, para os leigos — pelo menos os bem-humorados — os disparates são, geralmente, motivo de muita diversão. Às vezes, fica difícil descobrir se a cena se passa no desfile de uma escola de samba carioca, num baile de máscaras veneziano, no carnaval baiano ou num terreiro de vodu ou candomblé sabe-se lá de que época e lugar — pode ser tudo ao mesmo tempo também. Para curar a ressaca dessa folia, recomenda-se um mergulho no mar, seguido de um revigorante acarajé degustado no Pelourinho e uma boa noite de sono por ali mesmo, no Copacabana Palace.

O hotel, aliás, já foi palco de luxuosos bailes carnavalescos, nos mesmos anos dourados em que as nossas saudosas Cinédia, Atlântida e Vera Cruz eram pródigas em produções recheadas de fantasias, confete, serpentina e marchinhas. Mesmo quem não viveu aqueles tempos sente certo saudosismo ao ver esses filmes, que, de raro em raro, eram exibidos nas antigas emissoras educativas que existiam por aqui.

Dobradinha de sucesso

Nos canais de TV comerciais, muitas obras de ficção usaram o Carnaval como pano de fundo. O casal Janete Clair e Dias Gomes, por exemplo, selou o destino de alguns de seus personagens durante a festa, ela em Pai heroi, ele em Bandeira 2, na qual o bicheiro Tucão (Paulo Gracindo) morreu na quadra da Imperatriz Leopoldinense — e o realismo da cena rendeu até manchete em jornal. Uma década e pouco mais tarde, a dobradinha jogo do bicho e escola de samba voltou ao ar na trama de Aguinaldo Silva e Glória Perez, Partido alto, em que o bicheiro Célio Cruz (Raul Cortez) tinha mulher e filhos, mas babava pela passista Jussara (Betty Faria), sua amante. O mesmo Aguinaldo retornou ao tema, com mais humor, na novela Senhora do destino, em que a trajetória vitoriosa da amada de Giovanni Improtta (José Wilker), Maria do Carmo (Suzana Vieira), virou enredo homônimo na escola apadrinhada por ele, a fictícia Unidos de Vila São Miguel. Já na minissérie Filhos do carnaval, coproduzida pela HBO, a possível graça dessa estranha relação desapareceu e quem deu as caras foi o lado mais sombrio e cruel da força por trás dos paetês, plumas e purpurina.

No Carnaval de Salvador, a Dona Flor de Jorge Amado desfilou com seus dois maridos na televisão e no cinema, onde o mito de Orfeu e Eurídice, transformado em peça moderna — e transportado para uma favela no período de folia — por Vinicius de Moraes, ganhou duas versões: em 1959, pelas mãos do francês Marcel Camus; em 1999, pelas de Cacá Diegues. O diretor faz parte de uma longa lista de cineastas brasileiros que mostraram a festa nas telas e que inclui nomes como Paulo César Saraceni, J. B. Tanko, Carlos Manga, Walter Lima Júnior, Adhemar Gonzaga e Humberto Mauro.

Como já foi dito lá no início, esse “romance” já rendeu livros, teses, mostras e muito debate. E fica superdivertido quando nos chega de fora, cheio de tropeços e sandices. Quem é fã de Chuck aguarde a nova temporada da série. Num dos episódios, até o espião mais querido dos nerds, geeks e simpatizantes vem parar no Carnaval do Rio e, depois de alguns flashes de desfile de escolas de samba, lá está ele numa estranha boate, entre umas morenas mexicanas que rebolam em biquínis nada ousados enfeitados com muitas plumas brancas.

 

*Publicado originalmente no Carnaval de 2011

4 Opiniões

  1. ney disse:

    Uma mistura que fede. Maldito é o carnaval.

  2. Dorival Silva disse:

    Interessante como no Facebook vemos que Carnaval não é unanimidade. Tem bastante gente que não gosta, ou até odeia.

  3. André Vinícius Vieites disse:

    Sim isso quando divulgarem a lista dos 1239 corruptos, era a pauta do dia 22 de março de 1999 falando em anexo sobre o cinema e o teatro brasileiro, O Cine-Teatro de Alcobaça é uma sala de cinema existente em Alcobaça (Portugal). Nessa sala eles teríam os representantes brasileiros corruptos que seriam presos em solo brasileiro o que nunca aconteceu.

    A traça do edifício mistura elementos do estilo arte nova, da responsabilidade do arquitecto Ernesto Korrodi, com as correntes art déco e Modernista da autoria do seu filho, Camilo Korrodi.

    Foi inaugurado a 18 de Dezembro de 1944, tendo sucedido ao Salão Cine-Moderno que existiu na Rua Frei Fortunato. A lotação inicial era de 732 lugares.

    Os 732 lugares mais a lista dos 1239 corruptos pararia o país. O problema todo é que volta e meia os caras voltavam ao caso da morte do PC Farias e Suzana Marcolino, fácil para driblar a ordem econômica e cultural da década de 90 entre Portugal e Brasil. Então os 1239 corruptos nunca foram pegos. Isso é fato mesmo, infelizmente é verdade. Ass: André Vinícius Vieites

  4. André Vinícius Vieites disse:

    Segundo Roland Emmerich e as contenções da Sony Pictures os transformadores de marketfusion atuais são – Ao determinar o conteúdo de uma mensagem, a administração procura estabelecer um apelo, um tema, uma idéia ou uma proposição exclusiva de venda. Há três tipos de apelo administrativo e cinematográfico:
    – Racional;
    – Emocional;
    – Moral;
    Argumentos de pólo cinematográfico desse marketfusion de Roland Emmerich – apelos reacionários do racional, emocional e do moral também enxergam esta proposta.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *