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Cultura

Casas do Maestro

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Sabiam vocês que há um prêmio em dinheiro oferecido a quem descobrir filmes, de poucos minutos que sejam, com Jacob do Bandolim, consagrado como o maior bandolinista brasileiro? Até agora não mais que alguns minutos compõem o registro de Jacob em filme. Jacob, que morreu com 51 anos em 1968 e nunca foi tão prestigiado como depois de morto, que é admirado por músicos de todo o mundo, que é idolatrado no Japão, não tem suas performances em imagem registradas, parece mentira.

Deve-se ressaltar que nos últimos anos o cinema nacional foi enriquecido com alguns filmes sobre músicos brasileiros, elogiadas obras na arte cinematográfica que mostram Vinicius, Cartola, Paulinho da Viola, Maria Bethânia, Edu Lobo, a Bossa Nova em "Coisa mais linda", "Outros doces bárbaros" e outros tantos. E é quase tudo que se tem.

Realmente embora de boa qualidade, essa recente filmografia é espantosamente precária quando comparada à fartura e importância do tema, a música popular brasileira. Nada que se compare nem de leve com o jazz ou com o tango de Buenos Aires. Há filmes, é fato, das chanchadas dos anos 40 e 50 trazendo imagens dos maiores cartazes do rádio geralmente cantando num palco rodeado de pares de bailarinos esforçados ou músicos de mentirinha, como parte de um roteiro mais ou menos padrão em que a boate acabava sendo o obvio cenário para um número musical. As músicas? A maioria tentando antecipar os sucessos do Carnaval que estava por acontecer. Os cinemas do centro das capitais exibiam tais produções nacionais com grande alarde e sucesso absoluto de bilheteria. Se ainda existem os filmes da Atlântida e Cinédia, outros se perderam sem muitas explicações, deixando no ar a decepção de quem chega depois que a festa acabou.

O mais recente filme na área de documentários sobre a música popular, que se agrega aos produzidos nos últimos tempos, é "A Casa do Tom – Mundo, Monde, Mondo" que penetra no mundo particular do mais notável de seus compositores, Antonio Carlos Jobim. É mais que um documento, é um atestado de seu amor à natureza, de sua preocupação com a flora brasileira, em particular a mata Atlântica que inspirou sua obra.

Sua segunda mulher, Ana Jobim, conta que começou a fotografar o marido em 1979 quando se casaram. Ana teve também a iniciativa de filmar Tom para ilustrar uma exposição de fotografias. Sem um roteiro rígido, a equipe contratada foi deixando Tom falar livremente nos mais significativos cenários de sua existência: o sítio em Poço Fundo onde tantas canções foram concebidas, o Jardim Botânico onde passeava diariamente, a casa do Jardim Botânico onde costumava ensaiar a Banda Nova em torno do piano de cauda que dominava a sala principal, seu apartamento de Nova York com espetacular vista da metrópole, as ruas dessa cidade onde Tom se sentia à vontade no quase anonimato e, sobretudo, o ambiente de sua preferência por toda a vida, as matas. Sob as árvores ouvia o piar dos pássaros, tema de que tinha impressionante conhecimento.

Ana juntou também outros filmes e depoimentos para montar o valioso retrato do maior compositor brasileiro, o Tom que até agora só amigos e familiares conheciam. Totalmente à vontade, às vezes de chapéu e com um "manteaux" que disfarça estar ainda com calças de pijama, ele aparece despojado de qualquer formalidade contando detalhes sobre a construção das casas, mostra sua intimidade com a natureza, falando de música menos que o esperado. Mas quando fala faz revelações sobre sua obra, como ao descrever o sentido da letra de seu maior sucesso "Garota de Ipanema" que, como se sabe, foi escrita por Vinicius de Moraes. Tom era também um exímio letrista, e "Águas de março" não me deixa mentir. Fala também sobre sua mágoa com parte da imprensa brasileira que por vezes não soube ou não quis compreender a grandeza de sua obra. E quando aparece tocando piano — tinha um piano em cada casa — vibra-se com a magnitude do Mestre Jobim.

O filme é costurado com o poema "Chapadão" que levou 8 anos para ser completado por ele e o DVD é acompanhado de um livreto ilustrado com fotos e manuscritos do maestro que o mundo conhece através de suas músicas, provavelmente o mais perfeito retrato sonoro do país onde nasceu. Seguramente o mais admirado.

 

Leia aqui aqui sobre a vida de Zuza Homem de Mello.

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