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Copa do Mundo

Em busca da medalha verde

Por Fernanda Dias

Em busca da medalha verde
Leopardo Zakumi, mascote da Copa de 2010

A começar pela camisa canarinho com a qual a seleção vai disputar a Copa da África, feita em material 100% reciclável, o Brasil já demonstra como os eventos esportivos podem ser boas oportunidades para se difundir uma postura ecologicamente correta. Mas, a ambição brasileira com relação à preservação do meio ambiente vai muito além, e seus efeitos só serão vistos daqui a quatro anos: o país quer fazer da Copa de 2014 a mais verde da história do mundial. O desafio é grande, principalmente pelas dimensões continentais do território nacional, que exigem que uma numerosa parte dos deslocamentos de turistas, jogadores e comissões técnicas seja feito em aviões. Mas, especialistas garantem que é possível minimizar os impactos desde que haja planejamento.

“O importante é que os eventos esportivos ajudem a estimular mudanças de hábitos que contribuam para uma vida mais saudável. Os governos locais têm que criar todos os meios para que as formas de vida sustentável sejam garantidas. Questões fundamentais devem ser observadas, como o destino dos resíduos, o compromisso com a reciclagem e a utilização de material reciclável nos objetos que serão muito consumidos, como sacolas, bolsas, camisetas e outros insumos do mundo esportivo”, defende o professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental (Procam), da Universidade de São Paulo (USP), Pedro R. Jacobi ao Opinião e Notícia.

Com o intuito de formular planos sustentáveis para todos os serviços a serem prestados durante o mundial de 2014, o economista ligado ao U.S. Green Building Council (conselho de construções verdes dos Estados Unidos), Ian McKee, e o arquiteto Vicente de Castro Mello criaram o “Plano Copa Verde”. “O projeto é o ponto de partida para transformar a economia do país na economia verde do futuro, utilizando os grandes eventos esportivos como catalisadores deste processo”, afirma Ian Mckee ao Opinião e Notícia. Qualquer pessoa pode contribuir para a elaboração das metas do plano enviando sugestões através do site do projeto. Ian e Vicente já conseguiram o envolvimento dos arquitetos que cuidarão das obras dos estádios das cidades-sede. Sob o prisma ambiental, a preocupação com o verde nas arenas esportivas vai muito além das boas condições do gramado. Para orientar sobre aspectos ambientais que devem ser observados na construção de estádios, a Fifa passou a adotar o projeto “Green Goal”, criado pelo comitê organizador da Copa da Alemanha, realizada em 2006. Os construtores, no entanto, não têm a obrigação de cumprir as recomendações da proposta. Para 2014, o comitê brasileiro aconselhou que as cidades-sede adotem ainda a certificação Leed (Leadership in Energy and Environmental Design), que mede e atesta a eficiência e o impacto ambiental de construções.

A tarefa, no entanto, não é fácil: a tentativa de fazer do Ninho do Pássaro, o estádio criado para as Olimpíadas de Pequim, uma construção totalmente eco-friendly caiu por terra. Os organizadores venderam a arena como altamente ecológica devido aos seus sistemas que geram economia de energia e de água. Mas, a estrutura da fachada acumula sujeira de tal forma que é preciso uma quantidade imensa de água para a limpeza. Além disso, as toneladas de aço utilizadas para criar o aspecto de ninho vão muito além do necessário para a construção de outros estádios e também contribuíram para que o projeto não fosse tão verde quanto o esperado.

“Grandes eventos esportivos demandam obras que podem causar imensos impactos econômico, social e ambiental quando mal planejadas. As novas construções devem reduzir o consumo de energia, água e o custo de manutenção ao longo de sua vida útil. O consumidor está ficando cada vez mais consciente, e isto vai acabar mudando o conceito de beleza, tornando o baixo impacto ambiental mais interessante do que construções como o Ninho do Pássaro, onde a estética estava acima da eficiência”, ressalta Ian Mckee.

Viagens aéreas serão responsáveis por grande parte das emissões das copas da África e do Brasil

Na África do Sul e no Brasil, o grande desafio dos organizadores das copas de 2010 e de 2014 é minimizar os custos ambientais provocados pelas viagens de avião. Além de estarem distantes dos grandes centros, os dois países não têm malha ferroviária ligando as suas cidades-sede, o que acarretará em um aumento considerável no uso do transporte aéreo. Segundo reportagem do jornal britânico “The Guardian”, no mundial do país africano, estima-se que as emissões geradas pelos deslocamentos entre as cidades dos jogos representarão 17,6% do que será lançado na atmosfera pela competição. Além disso, os cerca de 500 mil turistas estrangeiros que são esperados para o evento deverão gerar 67,4% da produção de CO2. Mesmo com alguns cuidados que estão sendo tomados, como o uso de material de demolição na construção do estádio Soccer City, as emissões geradas pelo uso de aviões contribuirão significativamente para que a Copa de 2010 seja a campeã de impacto ambiental. Segundo dados divulgados em Copenhagen, a Copa da África do Sul irá poluir o planeta de nove a dez vezes mais do que a da Alemanha, realizada há apenas quatro anos. O meio aéreo também será fundamental para o transporte de turistas entre as cidades-sede da Copa do Brasil. Um torcedor que vá a uma partida em Porto Alegre e depois quiser ver outro jogo em Manaus precisará se deslocar 4.653 quilômetros, o que só possível de avião, e assim mesmo com escalas:

“Nós não temos um bom sistema de transporte ferroviário, o que é essencial para um país com dimensões continentais. Não acredito que haja tempo hábil para que a malha ferroviária seja ampliada além do trecho Campinas-Rio. No meu entender, pouco pode ser feito, talvez compensações ambientais ou instrumentos que estabeleçam tetos de emissão. Algumas empresas aéreas já têm utilizado material de consumo que reduz o peso transportado, e, portanto, o volume de emissões. Essas são formas de buscar a redução, mas nada que tenha impacto estrutural”, explica o professor Pedro R. Jacobi.

Como as ações em prol do meio ambiente devem ser feitas visando ao médio e longo prazo, as autoridades brasileiras já começaram a criar propostas para que o país não faça feio na Copa de 2014 e nas Olimpíadas de 2016. O Ministério do Planejamento, por exemplo, criou, em janeiro, regras sustentáveis que devem ser aplicadas nas licitações realizadas pelos órgãos do governo federal. As obras públicas, inclusive as de infraestrutura para os dois grandes eventos esportivos que serão realizados no país, têm que ser elaboradas priorizando a redução do consumo de energia e água. Segundo as novas determinações, as construtoras precisam ter um projeto de gerenciamento para os resíduos resultantes das obras que atendam às normas do Conselho Nacional do Meio Ambiente.

No Rio, ações voltadas para o meio ambiente durante a Copa serão testes para as Olimpíadas

Para o Rio de Janeiro, a Copa vai ser um laboratório para os Jogos Olímpicos de 2016. Até porque as regras do Comitê Olímpico Internacional (COI) são bem mais rígidas do que as da Fifa. Desde 1995, a sustentabilidade é um dos quesitos-chave da Carta Olímpica. O compromisso com o meio ambiente é, inclusive, um dos fatores decisivos na escolha da cidade-sede dos Jogos. Na disputa pela Olimpíada de 2016 com Tóquio (Japão), Chicago (EUA) e Madri (Espanha), o Rio precisou mostrar a sua preocupação com a questão. Durante a campanha, o primeiro-ministro de Tóquio Yukio Hatoyama chegou a propor uma redução de até 25% nas emissões de gases que causam o efeito estufa no país até 2020.

O plano de metas que o Rio apresentou ao COI prevê o plantio de 24 milhões de árvores até a competição e todas as instalações que serão feitas deverão buscar neutralizar as emissões de carbono geradas pelo evento. Uma das propostas já implantadas pela prefeitura diz respeito ao licenciamento de obras na cidade: agora, construtoras ou donos de imóveis com área acima de 180 metros quadrados têm que propor alternativas ambientalmente sustentáveis para o imóvel, como artifícios para economia de água, energia e demais insumos. Outra opção é fazer a compensação ambiental do imóvel plantando árvores.

“O Rio de Janeiro, que é uma cidade conhecida internacionalmente pelas suas belezas naturais e onde os projetos se desenvolvem há algum tempo de maneira ecológica, já tem uma visão ambientalmente responsável. Já conseguimos passar essa ideia ao COI, o que ajudou na nossa vitória. Mas, aqui, sabemos dos nossos problemas e temos que contribuir para que eles sejam resolvidos. Essa tem que ser a Olimpíada mais integrada ao meio ambiente. O que nós vamos deixar do ponto de vista de legado é o Rio sustentável”, ressalta o subsecretário municipal de Meio Ambiente, Altamirando Moraes ao Opinião e Notícia.

Segundo Altamirando, as propostas do programa de metas abrangem diversas áreas: até o segundo semestre de 2012, a prefeitura quer desativar o aterro sanitário de Gramacho, em Duque de Caxias. Também está prevista a criação de um corredor verde que vai ligar o Parque Estadual da Pedra Branca ao Parque Nacional da Tijuca. Outra preocupação é diminuir a emissão de poluentes causada pelos veículos. O projeto Transcarioca, um sistema de ônibus articulados que vai ligar a Barra da Tijuca à Penha, além de melhorar o trânsito têm o intuito de reduzir o impacto ambiental. A estimativa do governo é de que a construção do Transcarioca, que deve receber pelo menos 300 mil pessoas por dia, seja concluída até o primeiro trimestre de 2013. De acordo com Altamirando, atualmente 2.400 ônibus fazem esse trajeto. Com a implantação do novo corredor viário, serão apenas 400:

“Dois mil ônibus sairão das ruas. Isso acelera o deslocamento: o passageiro que levava duas horas irá fazer o mesmo percurso em 40 minutos. Há ainda o projeto TransOeste (que vai ligar a Barra a Guaratiba). O sistema de transportes é responsável por 35% das emissões de CO2 da cidade. Estabelecemos a meta de reduzir até 2012, 8% das emissões. Até 2016, queremos chegar a 16% a menos. Só conseguiremos isso melhorando o sistema de transporte”, afirma Altamirando.

Para conseguir atingir suas metas, a comissão organizadora dos Jogos no Rio fez estágio em Vancouver, sede da Olimpíada de Inverno, realizada em fevereiro. O comitê canadense buscou transformar o evento de 2010 em um exemplo de consciência ecológica, mesmo porque o aquecimento global age diretamente sobre as geleiras e montanhas nevadas e os reflexos disso já puderam ser vistos nesta edição dos Jogos: as temperaturas menos rigorosas no começo do ano fizeram com que o comitê criasse um plano emergencial para restaurar a neve em áreas da Cypress Mountain, onde foram realizadas as provas de esqui.

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