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Charles Krafft e o enigma da arte nazista

A intenção de um artista deve influenciar a avaliação de seu trabalho?

Charles Krafft e o enigma da arte nazista
A chaleira de Krafft no formato da cabeça de Hitler era amplamente vista como uma crítica e não apologia ao nazismo (Reprodução/Internet)

No mês passado, um artigo no jornal semanal de Seattle The Stranger expôs o artista Charles Krafft como um defensor da supremacia branca e negador do Holocausto. Desde então, antigos admiradores de seu trabalho começaram a retirar suas criações de suas paredes. Krafft, de 65 anos, é uma figura respeitada no mundo da arte de Seattle há décadas. Seu trabalho tem sido mostrado em galerias de todo o mundo e já foi destaque nas revistas Harper, Artforum, e The New Yorker.

Desde a década de 1990, Krafft é conhecido por combinar cerâmicas decorativas com imagens de teor político – pratos e outros objetos ligados às atrocidades nazistas, granadas e armas AK-47 feitas de porcelana, frascos de perfume com tampas em formato de suástica, e um bule e outras peças no formato da cabeça de Hitler. No passado, muitos colecionadores de arte e curadores interpretaram este trabalho como uma crítica das ideologias intolerantes e totalitárias. Agora, revelações sobre as repugnantes opiniões pessoais de Krafft lançaram seu trabalho sob uma nova luz, levantando perguntas espinhosas sobre como a intenção de um artista deve influenciar a avaliação de seu trabalho.

Há precedentes na história da arte de crenças pessoais hediondas que coincidem com brilhantismo criativo

Uma das peças de Krafft entitulada 'Frascos de guerra biológica' (Reprodução/Internet)

(Ezra Pound, Richard Wagner) e o fanatismo incorporado em obras de grande alcance formal, (“O Nascimento de uma Nação”, “O Triunfo da Vontade”), mas este é um caso incomum do extremismo ideológico de um artista exposto de repente e claramente relevante para a sua arte.

Contrabando de propaganda nazista

Em artigos recentes discutindo a negação do Holocausto de Krafft, uma das principais ideias ganhando tração é a de que ele enganou o mundo da arte fazendo suas  imagens nazistas se passarem por crítica quando, na realidade, ele as via como uma homenagem ou propaganda.  Krafft parece ter usado o pretexto da arte e da ironia para inserir símbolos da extrema-direita em museus, galerias, casas de colecionadores e lojas de decoração de luxo. De acordo com antigos amigos de Krafft, ele ria entre quatro paredes do mundo da arte, de tendência liberal, que ele enganava com sua arte. ”

Um artigo no blog The Weeklings, republicado na revista Salon, sob o título “Nós Deixamos Charles Krafft nos enganar”, questiona: “Se Charles Krafft … foi capaz de enganar milhares de pessoas de que era um gênio progressista, quem mais estamos pagando ou adorando para que nos encham com ódio clandestinamente?

Arte medíocre

Vale a pena mencionar que, nos últimos anos, Krafft produziu algumas obras de arte pouco conhecidas, mas com uma relação direta à sua negação do Holocausto. Por volta de 2008, ele fez uma miniatura de uma família de anões em Auschwitz para o Museu de Arte John Erickson. O museu nunca exibiu a peça, provavelmente porque a declaração do artista que acompanhou a peça deixava bastante claro que a intenção de Krafft era minimizar o Holocausto.

Vários anos atrás Krafft fez “Fowlschwitz”, uma escultura de metal de uma casa de passarinho construída para parecer Auschwitz, que  também foi inspirada por seu “interesse em revisionismo da história” O nome da obra sozinho menospreza os campos da morte nazistas.

Peças como essas devem ser ignoradas, não porque elas refletem uma leitura equivocada e moralmente repugnante da história, mas porque são pouco didáticas, o que as tornam ruins. Porém, por mais difícil que seja, a parte da arte de Krafft que contêm contradições e uma salada de símbolos não deve ser ignorada, mesmo que o público se sinta enojado pelas crenças pessoais do artistas e não saiba exatamente em que medida ou por quanto tempo essas crenças orientaram seu trabalho.  É sempre difícil ver arte sobre o nazismo. Agora que olhar para a arte de Krafft ficou ainda mais difícil, não devemos desviar o olhar.

Fontes:
The New Yorker - Charles Krafft and the conundrum of nazi art

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1 Opinião

  1. Samuel disse:

    Em que proporção se deu os horrores do holocausto, acredito eu, ninguém pode afirmar, mas com toda certeza aquele lamentável episódio da história só ocorreu por conivência das potências europeias e também dos Estados Unidos. É de conhecimento de muitos que as empresas IBM, Esso, Ford, Coca-Cola e outras investiram grandes somas de dinheiro no mercado alemão durante o período imediatamente anterior à guerra, pois esses “nobres” homens de negócio acreditavam que sob a liderança de Hitler a Europa iria prosperar e eles aumentariam ainda mais a sua riqueza. Quanto à admiração desse tal artista Charles Krafft não posso tecer nenhum comentário, senão repudiar a sua admiração pelo nazismo, mas, alguns alguns empresários americanos, como o senhor Henry Ford, nutria certa admiração pessoal por Hitler. Só lamento o fato do trabalhador, seja naquele período como agora, continuar sendo explorado e descartado das decisões políticas e econômicas, uma vez que o regime nazista combatia, inclusive, toda e qualquer reivindicação da classe trabalhadora que obteve apoios de muitos líderes europeus.

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