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Ciclo de palestras mostra várias formas de se ouvir uma canção brasileira

Filosofia, sexo, poesia, memória e internet estão entre os temas que serão debatidos em sete encontros com especialistas. Por Solange Noronha

Ciclo de palestras mostra várias formas de se ouvir uma canção brasileira
Ciclo de conferências 'Para ouvir uma canção' (Fonte: Divulgação)

De terça a sexta-feira desta semana e de terça a quinta-feira da próxima, sempre às 19h, a Caixa Cultural Rio de Janeiro apresenta, no Cinema 2, o ciclo de conferências “Para ouvir uma canção”, com importantes pesquisadores da MPB. Quem quiser participar deve se inscrever na página do evento, com nome completo e uma “motivação pessoal”. Os curadores e coordenadores André Masseno e Tiago Barros explicam que a plateia será formada por ordem de envio: “As respostas servem apenas para tentarmos identificar o perfil do público e o interesse dos inscritos”, diz André. Segundo Tiago, a procura tem superado as expectativas: “E as pessoas vêm elogiando muito a proposta do evento, assim como o local, os palestrantes e os temas escolhidos.” Detalhe: quem comparecer a mais de 60% das palestras receberá certificado de participação e um livro-catálogo com textos dos conferencistas. Haverá ainda espaço para o público se posicionar e debater os temas, depois da apresentação de cada convidado.

A ideia dos curadores nasceu de uma constatação bem simples, a partir da presença e da importância da música nas próprias vidas: a de que o Brasil é um país extremamente musical, com instrumentistas e cantores de alta qualidade. “Além disso, a área sempre despertou grande interesse, vide a profusão de material a respeito de profissionais da música: livros, peças de teatro, programas de TV, filmes e matérias em jornais, revistas e blogs especializados”, diz Tiago. André complementa: “A canção brasileira também tem sido, cada vez mais, objeto de estudo em todo o mundo, inclusive em cursos de graduação e de pós-graduação de diferentes áreas, como filosofia, comunicação, psicologia, história e literatura.” (esta última, aliás, os dois têm em comum em sua formação.)

Atenção voltada para pesquisas

Rodrigo Faour (Fonte: Debora 70)

A dupla, que sempre se interessou pelas pesquisas que vêm sendo feitas a respeito da canção brasileira sob esses diferentes pontos de vista, decidiu estender esta atenção ao público em geral. Assim, a primeira conferência, dia 22, é “O sexo na canção popular”, com Rodrigo Faour, biógrafo de Cauby Peixoto e Claudette Soares, consultor do Museu da Imagem e do Som (MIS) e autor do livro “História sexual da MPB”. André e Tiago o definem como um profissional extremamente competente e apaixonado, que, além de pesquisador, é crítico e produtor musical, responsável, entre outros trabalhos, pela reedição de todos os CDs de Maria Bethânia, Caetano Veloso e Ney Matogrosso. A canção popular brasileira também é tema de dois programas apresentados por Faour: um na rádio MPB FM, outro no Canal Brasil.

Santuza Cambraia Naves (Fonte: Paulo H. Brito)

Santuza Cambraia Naves, autora de livros como “Da bossa nova à tropicália” e “Canção popular no Brasil”, é a palestrante do dia 23, com “Polifonia na canção popular”. André explica: “Ela discutirá as referências — nacionais ou internacionais — usadas — conscientemente ou não — pelos compositores brasileiros. A intenção é tentar entender, pelo viés da antropologia e da etnomusicologia, como se dá essa interferência de vozes alheias na voz do cancionista. Ou seja, como ele traduz o que recebe dos companheiros do ofício.”

No dia 24, o cantor, músico e pesquisador Gaspar Paz debate “Interpretação e canção popular”. “Como ele desempenha as atividades de criador e teórico e tem formação em Musicologia e Filosofia, uma das principais questões a que se dedica é a da metodologia de quem pensa música”, diz Tiago. “Lupicínio Rodrigues foi tema de sua dissertação de mestrado e sua tese de doutorado girou em torno de Gerd Bornheim, para quem a arte brasileira é objeto privilegiado para a análise filosófica.”

A língua-mãe e a “língua órgão”

Mauro Ferreira (Fonte: Adelmo Lapa)

Crítico do jornal O Dia e autor de blog especializado, Mauro Ferreira foi o escolhido para falar dia 25, quando o tema é “A crítica de canção na era da internet”.

Júlio Cesar Valladão Diniz

Já o ensaísta Júlio César Valladão Diniz, coordenador do Núcleo de Estudos em Literatura e Música da PUC-Rio, abre as palestras da próxima semana, na terça, 29, com “A canção que carrega a memória”. Tiago Barros conta que, no livro-catálogo do evento, Júlio César focalizou “Língua”, de Caetano Veloso: “Nesta canção, segundo ele, a voz faz uma interseção da língua-mãe (‘senhora dos sons, dos sentidos e das palavras’) com a língua órgão, que inventa o erotismo do contato (‘fricção que é ferida e prazer’).”

Marcelo Moutinho (Fonte: Cláudia Dantas)

No dia 30, o tema “A canção popular e a cidade cartografada”, a cargo do jornalista e escritor Marcelo Moutinho, organizador do livro “Canções do Rio”. André Masseno não descarta a possibilidade de expandir o evento em outras edições e pensar “outras possíveis cartografias musicais”. Agora, porém, o foco é o Rio de Janeiro: “Marcelo tentará abrir um leque amplo de canções, em diferentes períodos históricos. Será uma viagem sonora muito interessante”, garante o curador.

Cláudia Neiva de Matos (Fonte: Marten Stein)

“A performance vocal e suas ressonâncias”, com a escritora Cláudia Neiva de Matos, fecha o ciclo, no dia 31. “Ela vai explorar a relação entre a voz e a palavra. Ou seja, como a gestualidade vocal do intérprete encontra sentido (ressoa) naquele que ouve e como a palavra falada se transforma em palavra cantada e ganha outros significados”, diz André. “Vale lembrar que a Cláudia foi uma das primeiras pesquisadoras que levou a canção para a Academia. Sua dissertação de mestrado foi sobre o samba e ela escolheu Ciro Monteiro como objeto de sua conferência”, conclui Tiago.

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