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‘Cinco esquinas’, de Mario Vargas Llosa

Um retrato vigoroso da sociedade peruana marcada por anos de uma ditadura corrupta e violenta

‘Cinco esquinas’, de Mario Vargas Llosa
Livro mostra uma sociedade que luta até o fim pela justiça (Foto: Twitter)

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Uma noite, enquanto conversavam despreocupadas, sem a companhia dos maridos, as amigas Chabela e Marisa não perceberam que havia passado a hora do toque de recolher imposto pelo governo durante os confrontos com o movimento terrorista Sendero Luminoso.

Então Chabela decidiu dormir na casa da amiga e, inesperadamente, as duas envolveram-se em uma relação erótica e tornaram-se amantes. Eram jovens, belas e pertenciam à alta sociedade de Lima. Os maridos eram profissionais bem-sucedidos, ricos e influentes. O que acontecera nessa noite passaria a ser um grande e saboroso segredo entre elas.

Mas o mundo perfeito em que viviam, ameaçado apenas pelos guerrilheiros e os sequestros, seria abalado de uma maneira brutal por um escândalo sórdido.

Assim começa o novo livro de Mario Vargas Llosa, Cinco esquinas, recém-publicado pela editora Alfaguara. Ambientado em Lima nos últimos meses da ditadura de Alberto Fujimori (1990-2000), em um momento em que o regime começava a desmoronar, o livro retrata uma sociedade mergulhada em um contexto político de repressão violenta e corrupção, perseguida pelo jornalismo sensacionalista, mas que luta até o fim pela justiça e liberdade.

Apesar de a história ter uma forte carga erótica, o tema que permeia Cinco esquinas, que impregna a narrativa é a imprensa marrom, a do escândalo e da calúnia. A ditadura de Fujimori, sobretudo na época de Montesinos, o Doutor no livro, o implacável chefe de Segurança do Estado e eminência parda do governo, usou a imprensa sensacionalista como uma arma política para destruir os opositores do regime.

Após a visita do jornalista Rolando Garro, diretor do pasquim Revelações, para chantageá-lo com fotos comprometedoras de seu passado, Enrique Cárdenas, marido de Marisa, vive em uma espiral de destruição de sua vida pessoal e profissional, em um submundo de intriga e violência controlado pelo presidente Fujimori e Montesinos. Em seguida, um assassinato brutal abala ainda mais as frágeis relações em um mundo dominado por um poder despótico.

Porém a relação entre a imprensa sensacionalista e o governo corrupto e autoritário de Fujimori é revelada, curiosamente, pela coragem da redatora principal de Revelações, Julieta Leguizamón, em uma edição especial do tabloide em que acusa de assassino e corruptor da imprensa peruana, o chefe do Serviço de Segurança, o Doutor. É o amor à liberdade de expressão, à verdade e à justiça que a estimulam a escrever o editorial apesar dos riscos que corria.

O jornalismo sensacionalista pode ser algo vil e sujo, mas, ao mesmo tempo, consegue se transformar em um instrumento de libertação, de defesa moral e cívica de uma sociedade. Esses dois aspectos do jornalismo são um dos temas centrais de Cinco esquinas.

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