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Como arrancar risadas do sofrimento

Escritor David Grossman provoca risos em seu novo livro de humor negro em que o sofrimento é exposto em toda a sua crueza

Como arrancar risadas do sofrimento
Só um autor com o talento de Grossman consegue transformar um monólogo de um comediante em um discurso de impacto (Foto: Pexels)

Em um clube pobre e decadente na cidade israelense de Netanya, um pequeno comediante franzino de 57 anos sobe ao palco. Doenças, morte, guerra: temas escolhidos por um provocador prolixo cujo ataque de indignação atrai um público, horrorizado, mas também fascinado, para um “abismo sedutor”. Logo depois o leitor percebe que Dovaleh, o ator masoquista, está dirigindo sua língua ferina não tanto para assuntos tabus como para si mesmo e para um juiz aposentado, um antigo colega de classe, que a seu pedido sobe ao palco para contar uma história. O juiz Lazar agora teme que um relato vergonhoso de traições de adolescentes venha à tona. Será que Dovaleh irá colocar o juiz no banco dos réus?

No drama, no cinema e na ficção, em geral, as comédias são um fiasco. Mas em seu novo livro, A Horse Walks into a Bar, um monólogo entremeado com as lembranças do juiz, David Grossman, um excelente escritor israelense, ousou focar sua atenção em um talento real, apesar de destrutivo. Embora seja uma pessoa amarga, várias vezes divorciada e sobrevivente de um câncer, além de originária de uma família dizimada pelo Holocausto, Dovaleh provoca um “riso de admiração por sua precisão, sutileza e sabedoria teatral”. Os espectadores, mesmo os que interrompem a apresentação com perguntas tediosas, tornam-se “parceiros em uma transgressão ambígua e fluida”.

Só um autor com o talento de Grossman consegue transformar um monólogo de um comediante não em um fracasso, mas sim em um discurso de impacto, entremeado com piadas maliciosas e obscenas, que na ótima tradução de Jessica Cohen provoca um riso culpado. O monólogo tenso de Dovaleh por fim relata a história triste de um acampamento de jovens adolescentes onde, aos 14 anos, ele soube da morte de um pai. A infelicidade do juiz é agravada pela morte recente da esposa. À medida que a narrativa se desenrola, Grossman desenterra as raízes distorcidas do sofrimento dos dois homens.

Este livro não se assemelha a Falling Out of Time, a elegia misteriosa com que Grossman rompeu o silêncio em 2011 depois do luto pela morte do filho Uri na guerra com o Líbano. Os dois livros, no entanto, giram em torno de reações dramáticas diante da tristeza profunda pela morte de um ser querido. O primeiro como uma tragédia lírica, o segundo como uma comédia de humor negro. As luzes escurecem, o palco do clube desaparece, mas o sofrimento expresso por Dovaleh em sua frase “meu Chernobyl privado” ainda brilha e impressiona pela intensidade emocional.

Fontes:
The Economist-Funny man

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2 Opiniões

  1. olbe disse:

    Os judeus, os que mais sofreram perseguições ao longo da história aprenderam a sobreviver rindo de suas próprias desgraças e assim continuaram a existir e se tornarem unidos.

  2. Paulo Fernando disse:

    As vezes se aprende com o sofrimento, mas as feridas deixam marcas, sem interromper a sobrevivência
    que ao passar do tempo, tudo se normaliza, trazendo um novo brilho.

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