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Fronteira Hostil

Como não atrair turistas

Pesquisa da U.S. Travel Association descobriu que viajantes estrangeiros têm mais medo dos funcionários da imigração dos Estados Unidos do que de terrorismo ou crime

Como não atrair turistas
Norte-americanos sabem melhor do que governo como receber visitas (Reprodução/NYT)

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Seja o que for que estrangeiros pensem dos Estados Unidos, é improvável que a experiência de cruzar a fronteira do país os faça ter uma visão melhor.

Imagine que você é cidadão de um país democrático e próspero como Reino Unido, Espanha ou Japão, e gostaria de visitar os Estados Unidos. Antes de viajar, você deve pagar 14 dólares para completar um formulário online do governo deles chamado ESTA (Sistema eletrônico para autorização de viagem, na sigla em inglês)

O ESTA pede dados pessoais básicos, como o seu nome e data de nascimento. Ele também pergunta se você é culpado de “atos imorais”, se você está planejando crimes ou “atividades imorais” e se você sofre de “lymphogranuloma venereum” (não pergunte). Se você está envolvido em terrorismo ou genocídio — e se por alguma razão você decidiu aproveitar essa oportunidade para informar o governo dos Estados Unidos — há uma caixa para isso. E se você for um espião —um particularmente ignorante —por favor, informe.

Naturalmente, ninguém com algo a esconder responderá honestamente. Tais perguntas sem propósito lembram Thoreau — “Eu vi que o Estado é imbecil” — e deveria surpreender os norte-americanos, que sabem melhor do que o governo como receber visitas.

O ESTA tem outros problemas. É quase unicamente um fardo norte americano: entre os principais países europeus e democracias do Pacífico que os norte americanos podem visitar sem visto, alguns países (como o Reino Unido, por exemplo) exigem que alguns viajantes completem um simples formulário a bordo, mas apenas a Austrália exige que alguns viajantes completem um pré-registro online pago como o ESTA. O ESTA também duplica informação pessoal que passageiros ainda precisam fornecer separadamente para o Advance Passenger Information System.

Esteticamente, o site do ESTA —a varanda digital frontal dos Estados Unidos — é um desastre: pouco convidativo e vergonhosamente inconsistente com a preeminência em tecnologia da informação dos Estados Unidos. Dez dólares da taxa do ESTA são destinados a campanhas de propaganda “visite os Estados Unidos”. Promoção do turismo é bom senso. Mas seria bom reconsiderar a sabedoria em exigir que viajantes a subsidiem em troca de um interrogatório sobre sua saúde sexual e atividades genocidas.

Antes de aterrissar, viajantes (incluindo norte-americanos) devem ainda completar um formulário da alfândega. Mas perguntar a viajantes se eles estão carregando caracóis ou “agentes de doença” é tão fútil quanto perguntar se eles colaboraram com os nazistas (outra pergunta do ESTA). Suécia, Alemanha e muitos outros países ainda não infestados por caracóis têm uma abordagem mais prática. Esses países colocam regras no corredor da alfândega e pulam papelada sem sentido que apenas pessoas honestas vão responder honestamente.

Finalmente, quando viajantes desembarcam, eles frequentemente são submetidos a lições imprecisas sobre os modos e o bom senso norte americanos. Norte americanos ficariam surpresos com as conclusões de uma pesquisa da U.S. Travel Association, que descobriu que viajantes estrangeiros tinham mais medo dos funcionários da imigração dos Estados Unidos do que de terrorismo ou crime. Eles ranquearam a fronteira dos Estados Unidos como sendo de longe a menos acolhedora do mundo. Dois terços tinham medo de serem detidos por “erros bobos ou declarações inexatas”.

Desde então, de acordo com Geoff Freeman, oficial chefe de operações da travel association, a experiência da fronteira para visitantes “continua um assunto significativo”. Parcialmente, diz Freeman, isso acontece porque os funcionários das fronteiras são sobrecarregados pelo volume de viajantes; mas o maior problema é uma atitude que vê “segurança e atendimento ao cliente como mutuamente excludentes”.

Essa mentalidade de segurança ocasionalmente leva a absurdos. Recentemente, dois jovens turistas europeus foram detidos no Aeroporto Internacional de Los Angeles por tuitarem brincando sobre planos para “destruir” os Estados Unidos (em referência a festas, aparentemente) e desenterrar Marilyn Monroe. O pessoal da polícia da fronteira procurou por pás em suas bagagens e em seguida deportou-os. Analistas no exterior reagiram com um revirar de olhos de fadiga, mas com pouca surpresa.

Adicione filas longas e regras sem sentido com aplicação irregular — por exemplo: agentes gritam com viajantes por usarem celulares em alguns halls de desembarque, enquanto que em outros tal tecnologia não é tratada como ameaça à república — e os norte americanos passam a forte impressão de uma cultura obediente que está se tornando ligeiramente desequilibrada.

Felizmente existem formas seguras e pouco dispendiosas de restaurar os valores norte americanos às suas fronteiras e mostrar ao mundo que estão abertos aos negócios. Para isso seria bom remover as perguntas bobas do ESTA e promover um concurso para o desenvolvimento de um website bonito.

Acabar com os formulários da alfândega salvaria dinheiro, árvores e tempo. Os procedimentos de segurança de muitos outros países são impor limites alfandegários para assistir os cidadãos cumpridores da lei e usar inteligência e buscas aleatórias para pegar criminosos. Além disso, deveriam contratar mais funcionários para as fronteiras, diminuindo as filas e reduzindo as pressões nos agentes (um uso melhor, talvez, da taxa do ESTA). Para habilidades de relacionamento pessoal a China é um bom exemplo. No novo aeroporto de Pequim, viajantes são convidados a avaliar eletronicamente seu agente de imigração.

Os funcionários alfandegários de nenhum país são perfeitos, como todo viajante sabe. Mas os Estados Unidos — uma terra onde estranhos se cumprimentam em elevadores, garçons agem como se gostassem de você, lojas contratam recepcionistas profissionais e o governo serve ao povo — deveriam mirar o melhor. Isso significa um sorriso ou “olá” quando o viajante fala com os agentes, um “por favor” e “obrigado” antes e depois de cada pedido oficial e um ocasional “bem vindo” quando o turista cruza a fronteira de segurança.

Visitantes não merecem nada abaixo disso.

Fontes:
The New York Times - How Not to Attract Tourists

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1 Opinião

  1. Thomas Korontai disse:

    Bingo!

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