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Contemplando 500 anos de música no Rio de Janeiro

Permeada pela interatividade, a exposição 'Rio Música' resgata a história musical da cidade

Contemplando 500 anos de música no Rio de Janeiro
Exposição traz cerca de 40 instrumentos variados, e projeções de outros 60 (Fotos: Cristina Granato)

“Quinhentos ou seiscentos selvagens não cessaram de dançar e cantar de um modo tão harmonioso que ninguém diria não conhecerem música”. Assim o viajante e escritor francês Jean de Léry descreveu as atividades musicais dos indígenas brasileiros no século 16. E é justamente graças à sua notação de seis cantos tupinambás que hoje conhecemos um pouco da produção musical antes da chegada dos europeus, podendo contemplar cinco séculos de composições brasileiras.

A curadora Rosana Lanzelotte

Um panorama destes 500 anos pode ser visto na exposição Rio música, que desde o dia 26 de abril no Centro de Referência da Música traz instrumentos, vídeos e instalações digitais interativas abrangendo a música do Rio de Janeiro, partindo das antigas manifestações dos tupinambás registradas por de Léry até os bailes funk. Com curadoria da cravista, pesquisadora e especialista em informática Rosana Lanzelotte, a exposição se divide em seis grandes temas: “O canto dos tupinambás”, “Instrumentália”, “Tempo”, “O caminho das notas”, “Mesa musical”, e “Teclas do Rio”.

Toda a exposição é permeada pela interatividade, mostrando a história musical de maneira lúdica. Em “Instrumentália”, por exemplo, uma tela multitoque permite aos visitantes selecionar vídeos de cerca de 60 instrumentos, e verem como são tocados. Já o “O caminho das notas” é uma instalação que permite ao público acompanhar, com som e imagem, a notação musical de quatro obras: “Trenzinho do Caipira” (Heitor Villa-Lobos), “Ainda me recordo” (Pixinguinha e Benedito Lacerda), “A inúbia do caboclinho” (Guerra Peixe) e “Variações sobre o Samba do Urubu” (Radamés Gnattali sobre os improvisos de Pixinguinha). Participaram da gravação dessas peças músicos como José Staneck, Ricardo Santoro, Celsinho do pandeiro, Henrique Cazes, Marcos Nimrichter e Maria Teresa Madeira, entre outros. Acionando botões, é possível ligar e desligar instrumentos das faixas musicais.

Instalação 'O caminho das notas' permite acompanhar a notação musical de quatro obras

“A ideia de usar a tecnologia me pareceu interessante para aproximar os jovens dos vários estilos musicais”, avalia Rosana. “A interatividade do ‘Caminho das notas’ mostra de uma forma visual e muito lúdica como funciona a notação musical. Os grafismos que aparecem na tela se desenvolvem como se fossem uma partitura, dando uma ideia de como as vozes se compõem para formar uma música”.

Logo de entrada, com o “O canto dos tupinambás”, os visitantes são recebidos por uma instalação de áudio com as gravações dos arranjos de Villa-Lobos para as notações de Jean de Léry. Depois, a “Linha do tempo” faz uma cronologia da música no Rio de Janeiro, desde os tempos em que o Padre Anchieta usava a música para catequizar os índios até os dias atuais, marcados pela música eletrônica, o rap e o funk.

“A cronologia exigiu um trabalho de pesquisa extenso, cuja compilação é uma obra em construção”, conta a curadora. “Paralelamente ao arquivo do museu, novas composições serão acrescentadas num acervo virtual do projeto Musica Brasilis. Nosso objetivo é contemplar de forma panorâmica todas as outras manifestações musicais que continuam acontecendo, sempre agregando novos compositores”.

'Instrumentália' reúne instrumentos de sopro, cordas e percussão

Sem preconceitos musicais, a ‘Linha do tempo’ mostra toda a diversidade da música no Rio de Janeiro.

“O programa educacional capacita jovens monitores, selecionados entre moradores nas comunidades vizinhas, como o Borel. Era importante acrescentar o funk feito nessas comunidades para mostrar que tudo faz parte de uma mesma família musical. A primeira coisa que alguns monitores fizeram ao ver a ‘Linha do tempo’ foi procurar onde estavam os compositores de funk do Borel”.

A 'Mesa musical' permite público “compor” uma música

“Mesa musical” é uma mesa interativa, desenvolvida em parceria com o compositor Tim Rescala, que permitirá ao público “compor” uma música, a partir de trechos pré-gravados. Os visitantes acionam esses trechos a partir da movimentação de objetos em uma mesa e constroem uma música coletiva. O segmento “Rio das teclas” oferece uma viagem no tempo pela história da música no Rio, a partir das teclas de um piano cenografado. Ao tocar uma tecla, o público vai acionar vídeos em ordem cronológica sobre personagens e momentos relevantes da música carioca.

'Rio das teclas' é uma viagem pela história do Rio

Cada período será ilustrado por imagens, gravações, textos narrados ou projetados desde os cantos tupinambás; a catequese dos jesuítas feita com música; os primeiros espetáculos teatrais, no século 18, de Antonio José da Silva, o Judeu, que morreu queimado na inquisição; a transformação do Rio na capital musical das Américas, em 1808, com a chegada de D. João VI; até o século 20, palco de uma sucessão acelerada de teatro de revista, maxixe, choro, samba, bossa nova, jovem guarda, rap, funk e música eletrônica.

“Acredito que este é o piloto de um possível Museu da Música”, projeta Rosana. “Talvez o Rio Música possa ser o ensaio para algo maior, até porque parte do acervo é virtual e pode ser replicada em outros lugares”.

A exposição é gratuita e está aberta à visitação, de terças a domingos entre 10h e 18h, no Centro de Referência da Música Carioca – Rua Conde de Bonfim, 824 – Tijuca.

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2 Opiniões

  1. Dorival Barroso disse:

    Parabéns à Prefeitura do Rio e à Secretaria Municipal de Cultura, parabéns à cravista Rosana Lanzelotte pela realização dessa magnífica exposição “Rio Música”, que já tive o prazer de visitar, e pelo projeto “Música Brasilis”, que já se tornou referência nacional em matéria de coleta e armazenamento de partituras de música brasileira. “Last but not least”, parabéns ao autor pela ótima reportagem.

  2. Antonio Campos Monteiro Neto disse:

    Parabéns a Rosana Lanzelotte e a toda sua equipe por mais essa iniciativa pela divulgação do nosso patrimônio musical. Nesse árduo trabalho, têm sido incansáveis!

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