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Literatura

Continuação de ‘O Apanhador no Campo de Centeio’ será lançada fora da América do Norte

Acordo proíbe autor de fazer menções à obra de JD Salinger

Continuação de ‘O Apanhador no Campo de Centeio’ será lançada fora da América do Norte
A continuação não-autorizada de 'O Apanhador no Campo de Centeio' será reeditada em breve

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A famosa obsessão por privacidade de J.D. Salinger provocou uma série de litígios prejudiciais à sua própria carreira. Um dos últimos atos públicos do escritor foi entrar com um processo contra a publicação de um livro que, sem a ação, teria passado despercebido. O caso finalmente foi finalizado no começo de 2011, garantindo o legado de Salinger como o principal inimigo da cultura aberta.

“60 Years Later: Coming Through The Rye” (“60 anos depois: Atravessando o Campo de Centeio”), de Frederick Colting, um até então desconhecido autor da Suécia, que lançou o livro sob o pseudônimo de “John David California”, conta a história metafictícia do desejo de J.D. Salinger de ressuscitar seu personagem mais famoso para finalmente matá-lo em um de seus romances, silenciando, assim, as vozes problemáticas dentro de sua cabeça. Mas a versão mais idosa de Holden Caulfield – chamada agora de Mr. C – escapa de seu asilo para revisitar seus fantasmas em Nova York, fugindo assim das intenções letais de seu autor.

De acordo com a maioria dos críticos, o livro é uma tentativa fracassada, destinada a permanecer sem ser lida ou reconhecida. No entanto, Salinger não conseguiu suportar a ideia de outros usando suas palavras e não podia deixar o livro de Colting simplesmente desaparecer. Em 2009, Salinger venceu um processo contra a publicação do romance nos Estados Unidos. Colting recorreu e um painel do Segundo Circuito de Tribunais de Apelação anulou o processo e devolveu o caso ao Distrito, reconhecendo a alegação de Salinger, de acordo com a interpretação vigente do “uso justo” da lei norte-americana de copyright (o juiz Guido Calabresi considerou os esforços de Colting como um “trabalho deprimente”). Logo depois disso, Salinger morreu. Na última semana, Colting e seus herdeiros chegaram a um acordo fora dos tribunais.

Colting concordou em não publicar ou distribuir o livro em qualquer edição (incluindo e-books) nos Estados Unidos e no Canadá até que “O Apanhador no Campo de Centeio” entre em domínio público. No entanto, Colting está livre para vender o livro em territórios internacionais sem medo de interferência, e as vendas de direitos internacionais incluem provas de que os herdeiros de Salinger não irão interferir nas vendas. Porém, o acordo proíbe que Colting use o título “Coming Through the Rye”; impede que ele dedique o livro a Salinger; e não permite que ele ou outro editor do livro faça referências a “O Apanhador no Campo de Centeio”, a Salinger, ou ao processo judicial, na promoção do livro. No fim das contas, Salinger não foi capaz de aprisionar o gênio na garrafa, mas seus herdeiros conseguiram evitar que ele obtivesse visto para os Estados Unidos.

A ação contra Colting foi apenas a última numa longa série de processos que Salinger iniciou para manter um rígido controle sobre suas obras. Em 1986, ele conseguiu impedir que Ian Hamilton incluísse trechos de suas cartas, que estão arquivadas em várias bibliotecas de universidades, em seu livro “In Search of J.D. Salinger: A Writing Life (1935-65) (Em Busca de J.D. Salinger: Uma Vida de Literatura [1935-65])”. O tribunal declarou que os trechos selecionados por Hamilton iam além do “uso justo”. Em 1998, Salinger ameaçou iniciar um processo para impedir a exibição no New York Lincoln Centre , do filme “Pari”, uma adaptação livre de seu livro “Franny and Zooey”, dirigida pelo iraniano Dariush Mehrjui.

Por que Salinger se importaria com um obscuro cineasta iraniano que o homenageou com uma reflexão sobre sua heroína, uma universitária nova-iorquina do fim dos anos 1950, obcecada com o conceito de “rezar incessantemente” e cujo colapso nervoso é acelerado por um comentário feito por seu pai em um jantar, no qual ele afirma que Flaubert não tem “testicularidade”.

Uma das poucas entrevistas de Salinger foi estimulada pela indignação do autor com a publicação não-autorizada de uma coleção de contos que ele pretendia manter fora do mercado. “Algumas histórias de minha propriedade foram roubadas. Alguém se apropriou delas. Este é um ato ilícito e injusto. Imagine se alguém fosse ao seu armário e roubasse um casaco que você adora. É assim que me sinto”, disse Salinger.

É verdade que Salinger tinha direito a parte dos lucros dessa publicação, e certamente ele buscava alguma compensação financeira. No entanto, essas eram obras que ele nunca quis que fossem republicadas, logo é de se estranhar que a possibilidade de lucros perdidos fosse a origem de sua ira. Como Nina Paley ilustrou, fazer cópias de algo não é como roubar um casaco. Quando alguém rouba seu casaco, você não pode mais usá-lo. Se alguém distribui cópias de suas histórias, há mais para todo mundo. Uma alternativa ao discurso do autor seria: “suponhamos que você seja um patriarca autoritário que exige que seus filhos de meia-idade comam mingau no café da manhã, e que um dia, subitamente, eles se recusam. É assim que me sinto”. A única coisa que Salinger perdeu realmente foi seu senso de controle exclusivo sobre tudo o que criou.

Se essa é ou não o tipo de perda que pode ser considerada um dano real, se existe ou não uma base moral legítima para esse tipo de controle sobre trabalho criativo, é uma das grandes questões de nossa era. Levando em conta os bem sucedidos esforços legais da Disney, da indústria musical e de artistas como Salinger, o modelo vigente de copyright é mais um indício de como a economia política é desviada para proteger os privilégios. Essa mudança de percepção pode ser explicada por uma mudança maior em nossa cultura criativa. A ascensão de técnicas como o sample, o remix e o mashup, juntamente com o crescimento de movimento de softwares de códigos-fonte abertos pôs em risco o sentimento crescente de que trabalhos criativos retiram e adicionam a um reservatório comum de cultura compartilhada.

Essa mudança no clima e nas ferramentas da classe criativa diminuíram o charme da agressão judicial de Salinger contra biógrafos, cineastas e escritores inferiores, fazendo-o parecer menos com um resmungão de New Hampshire que expulsava fãs de seu gramado, e mais como uma falha em sua generosidade. Um homem decente não atiraria em crianças que cortam caminho por seu quintal, mas Salinger, várias e várias vezes, mirou com cuidado e disparou.

Fontes:
Economist - J.D. Salinger's miserly legal legacy

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3 Opiniões

  1. Helio disse:

    Dou toda a razão a Salinger em relação a sua obra.

  2. iria Barradas disse:

    O cara morreu e não quer ser enterrado, por isso que fede tanto.

  3. Emanuelle Bezerra disse:

    Detesto continuações. Principalmente neste caso, em que um cara quer se aproveitar do talento do outro. Patético.

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