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Criação da imprensa tem aspectos em comum com a revolução digital

Em seu curso “O mundo digital: aonde a mudança tecnológica levará a sociedade”, o jornalista Pedro Doria fez uma digressão até a imprensa de Gutenberg para explicar onde estamos. Por Layse Ventura

Criação da imprensa tem aspectos em comum com a revolução digital
Talvez não seja exagero dizer que o Vale do silício é a Florença de hoje, diz Doria (Reprodução/Internet)

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Quando alguém se propõe a discursar sobre o mundo digital, um séquito de entusiastas acompanha de perto cada palavra. Não somente porque o profeta fosse Pedro Doria, atual editor-executivo de Plataformas Digitais do jornal “O Globo”, mas porque é um mercado muito dinâmico e não se sabe ao certo que práticas devem ser adotadas. No meio digital, qualquer pessoa que tenha uma vaga idéia para onde estamos indo será ouvida com atenção.

Em seu curso “O mundo digital: aonde a mudança tecnológica levará a sociedade” na Casa do Saber, Doria faz uma regressão a invenção da imprensa por Gutenberg para discursar sobre o como chegamos até aqui. Ele também analisa práticas jornalísticas que deram certo, como o site do jornal o Estado de S. Paulo, e métodos que falharam, como as duas tentativas de cobrança de conteúdo pelo jornal “The New York Times” — que pela terceira vez parece funcionar.

“Talvez não seja exagero dizer que o Vale do silício é a Florença de hoje. Evidentemente, é um bocado diferente daquela do início do século XVI, mas tem uma série de motivos que fazem daquele lugar um lugar onde essas coisas estão surgindo, numa espécie de um novo renascimento”, destaca Doria.

A reinvenção da prensa

Modelos de prensa com tipos móveis já tinham sido desenvolvidos em outros países, como na China, em 1041, por Bi Sheng. Quase dois séculos depois, a Coreia aprimora a tecnologia, criando a primeira máquina com tipos móveis de chumbo. Portanto, é difícil afirmar que Johannes Gutenberg inventou a imprensa em 1449. Principalmente, considerando que nesse período já havia o fluxo de mercadores europeus no oriente. Mas, o importante, segundo Doria, não é se ele inventou ou não a prensa. O fato é que agora ele inaugura um momento de circulação de textos escritos na Europa.

Antes da invenção da prensa, ler um livro era uma manobra que exigia muito esforço. Poucas pessoas tinham livros, eles eram manuscritos, e para lê-los não apenas era necessário saber ler, mas saber ler em grego clássico e latim — idiomas já considerados extintos naquele período.

Com a popularização dos livros, começa a surgir uma classe letrada na Europa. Gutenberg, porém, não estava vivo para ver as consequências da prensa. Ele morreu falido e desconhecido, porque, em vida, a invenção da imprensa não deu certo. O muito pouco que se sabe sobre Gutenberg é porque ele morreu endividado.

Veja na galeria a evolução das editoras na Europa

Novas ideias para uma imprensa incipiente

Diversas convenções do texto escrito vão ser inventadas após a criação do livro impresso. O editor e tipógrafo italiano Aldo Manuzio foi um dos maiores responsáveis por transformar o padrão estético dos livros. Ele inventou a fonte itálica, o ponto e vírgula, o formato de livro octavo. Como Manuzio, outros europeus estavam inventando sistemas de pontuação, espaçamento e parágrafo — ideias que não existiam no tempo do manuscrito, vão aparecer apenas entre 50 e 60 anos pós-Gutenberg.

Apesar de a revolução da imprensa ter criado um boom de escritores de romances e poetas, a maior importância do livro vai ser a produção de obras de geografia, botânica e engenharia. O conhecimento finalmente é passado de forma linear. A vida pré-Gutenberg acontecia mais ou menos da mesma maneira que ocorria no império romano. Durante quinze séculos, as pessoas cultivavam alimentos e construíam prédios quase com a mesma tecnologia. A explosão de conhecimento ocorre justamente pós-Gutenberg.

A criação da imprensa tem muitos aspectos em comum com a revolução digital em que vivemos agora. A ideia é um paralelo feito a partir de um livro escrito por Elizabeth Eisenstein: “The printing revolution”. “Quando o acesso a informação é radicalmente ampliado, há um período de confusão. Tudo o que valia antes é posto em dúvida”. Este é a única obra escrita por um acadêmico para entender como foi a revolução da imprensa durante os anos em que ela foi acontecendo.

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