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28ª Bienal de São Paulo

Curiosidade e boa vontade para descobri-la

Para conhecer o doce é preciso ter provado o azedo. Para merecer as cores é preciso coragem de mergulhar no branco que há em nós. Para nascer é preciso útero! E todo útero é vazio antes de abrigar o primeiro choro de uma idéia.

A chamada Bienal do vazio, que reúne obras de 40 artistas de 20 diferentes nacionalidades na 28ª Bienal de São Paulo, não é o que se espera de uma Bienal.

Não porque ostenta um pavilhão inteiro completamente nu, tampouco porque falta beleza ou cores, mas porque você é capaz de passar uma tarde inteira caminhando por entre as obras e não sentir nenhuma mudança na própria retina.

E para que serve a arte, afinal, se não transformar? Transformar o que pensamos, o que sentimos, o nosso entendimento de mundo, de Homem? A arte, quando não transforma, é apenas um ato de auto-ajuda, já dizia Domingos Oliveira.

Mas nem tudo é bege ou cor de tábua com fotos-colagens e exibição de vídeos na Bienal.

Com um pouquinho de boa vontade é possível perceber a beleza onde ela não está. Com um pouquinho de curiosidade e conversa com os atenciosos monitores é possível repensar alguns conceitos.

Esqueça as famosas plaquinhas auto-explicativas sobre as obras. Se você quiser informações sobre o que vê, terá que perguntar e, ao perguntar, será surpreendido pela excelente aula que receberá.

Foi numa dessas aulas que Fernando Piola me explicou que o tema da Bienal era a memória, nossa capacidade de armazenamento e a maneira como codificamos as informações que nos chegam.

Noutra, que Fernanda Proença revelou que a proposta era discutir até que ponto a arte deve estar dentro de um pavilhão e não nas ruas, nas experiência de cada um.

Embora a questão da beleza já tenha sido exaustivamente discutida na classe artística e posta em xeque inúmeras vezes, o convite ao que ela provoca em nossa pele é irrecusável. E nessa Bienal, dois artistas foram capazes de ouriçar pêlos alheios: Leya Mira, de São Paulo, e Javier Peñafiel, da Espanha.

Leya, pela beleza de suas gravuras em placas de metal que sugerem um passeio pelo lado onírico e pelas palavras que acompanham cada gravura: "O segredo é acreditar no amor distante, pois todo amor é distante".

Aliás, eis outra característica dessa Bienal: o uso constante da palavra em quase todas as obras.

Javier, pelo que propõe em sua "agenda que pretende acabar com o fim dos tempos drásticos", um livrinho que você pode levar para a casa e fazer anotações, além de um vídeo que explica entre gravuras e vozes: "inadequados para o diálogo, abusamos das notas".

De fato não é o que se espera de uma Bienal, mas pode ser um bom passeio num dia chuvoso.

A Bienal acontecerá até o dia 06/12/2008, no Parque do Ibirapuera, portão 3, em São Paulo. Horário de funcionamento: Segunda a Sexta-Feira, das 10 às 22 horas.

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2 Opiniões

  1. Amanda Nogueira disse:

    É, também ouvi críticas à Bienal. Mas esse tom poético até me deu vontade de ir!

  2. EDVALDOTAVARES disse:

    DA DESCOBERTA DE TUDO QUE O CERCA É O NÃO-EU, O SER HUMANO DESCOBRIU O EU. Assim nasceu a consciência de indivíduo – unidade, individual, isolado, não preso às demais coisas que ocupam o ambiente. Possivelmente, a partir dessa percepção tenha nascido o egoísmo. Artes que espicaçam o exercício do pensamento reflexivo, após longo volteio analítico, fazem a mente retornar ao mesmo ponto, o começo de tudo, a tomada de consciência do eu. O quão de importancia representou no primórdio da trajetória existencial humana esta descoberta. O que seríamos hoje, tentemos visualizar com a contribuição da hipótese, se naquele dado momento do remoto passado da humanidade o homem não tivesse apreendido tal vislumbre? O planeta teria mais uma espécie irracional. A apropriadamente denominada de "A Bienal do Vazio" é destituída de significado para as mentes que a investigam com o emprego das ferramentas do pensamento lógico, hmisfério cerebral esquerdo, inadequadas. Cabe, de maneira mais acertada, o uso dos pensamentos dedutivo e indutivo, hemisfério cerebral direito, na captura da compreensão. Aos equipados com estes pertinentes acessórios vislumbrarão em seu inato imaginário, também hemisfério cerebral direito, todo o significado artístico das obras. BRASIL ACIMA DE TUDO! SELVA! EDVALDOTAVARES. MÉDICO. RIO DE JANEIRO/RJ.

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