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Música Clássica

Daniil e Guiomar

Guiomar Novaes é lembrada em livro e num festival que traz ao Brasil vencedores de importantes concursos internacionais de piano. Por Clóvis Marques

Ele é da era da Internet; ela é do tempo do gramofone. Ele pode ser ouvido instantaneamente no YouTube; ela precisa ter suas gravações resgatadas. Ele toca com uma gana-quase-fúria não destituída de delicadeza; ela não negava fogo, em se tratando de força e bravura, por trás de uma personalidade musical em que ressaltavam o cantabile e a beleza da sonoridade.

O russo Daniil Trifonov, de 20 anos, e a brasileira Guiomar Novaes (1894-1979) se encontraram no Festival Internacional BNDES de Piano do Rio de Janeiro, que começou neste domingo 27 no Teatro Municipal do Rio e se estenderá nas próximas semanas na cidade e várias capitais nordestinas.

Trifonov é um dos jovens pianistas com prêmios em concursos importantes que participam do Festival, destinado a manter aceso o interesse entre as edições do Concurso Internacional BNDES do Rio de Janeiro, que é bienal e terá sua próxima edição em 2012. O mais prestigioso dos muitos prêmios que Trifonov já abiscoitou é o do Concurso Internacional Tchaikovsky de Moscou deste ano. Ele tem colhido neste início de carreira elogios rasgados que vão de Martha Argerich ao crítico do New York Times.

Capa do livro sobre Guiomar Novaes (Fonte: Reprodução/Divulgação)

Guiomar é revivida no livro Guiomar Novaes do Brasil, dos jornalistas Luciana Medeiros e João Luiz Sampaio, que recolhe, em edição Kapa Editorial financiada pelo BNDES, vasta documentação (inclusive iconográfica) da carreira americana e especialmente nova-iorquina da grande pianista brasileira (o livro está à venda na Cultura).

Ver Daniil Trifonov tocar no Municipal do Rio um programa todo dedicado a Chopin e Liszt – no Steinway novinho em folha que o BNDES doou à Orquestra Sinfônica Brasileira – foi emocionante e esclarecedor.

Emocionante porque o rapaz toca com uma entrega e um brilhantismo que não são apenas os de uma bête à concours: com seus braços e mãos longos, o engajamento físico que joga com todo o corpo e dá um papel protagonista aos ombros, Trifonov terá provavelmente muito que dizer daqui a algum tempo – ou quando não dedicar seus recitais apenas a peças de demonstração.

Esclarecedor, justamente, por isto: juntar num programa apenas aquela música para piano em que Chopin e Liszt mais oportunidades dão ao pianista de demonstrar capacidade digital, velocidade, virtuosismo no sentido mais estrito pode ser frustrante: a transcendência cansa…

Ainda assim, talvez seja difícil encontrar hoje quem toque a Campanella de Paganini-Liszt ou a Valsa Mefisto nº 1 deste último com essa clareza da multiplicidade de vozes e dinâmicas, com tal controle e profusão da sonoridade. Na adaptação da Truta de Schubert por Liszt, a volubilidade das imagens aquáticas deixa de queixo caído. E nos Estudos opus 10 de Chopin, se o excesso de velocidade e o show-off podem incomodar aqui e ali, Trifonov também encanta com a graça etérea de seu toque, o perolado brilhante do som, um certo lado corpóreo e palpável de sua féerie, como no Estudo nº 8.

Guiomar relembrada

O livro de Sampaio e Medeiros não é o primeiro (eles próprios mencionam o Guiomar Novaes: Uma arrebatadora história de amor, de Maria Stella Orsini), mas certamente abre um novo caminho em matéria de seriedade da pesquisa. Focado sobretudo na carreira nova-iorquina da pianista, seu principal centro de irradiação entre a década de 1920 e a morte nos anos 70, ele não deixa de contextualizá-la no arco mais longo da carreira e da vida e de enveredar pela apreciação de sua arte, com abundância de depoimentos e fontes.

O livro é acompanhado de dois CDs com gravações ao vivo, nas décadas de 1950 e 1960, de três das obras concertantes que ela tocou em suas 51 apresentações com a Orquestra Filarmônica de Nova York: sob a regência de Leonard Bernstein, temos o Concerto nº 2 de Chopin; com George Szell, o Quarto de Beethoven; e sob a batuta de André Cluytens, o Concerto de Schumann – além de alguns extras registrados em recitais.

“Na pesquisa para Guiomar Novaes do Brasil”, diz a pianista Lílian Barretto, organizadora do Festival e do Concurso BNDES, “Luciana e João Luiz também descobriram muita coisa importante que estava no Brasil em acervos empoeirados e encaixotados, bem como documentos importantes em péssimo estado de conservação: esse material contava não apenas a trajetória de Guiomar, mas a história do piano brasileiro, algo tão fascinante que nos inspirou daqui para a frente a focar as próximas edições do Concurso nesse resgate da história ou memória do piano brasileiro. Quanto às gravações dela com a Filarmônica de Nova York, foram encontradas no International Piano Archives de Maryland, que possui cerca de 100 gravações (a maioria inéditas) da Guiomar. Todas em ótimo estado de conservação, bem ao contrário do que vimos no Brasil…”

Comentando o espírito que norteou a organização do repertório do disco, o pianista Giulio Draghi, diretor musical do projeto, explica: “Guiomar Novaes legou à posteridade uma grande quantidade de gravações comerciais. No entanto, sempre nos pareceu que nesses registros sua arte se ressentia um pouco do ambiente perfeccionista de um estúdio de gravação. A artista era célebre pela espontaneidade de suas execuções. Nossa opção foi retornar ao local onde o artista se encontra exposto a toda sorte de riscos, porém prova a sua integridade artística: a sala de concerto, ao vivo, diante do público.”

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