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Dupla comemoração pelos cem anos de Nelson Cavaquinho

IMS-RJ promove mesa-redonda com especialistas, na terça-feira, e show com Moacyr Luz e Gabriel Cavalcante, na quinta, para celebrar o artista. Por Solange Noronha

Dupla comemoração pelos cem anos de Nelson Cavaquinho
Nelson Cavaquinho (Fonte: Reprodução/Coleção Tinhorão/Instituto Moreira Salles)

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Moacyr Luz e Gabriel Cavalcante

“Rugas”, “Folhas secas” e “A flor e o espinho” são algumas das composições mais famosas de Nelson Cavaquinho, que faria cem anos esta semana e, apesar do magnífico repertório, hoje é pouco ouvido em CDs e casas de shows. A iniciativa do Instituto Moreira Salles é um passo para que novas gerações descubram o artista que fez Moacyr Luz tremer, ao conhecê-lo na casa de Beth Carvalho. De Nova York, ele escreve: “Sempre percebi na música brasileira que gênios como ele e Cartola, por viverem do e para o samba, não ganharam a mesma medida cultuada em nomes como Tom, Chico e Caetano. Nelson tem — no presente, e ao lado do seu principal parceiro, Guilherme de Brito — uma harmonia que surpreende, acordes raros e uma linguagem única, em que o bem e o mal, o riso e o choro duelam o tempo todo na poesia.” Na quinta-feira, dia 27, às 20h, na sede do IMS, na Gávea, Moacyr — juntamente com o cavaquinista Gabriel Cavalcante — vai mostrar um pouco de tudo isso que tão bem resumiu.

Nelson Cavaquinho (Fonte: Reprodução/Coleção Tinhorão/Instituto Moreira Salles)

Para Bia Paes Leme, coordenadora do setor de Música do Instituto, a importância de Nelson Cavaquinho na MPB é tão óbvia que fica difícil de explicar: “Num país extremamente fértil em talentos musicais, ainda mais na área do samba, o que faz uma personalidade se destacar tanto?”, ela se pergunta. “Talvez duas coisas: poder de síntese e profundidade. O primeiro faz com que a gente se enxergue na música do Nelson — não só na letra, mas também na melodia. É uma música que parece trazer em si toda a nossa história, e isso tem uma força tremenda. E a profundidade — que pode ser chamada de sinceridade, ou, melhor ainda, de humanidade — é aquilo que nos faz sentir, mesmo admirando o cara como um deus, que ele é de carne e osso como nós, porque ele não tenta parecer o que não é. Ao contrário, ele está buscando, o tempo todo, se revelar através da sua música. Acho isso comovente.”

Memória preservada

Bia se entusiasma com a ampliação cada vez maior do setor musical do IMS, que envolve conservação e divulgação de partituras e discos de 78 rotações, parcerias com projetos como o Acervo Digital Chiquinha Gonzaga e atendimento a pesquisadores, “com foco no vasto Acervo Tinhorão” — além, claro, dos shows, que têm atraído o público jovem: “Qualquer instituição séria deve ter uma preocupação constante com a educação e com a preservação da memória. E as novas gerações estão mostrando um imenso interesse pela música brasileira em todas as suas fases”, diz ela.

A homenagem a Nelson Cavaquinho é a primeira da área a ser enriquecida com uma mesa-redonda, graças à parceria com o Museu da Imagem e do Som do Rio. Na terça-feira, dia 25, também às 20h, Rosa Maria Araújo, presidente do MIS-RJ, vai mediar o encontro — aberto ao público — dos jornalistas Sergio Cabral e João Pimentel e do escritor José Novaes. Pimentel tem as melhores expectativas para a noite: “O Sergio tem sempre ótimos casos para contar; a tese do Novaes virou o livro ‘Nelson Cavaquinho: luto e melancolia na MPB’; o samba é a minha ‘praia’ e o Nelson foi tema da minha monografia; e é sempre importante lembrar essa figura maravilhosa e muito carioca.”

Engraçado e melancólico

Como Moacyr Luz, o jornalista destaca a dualidade em Nelson: “Ao mesmo tempo em que compunha quase tudo em botequins e convivia com prostitutas e bandidos, ele frequentava a elite — todos o queriam em suas casas e festas. Além disso, Nelson tem um monte de histórias engraçadas, mas também um lado pesado, presente em sua música. É só ver, por exemplo, a letra de ‘Depois da vida’, que fala do funeral de uma mulher — ‘(…) é pena que os lábios gelados como os teus não sintam o calor que eu conservei nos lábios meus (…)’.”

Nascido em 29 de outubro de 1911, filho de uma lavadeira e um contramestre da banda da Polícia Militar, tocador de tuba, e sobrinho de cavaquinista, Nelson Antônio da Silva ganhou na infância o apelido com que se consagraria, ao tentar fabricar um cavaquinho com uma caixa de charutos vazia e velhas cordas do instrumento do tio. A mesa-redonda e o show — que promete ter até um partido-alto inédito — são ótimas oportunidades para se conhecer um pouco mais desse grande nome da música brasileira, que dizia que “compunha mesmo quando estava no batente” — isto enquanto pulava de emprego em emprego, antes de trocá-los definitivamente pela muito mais inspiradora mesa de bar.

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3 Opiniões

  1. Carlos U. Pozzobon disse:

    Quem conhece música popular brasileiro de alguma forma já ouviu Nelson Cavaquinho. Mas o que me intriga é essas homenagens na imprensa escrita. Se você ligar seu rádio e procurar no dial não vai encontrar uma única emissora que faça uma homenagem ao centenário de nascimento do Nelson.

  2. Mario Camões disse:

    Gostei muito do blog. Confirmo a m/inscrição
    Nelson Cavaquinho está entre os maiores compositores brasileiro. Muito orgulho
    Mario Camoes

  3. florindo rocha abreu disse:

    Louvável o IMS abrir espaço para divulgação do trabalho de Nelson Cavaquinho, que teve como seu grande parceiro o não menos importante nome da MPB Guilherme de Brito. Parabéns pela iniciativa de Bia Paes Leme. Vamos semear esse semente que certamente colheremos bons frutos!

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