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O cinema proporciona uma experiência antropológica ao espectador. Isso acontece pois não somente assistimos filmes que são feitos em outros países, mas que também são produto de formas de pensamento e práticas desconhecidas por nós. Este vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2009 mostra uma maneira diferente, que provavelmente existe na sociedade japonesa (aí não sei se o filme é uma ficção total ou se retrata um hábito comum no Japão), de se lidar com a morte.
Essa passagem que todos nós vamos fazer obrigatoriamente, em cada cultura é tratada de uma forma diferente. No Brasil, quando a pessoa morre, não sei se lidamos com isso de uma forma bem resolvida. Nos EUA, por exemplo, o velório é uma espécie de festa, que reúne todos os amigos do morto. Todos comem e se confraternizam ao lembrar da pessoa querida. É claro que existem diversas formas que variam entre famílias, meios culturais e religião, mas estou me referindo sob um ponto de vista genérico.
Bom, “A Partida” faz uma ligação primorosa entre a morte e a arte. Um jovem perde seu emprego com que sempre havia sonhado e se muda com sua esposa para a cidadezinha onde nasceu. Lá, ao responder a um anúncio de jornal, começa um trabalho de preparar os mortos para o enterro. Tudo é feito na frente dos familiares, numa espécie de ritual que possui uma ordem e beleza particular: “Pegar um corpo frio e dar a ele beleza eterna.”
Esse ritual, aprendido com seu patrão, um artista que esbanja sabedoria, um mestre, é algo incrivelmente belo, e realizado com cuidado, precisão e limpeza; é como se um pintor pintasse um quadro ou um escultor esculpisse uma obra na frente do público. É uma espécie de aula de teatro, da forma como um ator pode se comportar em cena, com elegância e meticulosidade extremas.
Ao encarar um trabalho aparentemente desonroso e repugnante de uma maneira artística, Daiko, o protagonista, dá um novo sentido a sua vida. É interessante notar como, no momento de realização desse ritual, as pessoas perdem suas máscaras: na frente da morte, as emoções se afloram e tudo pode acontecer. Não é à toa que talvez a primeira manifestação cultural dos homens, que designa a nossa espécie, seja relativa ao tratamento aos mortos. Enterrar, ou cremar cerimoniosamente as pessoas, é uma manifestação da arte, da cultura.
É notável esta forma ritualística com que as culturas orientais lidam com a vida. A cerimônia do chá, a arte da jardinagem, as artes marciais, todas elas valorizam uma repetição e ordenação importantes para dar sentido e alegria à vida. O Tai-Chi, por exemplo, é uma arte milenar, que lida com o fluxo de energia. Uma série de golpes mortais, desenhados para o guerreiro vencer a batalha, através de repetição e movimentos absolutamente lentos, são apreendidos; já não há tanta importância na efetividade dos golpes, mas na própria prática, que estabelece a relação da pessoa com o mundo.
Aqui no Ocidente, possuímos uma espécie de aversão à imitação e à repetição, e preferimos valorizar o original, individual. É algo que faz pensar. Esse filme, filmado de forma bem convencional, mas da maneira que deveria ser, realiza um roteiro brilhante, que no final parece concretizar um dos sentidos da catarse encontrado na Poética de Aristóteles: a realização completa e perfeita da estória, da narrativa. É um filme brilhante.
Leia outros artigos de Francisco Taunay:
A Festa da Menina Morta, de Matheus Nachtergaele, 2008
O s Falsários, de Stefan Ruzowitzky, 2007
Budapeste, de Walter Carvalho, 2009
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