Início » Cultura » Entretenimento » Divã, de José Alvarenga Júnior, 2009
Crítica de cinema

Divã, de José Alvarenga Júnior, 2009

Divã, de José Alvarenga Júnior, 2009
Cartaz do filme

É notável que cinema e psicanálise tenham vindo ao mundo praticamente ao mesmo tempo. “A Interpretação dos Sonhos”, de Freud, e a primeira projeção dos filmes dos Irmãos Lumière datam de 1895 e marcam o nascimento destas duas práticas de sucesso na cultura ocidental. A evolução da narrativa dos filmes, cada vez mais voltada para a psicologia dos personagens, com o auxilio do close-up, aproxima imagem e inconsciente; tanto da perspectiva dos personagens como do espectador.

“Divã”, baseado no livro de Martha Medeiros e criado após o sucesso da peça de mesmo nome, também protagonizada por Lilia Cabral, tem o grande mérito de ser um filme intimista, que capta com precisão a intimidade dos atores. A grande qualidade do som (sim, cinema nacional agora também tem som de qualidade), em conjunto com uma edição voltada para a performance dos atores, assim como planos econômicos e na medida certa, criam um belo filme totalmente baseado nos diálogos.

Após assistir ao filme, tive a impressão de que ainda há esperança para o cinema nacional: o filme possui uma espécie de simplicidade em contar a história e sinceridade, principalmente na atuação de Lilia Cabral, que teve a possibilidade de refazer o que havia feito no teatro, e isso dá ao ator, ao bom ator, a chance de aprimorar sua interpretação. Divã tem, apesar de ser filmado em 35 e 16mm, uma estética televisiva, talvez pela experiência do diretor de “Os Normais”, “Minha Nada Mole Vida”, “Os Aspones” e outros seriados de humor na TV, mas isso favorece o filme, que tem diálogos muito bem elaborados. Existe um humor muito bem feito, que não descamba para o pastelão e pode mesclar-se ao drama que emociona o espectador. Essa direção inteligente, que propicia boas interpretações aos atores, cria um fluxo de narrativa que permite a quem assiste ficar envolvido e acompanhar com atenção a estória de uma mulher que conta ao seu analista suas desventuras amorosas.

Os 96 minutos do filme são a medida certa para o espectador acompanhar a transformação da personagem: a experiência das relações amorosas, o casamento, a doença, o amadurecimento, as conquistas e fracassos, a vaidade, o sexo, a morte, todas estas partes inevitáveis da vida humana são contempladas pelo filme. Ao fim, percebemos a transformação, operada também pela psicanálise, para o bem ou para o mal, que permite à personagem refletir sobre sua existência e perder a inocência. A ideia de colocar o psicanalista, Lopes, como uma eminência parda (literalmente), que somente aparece de costas e desfocado é brilhante, pois cria uma estranheza que favorece o filme.

A descoberta de que existe um inconsciente, um lado obscuro das nossas mentes, que dificilmente podemos conhecer é um advento da psicanálise que transformou a cultura e de certa forma colaborou para levar a existência humana para além do bem e do mal, sublinhados pela moral religiosa. O cinema, ao reproduzir o movimento e as formas humanas, permite que a imagem que temos de nós mesmos seja transformada, promovendo uma profunda mudança no nosso modo de pensar e agir. Aristóteles, no “De Anima”, escreve sobre dois tipos de pensamento: a dianóia e a phantasia. A primeira seria um pensamento pela linguagem, uma espécie de monólogo interior. Já a phantasia, de PHANTA (luz), é um pensamento por imagens. Aproximar cinema e psicanálise é fácil, quando percebemos que a imagem em movimento está no nosso próprio pensamento, e o filme é uma espécie de reprodução ordenada disso. Mas vamos deixar para depois, porque isso é uma crítica de cinema e não uma tese de doutorado.

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

4 Opiniões

  1. claudio disse:

    Divã sem dúvidas é um dos ótimos filmes nacionais em cartaz. Com a participação excepcional de Lilia Cabral o filme realmente, além de comico, reflete bem a vida de duas amigas em relacionamentos como casais.

  2. Sandra Figueiredo disse:

    Muito interessante o paralelo entre cinema e psicanálise. Apreciações assim, abrangentes, nos abre outros caminhos para apreciar o filme.
    Parabéns e obrigado, F. Taunay.
    Sandra

  3. marcia disse:

    muito boa a análise do Francisco, conseguiu abordar os temas do filme – relações afetivas e mundo interno sem cair no intelectualismo.

  4. Laura disse:

    Fui ver Divã e me diverti muito, tem um ritmo, um tempo mágico do cinema…Olhei em volta e as caras estavam descontraidas…pensei que filme bom !…depois fiquei pensando é um filme sociològico…um filme que trata de cenas e acontecimentos do nosso dia a dia homem,mulher, filhos, família; contemporaneo, na singularidade do personagem no processo psicanalítico…a critica de Francisco, abrangente como pessoa de cinema, teatro e sensibilidade psicológica, convida aos que não foram, que não percam e tenham as suas próprias opiniões, eu gostei muito dos comentários do Francisco…

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *