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Quando era criança, numa aula onde os pais falavam sobre sua profissão, assisti ao atual diretor da Biblioteca Nacional, pai de uma amiga, falar sobre a teoria da comunicação. Ele direcionou seu discurso especificamente sobre a TV e relacionou a televisão com o mito de Narciso. Narciso era um jovem deslumbrante, que, ao avistar seu reflexo nas águas de um lago, se apaixonou pela própria imagem e se afogou ao tentar pegá-la.
O intelectual, ao se utilizar do mito, quis mostrar que a TV é uma via de mão única, onde o discurso vem pronto e é simplesmente assimilado pelo espectador, que não participa de forma ativa nesta relação, como no caso de um diálogo entre duas pessoas. A partir daí sempre desconfiei desses programas educativos, estilo Telecurso Segundo Grau, uma vez que o diálogo que existe na sala de aula entre professor e aluno não se dá num curso pela TV.
Com a internet, isso se modificou bastante, mas nada supera a relação presente entre as pessoas, o olhar, a conversa, etc. O Teatro, por exemplo, é talvez a exaltação maior do encontro entre os seres humanos. Mas pensando agora no cinema, programas de TV, jogos eletrônicos, e outras formas de imagens em movimento, podemos perceber que elas têm um universo comum, uma espécie de morada, que é a tela.
Outro dia, ao pegar um ônibus, não consegui sequer olhar pela janela, ou perceber as pessoas no interior, ou mesmo experimentar aquela sensação incrível de mergulhar no próprio interior, se ensimesmar, esquecendo da atmosfera externa: haviam dois monitores de TV que sugavam minha atenção. Nos elevadores, restaurantes, outdoors brilhantes que decoram a cidade, nas casas, no cabeleireiro, nas portarias, em todos os lugares, as imagens cinéticas se multiplicam.
Esse universo das telas bidimensional compete com o nosso de várias formas. Apresenta pessoas e objetos filmados, que passaram da realidade em 3D para a tela em 2D. Imagens geradas por computador, que têm uma espécie de vida própria, sem referência direta no real, e outros tipos, que no futuro podem ser até imagens inteligentes, que mudam de forma ao avistar este ou aquele espectador.
Existe mesmo uma espécie de competição entre o crescente universo 2D das telas e o nosso. Será um plano, uma espécie de artimanha diabólica, das imagens em movimento, para suprimir o real? Lembro-me de um conto de ficção científica de Ray Bradbury, onde uma nave pousa em um planeta (seria Marte?) distante, e logo em seguida sua tripulação, ao sair para fazer o reconhecimento, encontra a sua cidade natal, com todos os seus habitantes, seus parentes, que são super receptivos, apesar da incredulidade dos recém-chegados.
Este novo mundo exatamente igual ao original, encanta a todos, que dormindo em suas respectivas casas, são aniquilados pelos extraterrestres que haviam se mimetizado em humanos. Assim, qual será o efeito do mundo da tela, ao reproduzir e substituir o real, nas nossas mentes e corpos?
Nada como os exercícios de corpo, a dança, os trabalhos manuais, para nos lembrar que somos feitos de carne e osso, e pertencemos ao universo tridimensional; ou daqui a pouco vamos começar a trombar com as vitrines e janelas, nos esquecendo do universo sensível e tentando pertencer ao mundo das imagens em movimento.