Início » Cultura » Entretenimento » Os EUA X John Lennon, 2010
Cinema

Os EUA X John Lennon, 2010

Por Francisco Taunay

Prezados leitores, o Opinião e Notícia encerrará suas atividades em 31/12/2019.
Agradecemos a todos pela audiência durante os quinze anos de atuação do site.

Me lembro quando estava na casa de um amigo em 1980, e sua irmã, que estava assistindo TV, começou a chorar dizendo: “mataram John Lennon!” Não entendi muito bem o porquê deste desespero e meu contato com esse símbolo, o ídolo ex-integrante dos Beatles, ficou um pouco adormecido até um incidente familiar reforçá-lo novamente. Uma tia minha, muito querida, morreu aos 40 anos de idade de uma doença fulminante. Ela parecia uma santa, linda e branca, no caixão. Um primo, músico, veio dos EUA para a missa, e os sobrinhos ensaiaram e apresentaram Imagine, uma de suas músicas preferidas. Foi um momento único, onde pude travar contato com o conteúdo de uma obra fundamental para a humanidade.

John Lennon

O filme apresenta Lennon de uma forma muito bem feita, mostrando a pessoa especial, rebelde e iluminada que teve sua passagem na terra interrompida abruptamente ao levar quatro tiros de um maluco na porta de seu edifício. Uma questão fundamental do filme, uma espécie de tese que acaba ficando no ar, é a de que John teria sido assassinado a mando das forças conservadoras, pois representaria um perigo para o establishment nos EUA.

Há a preocupação de entrevistar pessoas dos dois lados, de pólos opostos de forças, desde um dos líderes do grupo radical Panteras Negras, que tinha a simpatia de Lennon, até funcionários do FBI, na época utilizado por Hoover e Nixon para espionar e perseguir aqueles que eram considerados subversivos, que ameaçavam o sistema beligerante norte-americano, com direito à Guerra Fria, Guerra do Vietnã, Camboja, etc. As opiniões pacifistas de Lennon, que sabia utilizar sua fama para manipular a mídia como ninguém, o tornavam um perigoso inimigo para a direita norte-americana: isto é o que o filme passa, deixando no ar se o atentado que tirou a vida do herói foi um ato de represália política ou uma ação isolada.

A outra face do filme, saindo da teoria da conspiração, diz respeito ao lado genial de John Lennon, que transcende o papel do artista, ou melhor, fala de um artista no sentido amplo e sublime da palavra: aquele que procura mudar o mundo com a sua arte e suas idéias. Realmente ele — analisando do ponto de vista de uma pessoa que não conheceu direito este ídolo realizando suas ações em vida — se tornou perigoso, pois reuniu toda a complexa rede de sentidos do seu ideário em uma só palavra: PAZ.

Sua fala no filme, considerando os líderes mundiais de EUA, URSS e China como loucos, vai diretamente contra o terrorismo de estado que é praticado por estas nações ainda hoje, e demonstra uma lucidez quase messiânica. Acabei de ler a história de Lao-Tse, um livro incrível que mostra a China no auge de sua civilização, milhares de anos atrás, sob a influência dos monges tibetanos. A luta do filósofo chinês contra a ignorância e a violência, se parece com a de Gandhi e de John Lenon, assim como de outras fabulosas figuras iluminadas que aparecem raramente na história universal.

Por mais que hoje em dia, com a complexidade da sociedade e a sutileza dos mecanismos de dominação, seja dificil diferenciar a luz das trevas, podemos através da inteligência e sensibilidade talvez perceber o caminho que estamos trilhando. Como disse Ferreira Gullar em sua entrevista a Silvio Tendler, no filme Utopia e Barbárie: “Se o ser humano é mortal, é finito, o caminho é o outro”.

Imagine

Imagine there’s no heaven
It’s easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people
Living for today
Imagine there’s no countries
It isn’t hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace
You may say
I’m a dreamer
But I’m not the only one
I hope some day
You’ll join us
And the world will be as one
Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people
Sharing all the world
You may say
I’m a dreamer
But I’m not the only one
I hope some day
You’ll join us
And the world will be as one


Confira na próxima página as estreias da semana.

Estreias da Semana (30/04):
Homem de Ferro 2 (Iron Man 2) EUA, 2010. Direção: Jon Favreau. Elenco: Robert Downey Jr, Mickey Rourke, Scarlett Johansson. Duração: 124 min.

Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works) EUA, 2009. Direção: Woody Allen. Elenco: Evan Rachel Wood, Larry David, Patrícia Clarkson. Duração: 92 min.

O Que Resta do Tempo (RJ) (The Time That Remains) Palestina, França, 2009. Direção: Elia Suleiman Elenco: Elia Suleiman, Saleh Bakri, Samar Qudha Tanus. Duração: 105 min.

A Casa Verde Brasil, 2009. Direção: Paulo Nascimento. Elenco: Nicola Siri, Fernanda Moro, Zé Victor Castiel. Duração: 71 min.

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

5 Opiniões

  1. Markut disse:

    Como sempre, muito lúcida e sensivel a avaliação de Taunay.
    A propósito de Utopia e Barbarie , que acabo de assitir, gostaria muito de ouvir(ler) a crítica de Taunay.
    Ao contrário de EUA x Lennon, que me pareceu muito equilibrado, este me transmitiu uma sensação de um proselitismo rançoso e superado.
    Creio que as utopias não são para serem atingidas, mas, sim, para balisar o caminho a percorrer, com realismo, sensibilidade e bom senso.
    Sou de uma geração pré Beatles e não tinha idéia da postura idealista e messiânica pró paz desse incomum artista.

  2. Helio disse:

    O filme vale por John Lennon, um artista excepcional. Já a teoria da conspiração me parece um gancho desnecessário, falso e dispensável. Seria suficiente trazer um marco importante de uma geração e discutir o conflito de idéias entorno dele. Artigo como sempre ótimo.

  3. Regina Céli disse:

    John Lennon passou a existir pós Beatles… Antes ele só fazia parte de uma banda que marcaria para sempre o rock… Ele viveu seu tempo certo; esse mundo é muito cão para alguém que imaginava que todos poderiam viver em paz em um mundo sem religião. Ele dizia que “a vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro”… Apesar de ser fã de carteirinha de Lennon ainda não sabia desse lançamento. Valeu muito a dica.

  4. Geraldo Euclides disse:

    Johnn Lennon, The Beatles é hoje e sempre, os fans são os mesmos e seus filhos também. Em qualquer parte do mundo tem os “beatlesmaniácos”

  5. Nito disse:

    Bonito, xpero poder saber mais.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *