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Esse filme sobre o Holocausto traz uma visão um pouco diferente das histórias que costumamos ver no cinema: agora mostra os judeus que, por alguma aptidão que era cara ao Terceiro Reich, eram protegidos e mesmo colaboravam com os nazistas. Esse tema é tabu no mundo contemporâneo e toda vez que um filme retrata o extermínio em massa de seres humanos, corre o risco de ficar melodramático ou sentimentalóide. Não é o que acontece nessa produção que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2007 e só agora, para variar, chega ao Brasil. Agora podemos ver um filme sólido, bem construído e com bons atores, que retrata uma relação inédita no cinema de colaboração entre judeus e nazistas.
A Operação Bernhard (1942-1945), que falsificou e injetou na economia mais de 130 milhões de libras com o objetivo de quebrar a Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial, é retratada no filme baseado no livro “The Devil’s Workshop”, do sobrevivente Adolf Burger, que colaborou no roteiro. Um mestre das falsificações, o judeu de origem russa Salomon Sorowitsch é cooptado em um campo de concentração para chefiar o controle de qualidade na falsificação da libra esterlina e do dólar. Ele, juntamente com alguns eleitos, protegidos por possuir alguma habilidade necessária à operação, ficam alojados em um setor mais “light” de um campo de concentração, com camas confortáveis e boa comida.
Durante sua detenção, eles também sofrem com as atrocidades cometidas pelos nazistas, mas se adaptam e realizam, para sobreviver, uma prática favorável ao regime de Hitler. Essa questão moral é o mote principal do filme, mostrando as redes de proteção e as sutilezas nas relações que habitavam os campos de concentração. É um filme que busca o entretenimento e realiza de certa forma esse propósito, num sutil equilíbrio entre a denúncia e a diversão.
Toda vez que vejo um filme sobre o Holocausto, fico na dúvida se foi realizado pela vontade dos diretores e produtores em retratar e discutir essa infâmia que foi cometida por nós, seres humanos, ou se é um produto do desejo de ganhar o Oscar, uma vez que esse tema, por razões políticas claras, é caro à Academia. Acontece que, se muitas vezes a realidade imita a ficção, nesse caso nunca foi produzido um filme ficcional que consiga chegar perto do que parece ter sido esse episódio da história humana. O repugnante e poético documentário “Noite e Neblina” (1955), de Alain Resnais, é até agora o melhor retrato do que foi o Holocausto. Com sua câmera que parece flutuar, esse filme utiliza imagens dos campos de concentração logo após a chegada dos aliados. A degradação humana no seu nível mais elevado é mostrada de um ponto de vista artístico, e por isso mesmo interessante, pelo diretor de “O Ano Passado em Marimbaud” e “Hiroshima Meu Amor”.
Já esse “Os Falsários”, apesar de possuir bons atores (o ator principal é excelente) e atingir um ponto de vista original, não chega à profundidade necessária ao tema. Retratar esse evento ímpar da História é algo complexo, uma vez que tudo foi feito de forma a apagar toda uma cultura da história e da memória, com métodos industriais e sofisticados. Essa é a pergunta da historiografia moderna, e também do cinema: como narrar algo que foge completamente à compreensão humana?