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Cinema

Os Famosos e os Duendes da Morte, de Esmir Filho

Por Francisco Taunay

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Este filme de estreia do diretor do clássico do youtube Tapa na Pantera não arrematou o principal prêmio do Festival do Rio à toa. Se trata de um grande filme, absolutamente original, que sai da temática violência-favela-cidade grande que ainda insiste em assolar a produção cinematográfica brasileira.

Um jovem que vive numa cidade do interior do Rio Grande do Sul tem todo um universo próprio, com a figura fantasmagórica de uma linda menina, que insiste em aparecer nas suas visões. A interação do garoto com computadores, escrevendo e visitando blogs, é usada como uma espécie de ponte entre pensamento e realidade. As imagens então são basicamente divididas em dois tipos: aquelas normais, que retratam a ação do filme e o cotidiano do protagonista, e imagens manipuladas, que se aproximam de uma videoarte, retratando o seu pensamento e a vida da garota que se tornou sua obsessão.

A construção do filme é toda feita através do som. Jamais havia visto, exceto talvez em Blue, filme sonoro de Dereck Jarman, uma ambientação sonora tão bem realizada. Ao final, nos créditos, percebi o porquê: há o cargo de diretor de som, ocupado por Martín Grinaschi, algo novo para mim como função no cinema.

A trama se desenvolve de uma forma lenta, com um tempo todo próprio, com takes trabalhados de forma a libertar o espectador de dois flagelos cinematográficos: 1- a necessidade de que a estória se complete, numa trama com começo, meio e fim. 2- o suspense, a atenção pré-programada, voltada para o futuro imediato da ação, na crença de que acontecerá algo de ruim. Estes dois elementos, próprios ao cinema clássico, parecem ser questionados no filme, que tem bons momentos do que Deleuze chamou de imagem-tempo, um tipo de cinema que escapa à ação convencional.

Mas Os Famosos e os Duendes da Morte se realiza como estória, obedecendo ao preceito número 1: o que parecia um filme malucão no início vai sendo elaborado, num processo de desvendamento, em uma história sobre a vida e a morte, mais especificamente sobre a questão do suicídio. Qual é o limite entre o nosso mundo e o mundo dos mortos? O que move aqueles que ousam galgar a ponte entre os dois mundos?

O jogo de imagens que se misturam entre o definido e o abstrato, acompanhado da incrível música, inclusive com direito à Bob Dylan, o ídolo do personagem principal (o menino sem nome), se conjuga de forma brilhante com a língua falada pelos avós do menino e na música da festa junina, não sei se alemão ou polonês. Esta língua, que não é traduzida, traz uma abstração interessante, que se encaixa na proposta estética do filme.

Sucesso no Festival de Locarno, na Itália, o filme foi considerado “um vívido e forte exemplo na nova produção cinematográfica brasileira”. Na crítica que fiz aqui no Opinião e Notícia d` O Segredo de Seus Olhos, o ótimo filme argentino, me perguntei do porquê dos filmes portenhos serem tão superiores aos nossos: Após este filme estou quase retirando o que disse.

Confira na próxima página as estreias da semana e o trailer do filme.

Estreias (09/04)

Uma Noite Fora de Série (Date Night) EUA, 2010. Direção: Shawn Levy. Elenco: Steve Carell, Tina Fey, Mark Wahlberg, James Franco.

Dupla Implacável (From Paris With Love) França, 2009. Direção: Pierre Morel. Elenco: John Travolta, Jonathan Rhys Meyers. Duração: 92 min.

A Riviera não é Aqui (Bienvenue chez les Ch’tis) França, 2008. Direção: Dany Boon. Elenco: Dany Boon, Kad Merad, Zoé Félix. Duração: 106 min.

Caso 39 (Case 39) EUA, 2008. Direção: Christian Alvart. Elenco: Rennée Zellwegger, Ian McShane, Jodelle Ferland . Duração: 109 min.

Nos Embalos da Disco (Disco) França, 2008. Direção: Fabien Onteniente. Elenco: Franck Dubosc, Emmanuelle Béart, Gerard Depardieu. Duração: 103 min.

Diário Perdido (RJ) (Mères et filles) França, 2009. Direção: Julie Lopes-Curval. Elenco: Catherine Deneuve e Marina Hands. Duração: 105 min.

Mother – A Busca Pela Verdade (RJ) (Madeo) Coréia do Sul, 2009. Direção: Joon-ho Bong. Elenco: Bin Won, Ku Jin, Hye-ja Kim. Duração: 128 min.

Rita Cadillac – A lady do povo (POA, Salvador, Curitiba)Brasil, 2007. Direção: Toni Venturi . Duração: 75 min.

Desejo e Poder
(SP) (Brideshead) França, 2009. Direção: Julian Jarrold. Elenco: Emma Thompson, Michael Gambon, Matthew Goode. Duração: 100 min.

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4 Opiniões

  1. Helio disse:

    Taunay não retire a observação passada. Não seria justo com a produção vigorosa do cinema argentino. Temos ainda que ficar como no filme do Campanella, com a dificuldade da falta do A na máquina, com a oscilação do personagem entre o TEMO e o TEAMO. Tenho a convicção que conseguiremos encontrar o A que tanto nos faz falta. Parece que este filme talvez possa ter o A que faz tanta falta a nós espectadores.

  2. Markut disse:

    Parabens a Helio pela sua sensibilidade”percuciente” ( como diria Clovis Marques).Apesar de ter visto duas vezes o filme argentino, não conseguí me fixar muito em dois detalhes magníficos como a falta do A na velha máquina Underwood e, novamente a inserção do A,no Temo e Te Amo, representando os dois estados de espírito do Espósito (Magnífico Ricardo Darin).

  3. francisco disse:

    ja vi muitos filmes brasileiros os quais fram maravilhosos. claro partindo do pricípio da década de noventa o novo modelo de fazer cinema brasileiro, foi o que troxe novas pespequitivas para novos cineastas,e logo sabemos que fazer filme no Brasil não é igual nos EUA.mas fica claro que nós tabem temos boms filmes.

  4. Helio disse:

    Francisco, entendi quando você cita o cinema americano, que aqui temos ainda uma indústria que só recentemente ganhou novo impulso. As vezes me pergunto se em parte o maior público em lingua inglesa e espanhola seja parte do sucesso dos filmes argentinos. O cinema nacional teve bons filmes, mas confesso que assisto aos argentinos com o sentimento antecipado de que não me decepcionarei.

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