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No dia 2 de Fevereiro, o Pier Mauá, no Rio de Janeiro, celebrou o encontro histórico de cinco musicais brasileiros que fizeram sucesso em 2009, o Rio Musical. Com roteiro e apresentação de Claudio Botelho, que abriu a noite cantando sua versão de Let`s do It, de Cole Porter, a apresentação reuniu cenas dos espetáculos O Despertar da Primavera, A Noviça Rebelde, Versão Brasileira, dirigidos pela famosa dupla Charles Moeller e Claudio Botelho, Oui Oui – A França é Aqui e Opereta Carioca, de Gustavo Gasparian, Sassaricando, de Sérgio Cabral e Rosa Maria Araújo, e O Som da Motown, de Renato Vieira.
O mestre de cerimônias começou com uma provocação, dizendo que uma série de críticos, há mais de dez anos, vem dizendo que o musical no Brasil é uma moda passageira, e torcendo para que este estilo teatral acabe rapidamente. Mas não é nem de longe o que vem acontecendo: os musicais, principalmente aqueles dirigidos pela dupla Moeller e Botelho, no Rio de Janeiro, e franquias da Broadway como O Fantasma da Ópera, A Bela e a Fera e Os Miseráveis, em São Paulo, vêm representando uma injeção de capital na cena teatral brasileira, com grande sucesso impulsionado por um público carente de grandes produções.
É evidente que não são todos os musicais que fazem sucesso, e muitos deles não estão no rol das super produções, mas não há nenhuma dúvida que esta onda veio para ficar, e pode ser entendida segundo algumas reflexões. Em primeiro lugar, o caráter de produto importado da maioria dessas peças como O Despertar da Primavera, A Noviça Rebelde, assim como os franchisings do Teatro Abril, em São Paulo, corresponde à própria história do musical no Brasil, que aparece no século XIX já atrelado à produção teatral francesa, país culturalmente dominante na época.
A partir do seu aparecimento, o musical, uma versão modernizada da ópera e do Cabaret, passou por várias transformações por aqui, catalisadas por figuras como Arthur Azevedo, Chiquinha Gonzaga, Oduvaldo Vianna, Viriato Correia e Chico Buarque de Holanda. O próprio Teatro de Revista, influenciado pela cultura da França no início, corresponde a um elemento notável de descolonização e, segundo a especialista Neyde Veneziano, fixou nossos tipos, nossos costumes, nosso modo genuíno do ‘falar à brasileira’. Pode-se dizer, sem muito exagero, que a revista foi o prisma em que se refletiram as nossas formas de divertimento, a música, a dança, o carnaval, a folia, integrando-os com os gostos e os costumes de toda uma sociedade bem como as várias faces do anedotário nacional combinadas ao (antigo) sonho popular de que Deus é brasileiro e de que o Brasil é o melhor país que há.
Assim, esta produção eminentemente colonizada, poderá muito bem ser transformada através da Antropofagia pregada pelo modernista Oswald de Andrade, que parece ser mesmo característica da cultura brasileira, independente da própria vontade dos brasileiros: o que vem de fora é incorporado e transformado por aqui, graças à vastíssima cultura nacional, que independente dos dirigismos do Estado e das exigências do mercado globalizado, parece sobreviver a tudo e a todos.
A noite foi incrível, começando com a apresentação do musical O Som da Motown, que homenageou Michael Jackson e empolgou a plateia, apesar dos estranhos figurinos de lã e das perucas quentíssimas, que contrastavam com o calor de quase 40ºC da noite. Em seguida, Gustavo Gaspariani divertiu o público como o malandro de Opereta Carioca, cantando canções do Kid Morangueira. Ester Elias, numa mistura de freira, Pollyanna e aeromoça, cantou a versão brasileira de The Sound of Music, da Noviça Rebelde.
A seguir, o fabuloso Eduardo Dussek, o David Bowie brasileiro, e Inês Vianna, em dueto, cantaram músicas de Sassaricando, um musical notável que homenageia as marchinhas de carnaval, dirigido também por Claudio Botelho e Charles Moeller, um grande sucesso carioca, que junto com Opereta Carioca e mesmo Oui, Oui, Paris é Aqui, faz parte do conjunto de musicais que valorizam a cultura brasileira, em contraste com as outras produções da noite.
Ao final, O Despertar da Primavera, com direito ao delírio do fã clube de adolescentes na plateia, e ao meu, que sou vidrado na musa e deusa Deméter Letícia Colin. Por último, o talentoso Claudio Botelho, que comemora 20 anos de carreira ao lado de seu parceiro artístico, responsáveis pelo renascimento dos musicais no Brasil, cantou o hino do teatro, a canção There’s No Business Like Show Business, de Irving Berlin. O hino do teatro que conheço, uma canção de Jackson do Pandeiro, é bem mais interessante, e canta esta arte que volta e meia tem sua morte anunciada, mas parece atualmente ter muito mais saúde que o cinema nacional, que praticamente só dá prejuizo e é quase inteiramente subvencionado pelo Estado:
Quem disse que a escola não sai
não tem cabeça pra pensar (2x)
a escola vai sair
o povo vai sambar
e eu vou gargalhar
quá qúá quá quá!(2x)
porém a vila vai ver
a nossa apresentação
você errou sem querer coração
sua profecia vai fracassar
e eu vou gargalhar
quá qúá quá quá!