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Fay Weldon lança romance distópico

'Chalcot Crescent' é narrado por octogenária que apresenta um mundo dominado por governo totalitário

Fay Weldon lança romance distópico
Romancista Fay Weldon (Fonte: Guardian)

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Capa do livro 'Chalcot Crescent'

A romancista Fay Weldon não é conhecida como um dos grandes nomes da ficção distópica sombria. Afinal, trata-se de uma mulher cuja autobiografia chama-se “Auto da Fay”; que cunhou o slogan “Vodca te embebeda mais rápido”, quando trabalhava com publicidade; e cuja obra inclui títulos como “Puffball” e “The Fat Woman’s Joke” (“A Piada da Gorda”). Ainda assim, seu 29º romance, “Chalcot Crescent” (publicado no Reino Unido em 2009, e lançado em 2010 nos Estados Unidos) é um trabalho de ficção distópica sombria.

A capa do livro, com sua fortaleza de batalha, remete à “Queda da Casa de Usher”, de Edgar Allan Poe. Seu narrador é Frances Prideaux, uma octogenária que encontramos pela primeira vez agachada em sua escada enquanto oficiais de justiça batem à sua porta. Frances viveu em sua casa em Chalcot Crescent durante “cinco décadas de história mundial”, diz ela. “Fui testemunha do nascimento e da morte do feminismo, o terror e a negação dos perigos da guerra nuclear, a ascensão e queda do terrorismo, a queda do comunismo, depois a do capitalismo – que nós jurávamos que duraria para sempre – e a morte e o renascimento do nacionalismo. E sobrevivi a tudo isso”.

Em vários aspectos, o mundo de Frances é bastante diferente do nosso: a polícia secreta é uma ameaça, as instituições de caridade se uniram numa mega-instituição chamada CiviKindness, e todos se tornaram teóricos da conspiração. Em outros aspectos, é bastante semelhante. Ninguém lê as letras miúdas dos contratos, a confiança nos bancos está em declínio, e os adolescentes desapontam seus pais. Isso faz sentido, já que sua obra se passa apenas alguns anos à frente, em 2013.

Frances é uma escritora e o livro é apresentado como seu documento. Em curtos capítulos, ela apresenta memórias de seu trabalho, filhos e amantes, intercalando seus relatos com pinceladas de ficção especulativa, que explica as vidas de seus filhos e o colapso do mundo ao seu redor. “Ainda não estamos no estágio em que as garotas vendem sua honra por uma barra de chocolate, ou as jóias da família por um saco de batatas – embora muitos digam que não estamos longe disso”, ela comenta. Enquanto ela documenta seus últimos anos, seu neto, Amos, monta uma célula politicamente radical em sua casa; já seu genro trabalha para o nefasto e onipresente governo. Embora os clichês da ficção distópica estejam aqui – drogas de segurança, bolos de carne suspeitos – a trama de Weldon é tão cativante, que nada parece derivado de obras anteriores.

O coração do livro, no entanto, é Frances, cujo tom de meditação perplexa faz dela uma ótima companhia. “Não tenho tanto interesse em permanecer viva, embora vá sentir falta de saber o que acontece mais à frente”, ela decide, em certo momento. Avaliando o inadequado marido de sua filha, ela observa que “a natureza, sempre em busca de equilíbrio, une os opostos para consegui-lo. E as crianças são um bom resultado, como é comum entre os filhos de opostos. O amigável e o mal-humorado. O competente e o incompetente”. Como a casa arruinada em que a narradora se encontra presa, “Chalcot Crescent” vagueia e se curva ao peso de suas próprias complicações. Com a imbatível Frances como guia, o romance de Weldon é uma leitura altamente prazerosa.

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Fontes:
Economist - Fay Weldon's dystopian turn

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1 Opinião

  1. Markut disse:

    Em termos de distopia, creio que “1984” de George Orwell ainda é paradigmático.
    Escrito na década de 30,do século passado, é uma horripilante premonição do que viria a ser o Big Brother, nos tempos atuais, de tecnologia altamente sofisticada.
    A “teletela”, onipresente, hoje é quase uma realidade.
    O humor e a genialidade de Carlitos,tambem já retratavam isso, em “Tempos Modernos”,da mesma época.

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