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Hank Moody, que lembra Chinaski, que era Bukowski e não queria fazer TV

Em “Californication”, personagem de David Duchovny é frequentemente comparado ao famoso escritor, que recusou proposta de virar seriado. Por Solange Noronha

Hank Moody, que lembra Chinaski, que era Bukowski e não queria fazer TV
David Duchovny faz Hank Moody na série Californication
Tom Kapinos, criador de Californication

Tom Kapinos, criador de Californication

Antes de criar “Californication”, Tom Kapinos só havia feito um trabalho para a televisão: a série adolescente “Dawson’s Creek”. Logo que passou da água pro vinho (e outras bebidas e drogas que seu personagem adora consumir), o autor disse, em entrevista, que sua inspiração tinha sido a própria mudança de Nova York para Los Angeles. Mais e mais, porém, Hank Moody (David Duchovny), também um nova-iorquino que foi viver em LA, lembra outro escritor radicado naquela cidade e famoso não apenas por seus livros, como pela vida desregrada: o “velho safado” Charles Bukowski (1920-1994).

Charles Bukowski

Charles Bukowski

A comparação é feita em diversos episódios — inclusive da quarta temporada, que já está sendo exibida nos EUA — e se justifica até pela escolha de seu nome: Henry Charles “Hank” Chinaski era o alter ego de Bukowski e apareceu em contos e poemas, além de protagonizar cinco de seus romances. Alguns desses textos foram parar no cinema, entre eles “Barfly” (no Brasil, com um adendo: “Condenados pelo vício”), que virou filme estrelado pelos ainda não desfigurados Mickey Rourke e Faye Dunaway — no caso dela, o estrago é bem menos grave e deve-se apenas ao excesso de cirurgias plásticas. Excesso, aliás, é uma palavra que tem tudo a ver com Bukowski e também entrou na vida de Rourke, cuja atual aparência dispensa comentários, e Duchovny, já internado e tratado como viciado em sexo.

O personagem que ninguém viu

Nos últimos anos de sua vida, Charles Bukowski adquiriu dois novos vícios: usar o computador e escrever um diário. Parte do resultado desta saudável combinação foi publicada quatro anos depois de sua morte, com ilustrações de Robert Crumb e tendo como título a primeira frase do último texto da seleção: “O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio”. É leitura mais que recomendável: traz pérolas de puro “humor mal-humorado” e flui com facilidade mesmo quando trata de temas mais incômodos, como os problemas decorrentes da velhice.

O registro iniciado pelo autor à 0h40 do dia 28 de agosto de 1992 conta como Bukowski foi abordado por uma rede de TV — cujo representante ganhou o pseudônimo de Joe Singer — que queria fazer uma série protagonizada por alguém como ele, “um cara velho que ainda estava escrevendo, bebendo, apostando em cavalos”. A sugestão do protagonista — que é chamado pelo falso nome de Harry Dane e cuja descrição faz lembrar Dennis Hopper — agradou.

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Não demorou, porém, para as coisas começarem a desandar. Primeiramente, Hank ganhou uma companheira muito mais jovem, porque a emissora queria emplacar determinada atriz. Em seguida, chegaram as ideias para os primeiros episódios: um envolvia reciclagem industrial de vômito; noutro, Hank revelaria uma experiência homossexual; mais adiante, ele transaria com uma garota e o marido insistiria em lhe pagar para continuar tendo relações com ela. Ou seja, um clima meio assim… “Californication”.

Desconfortável, Bukowski convocou Harry para participar das conversas com Joe. O ator o alertou para outros inconvenientes de trabalhar com canais comerciais, como o comprometimento com anunciantes, a censura e até o uso de risadas gravadas nas cenas. O resultado, claro, foi a dispensa de Harry por Joe, o que só fez aumentar as dúvidas do escritor em relação ao projeto. A gota d’água foi receber fotos de vários candidatos ao papel: “Fiquei enjoado de ver todos aqueles rostos, a maioria sorrindo”, escreve Bukowski. “Os rostos eram banais, vazios, muito Hollywood, muito, muito horripilantes. (…) Não podia aguentar mais.” Na carta que enviou a Joe, ele diz: “(…) você é um jovem inteligente que quer injetar sangue novo na TV — mas que não seja o meu. (…) Deveria me sentir homenageado por você querer mostrar a minha vida para as massas, mas, sinceramente, fico totalmente aterrorizado com essa ideia, sinto como se a minha própria vida estivesse sendo ameaçada. Tenho que cair fora.”

Se o “velho safado” aprovaria ou não as feições de David Duchovny, jamais saberemos. Mas dá para arriscar que ele veria com prazer um ou outro episódio de “Californication”, embora fosse muito mais produtivo que o fictício colega e ver televisão não estivesse entre seus passatempos favoritos. Aos fãs brasileiros da série, resta esperar que as loucas aventuras de Hank Moody voltem logo ao Warner Channel. Aos de Bukowski, que seus deliciosos livros ganhem mais e mais edições em português.

Caro leitor,

Você gosta da obra de Charles Bukowski?

Acha que o personagem Hank Moody tem a ver com o escritor?

Em caso negativo ou positivo, por quê?

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4 Opiniões

  1. Marcos Revolti disse:

    Após assistir ao primeiro episódio na Netflix, identifiquei o personagem Hank Moody com o velho safado Charles Bukowski, tanto é que fui direto ao google pesquisar. Quanto ao comentário da Olga, lembro a ela que John Fante só voltou a ser publicado por volta de 1983, graças ao Bukowski. A trilogia de Henry Miller Sexus, Nexus e Plexus, é o mais perturbador e audacioso relato de uma vida.

  2. ÍTALO disse:

    João Antônio, Dalton Trevisan, Lima Barreto, Nelson Rodrigues, tanta gente boa por aqui e uns e outros voltados para os eua.

  3. Karins disse:

    Eu amo Californication.Esta serie esta cada vez melhor e Hank Moody e mais complexo do que qualquer outro personagem .

  4. Olga disse:

    Correndo o risco de parecer uma senhora anacrônica, acho Bukowski tãão careta… Um sub-Henry Miller, usando sexo e drogas para mostrar a miséria humana, lembrando Celine, sem tanta contundência.
    Tenho certeza que Bukowski não gostaria de mim também.
    Mas prefiro John Fante (aliás, o queridinho do Bukowski) e o Raymond Carver, que não tinham tanta necessidade de épater la bourgeoisie, contando histórias duras. Mas doces, também.

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