Início » Cultura » Jay-Z na sala de aula
Hip-Hop

Jay-Z na sala de aula

Curso da Universidade de Georgetown sobre o rapper gera polêmica. Por Mychal Denzel Smith

Jay-Z na sala de aula
Universidade de Georgetown levanta polêmica sobre legitimidade literária do hip-hop

A julgar pela polêmica que ele causou, desavisados poderiam pensar que o professor Michael Eric Dyson, da Georgetown University, propôs a abolição das leis de trabalho infantil. Na realidade, tudo o que ele fez foi anunciar que neste semestre estaria lecionando em um curso intitulado Sociologia do Hip-Hop – A Teodiceia Urbana de Jay-Z. Foi o suficiente para gerar um incidente semelhante ao de 2008, quando a escalação do rapper para o palco principal do festival de Glastonbury criou um acalorado debate no meio musical.

A fúria veio de todos os lados. A manchete da SPIN mencionava “Um semi-ridículo curso sobre Jay-Z em Georgetown”, enquanto o artigo principal revelava que a anualidade da universidade custa US$ 40,920, fazendo um contraponto do alto valor com uma frase particularmente desarticulada de um aluno do segundo ano. O Gawker foi mais violento em sua repulsa: “Embora Michael Eric Dyson seja muito bom na arte de ser uma celebridade acadêmica, ele não sabe coisa alguma sobre hip-hop”.

Talvez a crítica mais sensata tenha vindo de Stephen Wu, estudante no terceiro ano em Georgetown, que escreveu no Hoya, o jornal dos alunos da universidade, que “a ideia de que Jay-Z seja o herdeiro – ou ainda que esteja na mesma galáxia – de Homero, o grande poeta épico da história humana, representa um total desconhecimento da verdadeira importância de Jay-Z, e do desenvolvimento do pensamento e da literatura ocidentais nos últimos 2500 anos”.

Mas uma polêmica não é uma polêmica sem que ao menos dois pontos de vista entrem em conflito. Zack O’Malley Greenburg, autor de Empire State of Mind: How Jay-Z Went From Street Corner to Corner Office (“Como Jay-Z foi da Esquina para o Escritório”) defendeu, na Forbes, o curso para o qual havia sido convidado como palestrante. Respondendo diretamente à declaração de Wu, Greenburg afirmou “Não nego o impacto de Homero na civilização ocidental, mas esse tipo de argumento ignora toda a obra de hip-hop com consciência social (e sim, Jay-Z contribuiu em boa parte dentro dessa subdivisão), sem falar em alguns dos mais importantes temas presentes na obra de Homero”.

Faz sentido. Mas a ideia de que o curso deva ser defendido é absurdo. Jay-Z não precisa ser Homero. Ou Shakespeare. Ou Mark Twain, Beethoven ou Wagner. Ele é Jay-Z, possivelmente a figura mais importante a surgir no maior movimento cultural dos últimos 30 anos. Seus méritos – para um trabalho intelectual sério, focado no autor e em suas letras – se garantem sozinhos, sem necessidade de comparações ridículas com membros mais “respeitáveis” do currículo acadêmico.

Nos 30 anos que se passaram desde que um episódio do programa 20/20 declarou que “o rap deverá influenciar a música popular nas próximas décadas”, o hip-hop não apenas tornou verdadeira essa profecia, mas também a superou em maneiras até então nunca imaginadas, e se tornou onipresente na cultura norte-americana, sendo usado para vender cervejas e câmeras digitais, influenciando a política eleitoral, e tirando o sono de presidentes. Não há como negar a legitimidade cultural do hip-hop.

E, por mais que se tente, não há como negar o papel de Jay-Z como principal voz do gênero. Em seus 15 anos de carreira, ele mostrou ser não apenas um dos artistas mais criativos dentro do hip-hop, mas também, um tradicional empresário norte-americano.

Sua genialidade particular está na habilidade de captar a visão de mundo de um grupo incompreendido e torná-la digerível para um grande público. Por meio dele, pessoas com as mais diferentes origens têm acesso às únicas e, ocasionalmente, falhas filosofias de homens negros na geração que sucedeu a luta pelos direitos civis e o ‘black power’. Ele incorpora perfeitamente tanto o brilhante potencial quanto as infelizes consequências do alcance global do hip-hop.

A vida e a música de Jay-Z são terrenos férteis para análises de pobreza, criminalização, misoginia, demonstrações de masculinidade negra, capitalismo, linguística, identidade política negra, e muito mais. “O hip-hop é simplesmente o ponto de partida para questões muito mais amplas sobre vida, filosofia e visão de mundo”, diz Mark Anthony Neal, professor de cultura popular negra na Duke University. Neal visitou o curso no início do ano, e discutiu diversos assuntos com os alunos. Cursos como esses produzem o pensamento crítico do qual os Estados Unidos precisam para estimular mudanças na sociedade.

Essa não foi a primeira aula sobre hip-hop nas universidades norte-americanas, nem será a última (são mais de 300 cursos espalhados por todo o país). É possível imaginar que, um dia, as principais universidades entregarão diplomas de estudos sobre hip-hop. Sim, não se trata de química orgânica ou engenharia, mas isso não diminui seu valor. Os que hoje criticam a presença de Jay-Z no currículo acadêmico se verão amanhã no lado errado da história.

Fontes:
The Guardian - The school of Jay-Z studies

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *