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Música Clássica

Jovens cantores

O Brasil é um celeiro de vozes, diz-me um músico ilustre. Mas onde podemos vê-las cultivadas? Neste mês de setembro que passou, o III Festival Francisco Mignone de Jovens Intérpretes revelou no auditório da Finep, no Rio, alguns talentos fortes que dão água na boca e levam a perguntar: que será deles?

O Festival é uma criação de Maria Josephina Mignone, que à frente do Centro Cultural Francisco Mignone mantém desde 1993 um pólo de irradiação da obra do autor de "Festas nas igrejas" no espaço reservado à música na sede da Financiadora de Estudos e Projetos. A Finep premiou em dinheiro os vencedores, que se apresentarão na Série Brasiliana da Academia Brasileira de Música e no programa Música e Músicos do Brasil, da Rádio MEC.

As duas edições anteriores haviam sido dedicadas a instrumentistas e vencidas por pianistas. Este ano, Lauro Gomes, produtor da Rádio MEC, teve a feliz idéia de reunir cantores. Fiz parte do júri, ao lado dos maestros Henrique Morelenbaum e Edino Krieger, e durante quatro terças-feiras pude exercer este direito tão pouco contemplado em terras cariocas e brasileiras de maneira geral: ouvir a arte do canto lírico e de câmara.

Por que será que ele é tão relegado por aqui? Certa vez, uma empresária me disse que, no Rio, para programar recitais de canto, só com árias de ópera, ou a sala ficaria vazia. Será mesmo?

Na Sala Cecília Meireles, tivemos o Ciclo Lieder em 2006 e o Voz e Cia. em 2007. Mas é pouco. O canto de câmara, a articulação sofisticada da voz com a poesia e a música, a descoberta de um instrumento natural humano privilegiado, o empenho fremente de um artista na emissão da coluna sonora, as maravilhas do repertório acumulado em algumas centenas de anos… Tudo isto, tão empolgante para uma minoria, admito, mas uma minoria numerosa, quero crer, parece tão raro e sonegado!

Já seria interessante tentar descobrir por que essa arte não fascina maior número. Na era da reprodução de massa das artes interpretativas e da microfonia, do ‘som' e mesmo do barulho puro e simples, claro que a delicadeza e a sutileza, a escuta atenta e o refinamento sonoro e poético não podem competir na busca das multidões.

Mas por que os empresários e programadores, que afinal têm acesso ao que se passa em países onde essa tradição não esmorece, ‘et pour cause', não saem de sua modorra para explorar possibilidades, verificar se o que presumem ser o gosto do público é efetivamente o que acham? Será que a ausência de recitais de canto com mínima regularidade no Rio é uma escolha do gosto de nossos programadores?

De minha parte, sinto falta do canto lírico e de câmara como de um bem essencial – o que constato de forma quase dolorosa sempre que tenho no Rio a raríssima oportunidade de acessá-lo. No Festival Mignone, que selecionou vinte e um finalistas entre cinqüenta inscritos, muito esforço meritório foi visto e ouvido.

Num nível de ‘accomplishment' já evidente, a soprano carioca Karla Danielle de Araújo obteve Menção Honrosa com seu material lírico/ligeiro muito fino, a expressividade bem canalizada na interpretação, por exemplo, da "Canção antiga" de João Guilherme Ripper ou do "Retrato" em que Ronaldo Miranda tão plasticamente traduz o divino poema de Cecília Meireles. Karla mostra uma bela segurança também nos saltos de intervalos e no ataque no agudo, trabalhando com esmero a dicção e as vogais. Sua voz, além disso, é muito agradável, e me lembrou a da soprano alemã Christine Schäffer em sua translucidez.

O tenor Geraldo Matias de Morais foi escolhido Melhor Intérprete de Francisco Mignone, com suas versões cheias de alma de canções como "O doce nome de você" e "Se tu soubesses". O repertório mignoniano, por sinal, mostrou alguns favoritos: além destes, os irresistivelmente envolventes "Improviso" e "Alma adorada", com suas melodias instantaneamente memoráveis; e ainda "Quizomba", "Solau do desamado", "Tuas mãos", "Quando uma flor desabrocha" e "Dona Janaína". Outra pergunta fatal: por que não temos de vez em quando CDs com as canções de Mignone e de outros compositores brasileiros?

O primeiro lugar foi atribuído à mezzo-soprano paulista Mere Oliveira, de Taubaté, dona de um timbre opulento e de uma emissão franca, às vezes heróica, que fizeram maravilhas e arrebataram o público em canções como "Quizomba" e "Dona Janaína". Ela também mostrou a elegância da linha numa canção de Fauré, "Automne", além de bela presença de palco e grande vitalidade artística.

Em segundo lugar ficou a soprano ligeiro Alzeny Nelo, de Parnamirim, Rio Grande do Norte, com uma arte lindamente burilada e visivelmente modelada pela escola francesa, que freqüentou por quatro anos: expressividade vocal, facial e corporal, vivacidade e engajamento da interpretação, finura da modulação vocal, um timbre atraente e refratado em suas colorações.

Como ela, o tenor paranaense Evandro Cruz Stenzowski, terceiro lugar, já parece um artista consumado. O simples fato de concentrar boa parte de sua energia no Lied alemão, que além do mais trata com requintado esmero, representa um valor apreciável. Stenzowski ofereceu também uma interpretação hipnótica, no recital final, da ária de Lenski no "Eugênio Oniéguin" de Tchaikowski, mostrando igual presença e convicção nas canções de Mignone que escolheu e num "Ich liebe dich" de Grieg de derreter pedras.

Que os espera agora? Que lhes pode oferecer o universo brasileiro da ópera e da canção de câmara? Onde poderemos ouvi-los? Em que condições? Sairão do Brasil?

Fiz aos vencedores do III Festival Francisco Mignone de Jovens Intérpretes as mesmas perguntas, e reproduzo abaixo trechos das respostas que melhor traçam um perfil de sua trajetória até aqui, das escolhas musicais que fazem e do temperamento artístico de que são portadores.

MERE OLIVEIRA formou-se na prática religiosa e na Escola Municipal de Música, Artes Plásticas e Cênicas Maestro Fêgo Camargo, de Taubaté. Depois de se especializar com mestres brasileiros e estrangeiros, tem desenvolvido atividade camerística e operística, com papéis como Carmen, Adalgisa ("Norma") e Laura ("La Gioconda"), no Brasil e nos países platinos, onde colheu o 3º Prêmio no Concurso Internacional de Canto Maria Borges (Montevidéu, 2007), o 3º Prêmio e o Prêmio Fundamus de melhor mezzo-soprano do Concurso Internacional Voces Liricas Ciudad de Rosário (Argentina, 2005).

Seu depoimento:

"Aos três anos comecei a cantar com minha mãe na igreja. Filha de pastor, sempre tive tarefas intensas no ministério musical das igrejas onde meu pai trabalhou, e durante toda a infância e adolescência vi a música como coadjuvante de minhas outras atividades profissionais, como a publicidade, curso em que me formei na Universidade. No último ano do curso universitário, decidi estudar técnica vocal, mas somente vislumbrei a possibilidade de carreira profissional quando obtive o primeiro prêmio no Concurso Nacional de Araçatuba, no qual tive entre os jurados o violoncelista Watson Clis e a pianista Marcilda Clis, além de sua filha, a talentosíssima Adriana Clis, que me aconselharam a redobrar esforços em minha formação.

Faltam-nos políticas de incentivo para que a arte do canto lírico alcance mais brasileiros. Acredito que a grande lacuna é não haver opções para que se aprenda a apreciar a música erudita. Nossos meios de comunicação, infelizmente, atêm-se ao pop, ignorando o erudito.

Tenho alguns compromissos a cumprir no Brasil, na Argentina e no Uruguai e espero obter oportunidades em alguns países europeus onde me apresentarei em concursos de canto.

A técnica vocal é uma matéria muito ampla, partindo das premissas básicas de estudo da voz, como postura, respiração, relaxamento, afinação, dicção, entre outras. Há diversas escolas, e de todas podemos retirar um ou vários pontos que atendem às necessidades de cada cantor. Voz é como impressão digital, única, e ao descobrirmos suas potencialidades devemos explorá-la em seu melhor estado. Assim, preservo sempre as melhores lições que cada um dos meus professores me ensinou, obedecendo a uma rotina de alimentação e sono equilibrados, exercícios físicos para alongamento e relaxamento diários, exercícios de respiração por, no mínimo, 30 minutos, e estudo de matérias musicais e repertório por todas as horas disponíveis de cada dia. A orientação do professor é insubstituível, tanto para a instrução vocal quanto para o repertório. Eleger mal o repertório pode ocasionar sérios e, em muitos casos, irreversíveis danos vocais.

Sou uma sonhadora, mas meus sonhos costumam ser muito práticos: sonho com o dia em que o cantor lírico brasileiro terá sua importância reconhecida quando necessitar apoio financeiro, tanto para estudar quanto para competir em qualquer lugar do mundo!

Nos últimos anos, a cada dia descubro que posso fazer melhor com minha voz, com minha interpretação, que minha concentração se expande, e com isso conquisto maior controle da performance. Mais que os prêmios que conquistei, que somente neste ano foram três, com o auxílio de profissionais gabaritados, como, por exemplo, o maestro Espírito Santo, estou certa de que poderei alçar vôos ainda mais altos. No momento, planejo cursar especialização em voz na PUC de São Paulo e em performance musical na Faam, e espero conciliar esses dois cursos com o desenvolvimento da minha carreira no próximo ano."

ALZENY NELO tem o Diploma Superior de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e se aperfeiçoou entre 2002 e 2006 na França, em especial na École Normale de Musique de Paris / Alfred Cortot. Trabalhou com profissionais como Jean-Phillippe Lafont, Sandrine Piau, June Anderson, Inacio De Nonno e Denise Sartori. Sua experiência francesa transparece por exemplo na interpretação da música de Rameau e Lully.

Seu depoimento:

"Em minha vida, tenho muitos momentos importantes e determinantes de minhas decisões. Um deles foi quando conheci, em 1997, o pianista Guilherme Rodrigues, grande impulsionador de meus estudos e de minha carreira, além de sempre ter sido um parceiro musical especial.

Minha arte se baseia na verdade, na verdade do poeta e do compositor. O intérprete tem que acreditar no que está fazendo, nenhuma nota deve ser emitida sem uma justificativa, sem uma intenção. Se passarmos nos olhos a sinceridade, o público sentirá o que queremos dizer, mesmo o mais leigo perceberá algo diferente, e isso é o mais gratificante para o artista.

Tecnicamente falando, a respiração é a base de toda técnica. Acredito que o apoio é a regularidade da coluna de ar; se o som for sempre emitido sobre ela, teremos uma boa vibração, boa projeção, boa afinação…

Pessoalmente, tento não fabricar um som, tento potencializar o que tenho, dessa forma, a escolha do repertório é muito importante. Outra coisa que considero de extrema importância é o respeito ao estilo; buscamos isto através do estudo histórico-musical, da escuta e, sobretudo, do bom gosto; por exemplo, não podemos cantar Strauss como cantamos Schubert, ou Mozart como cantamos Villa-Lobos.

Estou preparando um Recital-Espetáculo (chamo-o assim porque misturarei com teatro e outras formas de expressões artísticas) voltado para o universo infantil: Rameau, Hugo Wolf, Offenbach, Debussy, Erik Satie, Villa-Lobos…

Serão músicas com temas lúdicos. Por exemplo, a "ária da loucura", da "Platée", de Rameau, onde a Loucura aparece tocando uma cítara no palco, dando risadas com muito virtuosismo e fazendo brincadeiras sem sentido.

Meu objetivo é mostrar que a música erudita não é chata nem elitista, ao mesmo tempo, atrair o público mais jovem e contribuir na formação dos apreciadores de amanhã. Gosto de dar um toque de modernidade sem agredir o estilo para mostrar que ela (a música) pode muito bem se adaptar aos dias de hoje.

No final do ano, farei um concerto sacro com o Exsultate, Jubilate de Mozart e o Laudate Pueri de Vivaldi. Fui convidada a fazer a Ópera "Gianni Schicchi" de Puccini em 2008. E pretendo, também no próximo ano, fazer um recital voltado totalmente para a música brasileira: Serestas de Villa-Lobos e canções brasileiras.

Meu sonho musical é encontrar parceiros para fazer muita, muita música, pois acredito que não fazemos nada sozinhos. Meu sonho de carreira, atualmente, é encontrar um agente artístico que acredite e invista no meu trabalho.

A França foi e é grande influenciadora na minha arte. Tecnicamente, é uma escola que preza pelos detalhes na interpretação, pela afinação, pelo respeito ao estilo e ao compositor, e busca uma emissão sonora mais leve que a chamada "escola italiana". Particularmente, adoro as ‘mélodies' (canções) francesas, adoro os poetas franceses e esse casamento poesia-música me fascina.

Com relação ao meu trabalho de expressão, sempre tive fama de não parar quieta no palco. Indo à França, recebi influência da opereta francesa e do espírito cômico dos franceses em geral. Também conheci o trabalho de duas sopranos francesas que admiro muito: Natalie Dessay e Patricia Petibon.

Para mim, seja na canção ou na ária de ópera, se eu não sentir e não caracterizar o personagem, fico perdida no palco, não sei o que fazer com a música. Acredito que cada música tenha seu personagem e seu "ambiente".

Como não tenho um tipo físico de ‘prima donna' e o repertório para soprano ligeiro é sempre menos dramático que para as outras vozes, é muito comum no meu repertório ter peças mais extrovertidas; além disso, sinto uma grande alegria de estar no palco, é claro."

EVANDRO CRUZ STENZOWSKI iniciou seus estudos de canto aos 14 anos sob a orientação da mezzo-soprano paranaense Denise Sartori, formando-se pelo Departamento de Canto da Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Professor de técnica vocal do Conservatório Municipal de Artes Dramáticas de Ponta Grossa e do Coro da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, tem-se dedicado ao Lied, à canção de câmara e investido na ópera contemporânea.

Seu depoimento:

"Se persisto neste caminho é em grande parte devido aos esforços do maestro Lázaro David Wenger, a quem gostaria de dedicar este prêmio, como símbolo de gratidão póstumo. Ele foi um professor incansável e um amigo fiel de toda a minha família, devo a muito a ele.

Com 23 anos, ainda penso mais em estudar do que em cantar, e é inevitável pensar nos grandes centros de formação de artistas da Europa e dos Estados Unidos. O grande problema reside na atual escassez de mecanismos nacionais que possibilitem esse tipo de oportunidade.

Creio que a respiração e o relaxamento são fator comum a todas as técnicas instrumentais ou vocais. Tomo-as por alicerce do processo de emissão vocal, ou seja, se não está relaxado, está errado. É claro que existe uma série de questões concernentes ao estudo da fisiologia vocal que fazem parte de minha formação (fui aluno de Denise Sartori, mestre em Fisiologia da Voz no Royal Northern College britânico), e isso me ajuda muito no meu dia-a-dia. Não é sempre que estamos em boas condições, e saber trabalhar com a voz e o corpo para que funcionem de maneira aceitável no palco é essencial para se construir uma carreira.

Estou programando uma série de concertos camerísticos para o ano que vem, nos quais certamente incluirei o "Dichterliebe" de Schumann , "Das Schöne Mullerin", de Schubert, os "Epigramas" de Villa-Lobos e uma série de canções de um compositor paranaense, Carlos Alberto Assis, especialmente compostas para mim. Além disso, estou preparando papéis como Nemorino, de "O Elixir do Amor", Tamino, da "Flauta mágica", Alfredo, da "Traviata", Uriel, do oratório "A Criação", de Haydn, e o tenor do "Elias", de Mendelssohn.

Penso em gravar música brasileira, inclusive contemporânea. Gostaria de dar um contribuição real à construção do patrimônio musical brasileiro. Espero ter as credenciais necessárias para desenvolver esse tipo de projeto no futuro. No repertório camerista internacional, um sonho é gravar o "Dichterliebe" de Schumann, que considero um dos mais importantes ciclos de canções já compostos.

Entre os tenores que admiro, Fritz Wunderlich é o primeiro nome que me vem sempre à mente.

Sobre minha filosofia como artista: Toda língua constitui-se sobre um universo de conexões metafórico-semânticas que conta sua própria história, montada por recortes das transformações temporais de seus interlocutores. A palavra musicada traz consigo o anima de uma nova rede de significados e significantes. Garimpando neste rico solo, o intérprete tem que buscar alguns desses símbolos e transferi-los para a performance de maneira que o público possa perceber e relacioná-los com sua cadeia individual de elementos imaginários, constituindo assim a experiência estético-artística. Isso exige fidelidade do artista e do público para com o material abordado. Não há arte sem comprometimento de todas as partes."

Veja aqui a programação da semana no Rio de Janeiro e em São Paulo.

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Jovens cantores

O Brasil é um celeiro de vozes, diz-me um músico ilustre. Mas onde podemos vê-las cultivadas? Neste mês de setembro que passou, o III Festival Francisco Mignone de Jovens Intérpretes revelou no auditório da Finep, no Rio, alguns talentos fortes que dão água na boca e levam a perguntar: que será deles?

O Festival é uma criação de Maria Josephina Mignone, que à frente do Centro Cultural Francisco Mignone mantém desde 1993 um pólo de irradiação da obra do autor de "Festas nas igrejas" no espaço reservado à música na sede da Financiadora de Estudos e Projetos. A Finep premiou em dinheiro os vencedores, que se apresentarão na Série Brasiliana da Academia Brasileira de Música e no programa Música e Músicos do Brasil, da Rádio MEC.

As duas edições anteriores haviam sido dedicadas a instrumentistas e vencidas por pianistas. Este ano, Lauro Gomes, produtor da Rádio MEC, teve a feliz idéia de reunir cantores. Fiz parte do júri, ao lado dos maestros Henrique Morelenbaum e Edino Krieger, e durante quatro terças-feiras pude exercer este direito tão pouco contemplado em terras cariocas e brasileiras de maneira geral: ouvir a arte do canto lírico e de câmara.

Por que será que ele é tão relegado por aqui? Certa vez, uma empresária me disse que, no Rio, para programar recitais de canto, só com árias de ópera, ou a sala ficaria vazia. Será mesmo?

Na Sala Cecília Meireles, tivemos o Ciclo Lieder em 2006 e o Voz e Cia. em 2007. Mas é pouco. O canto de câmara, a articulação sofisticada da voz com a poesia e a música, a descoberta de um instrumento natural humano privilegiado, o empenho fremente de um artista na emissão da coluna sonora, as maravilhas do repertório acumulado em algumas centenas de anos… Tudo isto, tão empolgante para uma minoria, admito, mas uma minoria numerosa, quero crer, parece tão raro e sonegado!

Já seria interessante tentar descobrir por que essa arte não fascina maior número. Na era da reprodução de massa das artes interpretativas e da microfonia, do ‘som' e mesmo do barulho puro e simples, claro que a delicadeza e a sutileza, a escuta atenta e o refinamento sonoro e poético não podem competir na busca das multidões.
Mas por que os empresários e programadores, que afinal têm acesso ao que se passa em países onde essa tradição não esmorece, ‘et pour cause', não saem de sua modorra para explorar possibilidades, verificar se o que presumem ser o gosto do público é efetivamente o que acham? Será que a ausência de recitais de canto com mínima regularidade no Rio é uma escolha do gosto de nossos programadores?

De minha parte, sinto falta do canto lírico e de câmara como de um bem essencial – o que constato de forma quase dolorosa sempre que tenho no Rio a raríssima oportunidade de acessá-lo.

No Festival Mignone, que selecionou vinte e um finalistas entre cinqüenta inscritos, muito esforço meritório foi visto e ouvido.
Num nível de ‘accomplishment' já evidente, a soprano carioca Karla Danielle de Araújo obteve Menção Honrosa com seu material lírico/ligeiro muito fino, a expressividade bem canalizada na interpretação, por exemplo, da "Canção antiga" de João Guilherme Ripper ou do "Retrato" em que Ronaldo Miranda tão plasticamente traduz o divino poema de Cecília Meireles. Karla mostra uma bela segurança também nos saltos de intervalos e no ataque no agudo, trabalhando com esmero a dicção e as vogais. Sua voz, além disso, é muito agradável, e me lembrou a da soprano alemã Christine Schäffer em sua translucidez.

O tenor Geraldo Matias de Morais foi escolhido Melhor Intérprete de Francisco Mignone, com suas versões cheias de alma de canções como "O doce nome de você" e "Se tu soubesses". O repertório mignoniano, por sinal, mostrou alguns favoritos: além destes, os irresistivelmente envolventes "Improviso" e "Alma adorada", com suas melodias instantaneamente memoráveis; e ainda "Quizomba", "Solau do desamado", "Tuas mãos", "Quando uma flor desabrocha" e "Dona Janaína". Outra pergunta fatal: por que não temos de vez em quando CDs com as canções de Mignone e de outros compositores brasileiros?

O primeiro lugar foi atribuído à mezzo-soprano paulista Mere Oliveira, de Taubaté, dona de um timbre opulento e de uma emissão franca, às vezes heróica, que fizeram maravilhas e arrebataram o público em canções como "Quizomba" e "Dona Janaína". Ela também mostrou a elegância da linha numa canção de Fauré, "Automne", além de bela presença de palco e grande vitalidade artística.

Em segundo lugar ficou a soprano ligeiro Alzeny Nelo, de Parnamirim, Rio Grande do Norte, com uma arte lindamente burilada e visivelmente modelada pela escola francesa, que freqüentou por quatro anos: expressividade vocal, facial e corporal, vivacidade e engajamento da interpretação, finura da modulação vocal, um timbre atraente e refratado em suas colorações.

Como ela, o tenor paranaense , terceiro lugar, já parece um artista consumado. O simples fato de concentrar boa parte de sua energia no Lied alemão, que além do mais trata com requintado esmero, representa um valor apreciável. Stenzowski ofereceu também uma interpretação hipnótica, no recital final, da ária de Lenski no "Eugênio Oniéguin" de Tchaikowski, mostrando igual presença e convicção nas canções de Mignone que escolheu e num "Ich liebe dich" de Grieg de derreter pedras.

Evandro Cruz Stenzowski

Que os espera agora? Que lhes pode oferecer o universo brasileiro da ópera e da canção de câmara? Onde poderemos ouvi-los? Em que condições? Sairão do Brasil?

Fiz aos vencedores do III Festival Francisco Mignone de Jovens Intérpretes as mesmas perguntas, e reproduzo abaixo trechos das respostas que melhor traçam um perfil de sua trajetória até aqui, das escolhas musicais que fazem e do temperamento artístico de que são portadores.

 

MERE OLIVEIRA

formou-se na prática religiosa e na Escola Municipal de Música, Artes Plásticas e Cênicas Maestro Fêgo Camargo, de Taubaté. Depois de se especializar com mestres brasileiros e estrangeiros, tem desenvolvido atividade camerística e operística, com papéis como Carmen, Adalgisa ("Norma") e Laura ("La Gioconda"), no Brasil e nos países platinos, onde colheu o 3º Prêmio no Concurso Internacional de Canto Maria Borges (Montevidéu, 2007), o 3º Prêmio e o Prêmio Fundamus de melhor mezzo-soprano do Concurso Internacional Voces Liricas Ciudad de Rosário (Argentina, 2005).
Seu depoimento:

"Aos três anos comecei a cantar com minha mãe na igreja. Filha de pastor, sempre tive tarefas intensas no ministério musical das igrejas onde meu pai trabalhou, e durante toda a infância e adolescência vi a música como coadjuvante de minhas outras atividades profissionais, como a publicidade, curso em que me formei na Universidade. No último ano do curso universitário, decidi estudar técnica vocal, mas somente vislumbrei a possibilidade de carreira profissional quando obtive o primeiro prêmio no Concurso Nacional de Araçatuba, no qual tive entre os jurados o violoncelista Watson Clis e a pianista Marcilda Clis, além de sua filha, a talentosíssima Adriana Clis, que me aconselharam a redobrar esforços em minha formação.

Faltam-nos políticas de incentivo para que a arte do canto lírico alcance mais brasileiros. Acredito que a grande lacuna é não haver opções para que se aprenda a apreciar a música erudita. Nossos meios de comunicação, infelizmente, atêm-se ao pop, ignorando o erudito.

Tenho alguns compromissos a cumprir no Brasil, na Argentina e no Uruguai e espero obter oportunidades em alguns países europeus onde me apresentarei em concursos de canto.

A técnica vocal é uma matéria muito ampla, partindo das premissas básicas de estudo da voz, como postura, respiração, relaxamento, afinação, dicção, entre outras. Há diversas escolas, e de todas podemos retirar um ou vários pontos que atendem às necessidades de cada cantor. Voz é como impressão digital, única, e ao descobrirmos suas potencialidades devemos explorá-la em seu melhor estado. Assim, preservo sempre as melhores lições que cada um dos meus professores me ensinou, obedecendo a uma rotina de alimentação e sono equilibrados, exercícios físicos para alongamento e relaxamento diários, exercícios de respiração por, no mínimo, 30 minutos, e estudo de matérias musicais e repertório por todas as horas disponíveis de cada dia. A orientação do professor é insubstituível, tanto para a instrução vocal quanto para o repertório. Eleger mal o repertório pode ocasionar sérios e, em muitos casos, irreversíveis danos vocais.

Sou uma sonhadora, mas meus sonhos costumam ser muito práticos: sonho com o dia em que o cantor lírico brasileiro terá sua importância reconhecida quando necessitar apoio financeiro, tanto para estudar quanto para competir em qualquer lugar do mundo!
Nos últimos anos, a cada dia descubro que posso fazer melhor com minha voz, com minha interpretação, que minha concentração se expande, e com isso conquisto maior controle da performance. Mais que os prêmios que conquistei, que somente neste ano foram três, com o auxílio de profissionais gabaritados, como, por exemplo, o maestro Espírito Santo, estou certa de que poderei alçar vôos ainda mais altos. No momento, planejo cursar especialização em voz na PUC de São Paulo e em performance musical na Faam, e espero conciliar esses dois cursos com o desenvolvimento da minha carreira no próximo ano."

ALZENY NELO tem o Diploma Superior de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e se aperfeiçoou entre 2002 e 2006 na França, em especial na École Normale de Musique de Paris / Alfred Cortot. Trabalhou com profissionais como Jean-Phillippe Lafont, Sandrine Piau, June Anderson, Inacio De Nonno e Denise Sartori. Sua experiência francesa transparece por exemplo na interpretação da música de Rameau e Lully.
Seu depoimento:

"Em minha vida, tenho muitos momentos importantes e determinantes de minhas decisões. Um deles foi quando conheci, em 1997, o pianista Guilherme Rodrigues, grande impulsionador de meus estudos e de minha carreira, além de sempre ter sido um parceiro musical especial.

Minha arte se baseia na verdade, na verdade do poeta e do compositor. O intérprete tem que acreditar no que está fazendo, nenhuma nota deve ser emitida sem uma justificativa, sem uma intenção. Se passarmos nos olhos a sinceridade, o público sentirá o que queremos dizer, mesmo o mais leigo perceberá algo diferente, e isso é o mais gratificante para o artista.

Tecnicamente falando, a respiração é a base de toda técnica. Acredito que o apoio é a regularidade da coluna de ar; se o som for sempre emitido sobre ela, teremos uma boa vibração, boa projeção, boa afinação…

Pessoalmente, tento não fabricar um som, tento potencializar o que tenho, dessa forma, a escolha do repertório é muito importante. Outra coisa que considero de extrema importância é o respeito ao estilo; buscamos isto através do estudo histórico-musical, da escuta e, sobretudo, do bom gosto; por exemplo, não podemos cantar Strauss como cantamos Schubert, ou Mozart como cantamos Villa-Lobos.

Estou preparando um Recital-Espetáculo (chamo-o assim porque misturarei com teatro e outras formas de expressões artísticas) voltado para o universo infantil: Rameau, Hugo Wolf, Offenbach, Debussy, Erik Satie, Villa-Lobos…

Serão músicas com temas lúdicos. Por exemplo, a "ária da loucura", da "Platée", de Rameau, onde a Loucura aparece tocando uma cítara no palco, dando risadas com muito virtuosismo e fazendo brincadeiras sem sentido.

Meu objetivo é mostrar que a música erudita não é chata nem elitista, ao mesmo tempo, atrair o público mais jovem e contribuir na formação dos apreciadores de amanhã. Gosto de dar um toque de modernidade sem agredir o estilo para mostrar que ela (a música) pode muito bem se adaptar aos dias de hoje.

No final do ano, farei um concerto sacro com o Exsultate, Jubilate de Mozart e o Laudate Pueri de Vivaldi. Fui convidada a fazer a Ópera "Gianni Schicchi" de Puccini em 2008. E pretendo, também no próximo ano, fazer um recital voltado totalmente para a música brasileira: Serestas de Villa-Lobos e canções brasileiras.

Meu sonho musical é encontrar parceiros para fazer muita, muita música, pois acredito que não fazemos nada sozinhos. Meu sonho de carreira, atualmente, é encontrar um agente artístico que acredite e invista no meu trabalho.

A França foi e é grande influenciadora na minha arte. Tecnicamente, é uma escola que preza pelos detalhes na interpretação, pela afinação, pelo respeito ao estilo e ao compositor, e busca uma emissão sonora mais leve que a chamada "escola italiana". Particularmente, adoro as ‘mélodies' (canções) francesas, adoro os poetas franceses e esse casamento poesia-música me fascina.

Com relação ao meu trabalho de expressão, sempre tive fama de não parar quieta no palco. Indo à França, recebi influência da opereta francesa e do espírito cômico dos franceses em geral. Também conheci o trabalho de duas sopranos francesas que admiro muito: Natalie Dessay e Patricia Petibon.

Para mim, seja na canção ou na ária de ópera, se eu não sentir e não caracterizar o personagem, fico perdida no palco, não sei o que fazer com a música. Acredito que cada música tenha seu personagem e seu "ambiente".

Como não tenho um tipo físico de ‘prima donna' e o repertório para soprano ligeiro é sempre menos dramático que para as outras vozes, é muito comum no meu repertório ter peças mais extrovertidas; além disso, sinto uma grande alegria de estar no palco, é claro."

EVANDRO CRUZ STENZOWSKI iniciou seus estudos de canto aos 14 anos sob a orientação da mezzo-soprano paranaense Denise Sartori, formando-se pelo Departamento de Canto da Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Professor de técnica vocal do Conservatório Municipal de Artes Dramáticas de Ponta Grossa e do Coro da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, tem-se dedicado ao Lied, à canção de câmara e investido na ópera contemporânea.

Seu depoimento:

"Se persisto neste caminho é em grande parte devido aos esforços do maestro Lázaro David Wenger, a quem gostaria de dedicar este prêmio, como símbolo de gratidão póstumo. Ele foi um professor incansável e um amigo fiel de toda a minha família, devo a muito a ele.

Com 23 anos, ainda penso mais em estudar do que em cantar, e é inevitável pensar nos grandes centros de formação de artistas da Europa e dos Estados Unidos. O grande problema reside na atual escassez de mecanismos nacionais que possibilitem esse tipo de oportunidade.

Creio que a respiração e o relaxamento são fator comum a todas as técnicas instrumentais ou vocais. Tomo-as por alicerce do processo de emissão vocal, ou seja, se não está relaxado, está errado. É claro que existe uma série de questões concernentes ao estudo da fisiologia vocal que fazem parte de minha formação (fui aluno de Denise Sartori, mestre em Fisiologia da Voz no Royal Northern College britânico), e isso me ajuda muito no meu dia-a-dia. Não é sempre que estamos em boas condições, e saber trabalhar com a voz e o corpo para que funcionem de maneira aceitável no palco é essencial para se construir uma carreira.

Estou programando uma série de concertos camerísticos para o ano que vem, nos quais certamente incluirei o "Dichterliebe" de Schumann , "Das Schöne Mullerin", de Schubert, os "Epigramas" de Villa-Lobos e uma série de canções de um compositor paranaense, Carlos Alberto Assis, especialmente compostas para mim. Além disso, estou preparando papéis como Nemorino, de "O Elixir do Amor", Tamino, da "Flauta mágica", Alfredo, da "Traviata", Uriel, do oratório "A Criação", de Haydn, e o tenor do "Elias", de Mendelssohn.

Penso em gravar música brasileira, inclusive contemporânea. Gostaria de dar um contribuição real à construção do patrimônio musical brasileiro. Espero ter as credenciais necessárias para desenvolver esse tipo de projeto no futuro. No repertório camerista internacional, um sonho é gravar o "Dichterliebe" de Schumann, que considero um dos mais importantes ciclos de canções já compostos.

Entre os tenores que admiro, Fritz Wunderlich é o primeiro nome que me vem sempre à mente.

Sobre minha filosofia como artista: Toda língua constitui-se sobre um universo de conexões metafórico-semânticas que conta sua própria história, montada por recortes das transformações temporais de seus interlocutores. A palavra musicada traz consigo o anima de uma nova rede de significados e significantes. Garimpando neste rico solo, o intérprete tem que buscar alguns desses símbolos e transferi-los para a performance de maneira que o público possa perceber e relacioná-los com sua cadeia individual de elementos imaginários, constituindo assim a experiência estético-artística. Isso exige fidelidade do artista e do público para com o material abordado. Não há arte sem comprometimento de todas as partes."

 

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