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Literatura

Depressão sexual nos subúrbios de Nova Jersey

Novo livro de Meg Wolitzer, 'The Uncoupling', se inspira em comédia do grego Aristófanes

Depressão sexual nos subúrbios de Nova Jersey
Novo romance de Meg Wolitzer, 'The Uncoupling'

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O que há nos quietos e descontentes casais de classe média que incendeiam as mentes criativas? Tendências vêm e vão na ficção norte-americana e no cinema, mas os dramas dos Johns e Janes – com seus gramados e suas relações adúlteras – nunca saem de moda. O terreno é rico, e os melhores exploradores são aqueles que procuram a parte podre das tortas de maçã: Jonathan Franzen, Todd Solondz, Todd Haynes, vários Johns (Cassavetes, Updike, Cheever), e dúzias de outros. Logo, é impressionante que um romance que começa como uma história gótica de subúrbio se transforme em uma fábula de farsas, como acontece no novo romance de Meg Wolitzer, “The Uncoupling” (algo como “O não-casal”). Tal mudança não é inteiramente desconfortável.

A história gira em torno de Dory e Robby Lang, professores de inglês casados que vivem em Nova Jersey. Eles têm uma vida amorosa melhor que a da maioria, o respeito de seus alunos, e uma filha adolescente que é, dentro do espectro de filhas adolescentes, uma jovem bastante tranquila. Seus dias são uma agradável rotina de avaliação de trabalhos escolares, marinar o frango do jantar e relembrar dias sem grandes eventos. Eles são um casal que não tem do que reclamar. Tudo vai bem, ainda que um pouco enfadonho.

Isso, até que (em romances domésticos sempre há um momento “isso, até que”) o novo professor de teatro escolhe “Lisístrata” como peça da classe. A levemente obscena comédia de Aristófanes, sobre uma mulher que implora às mulheres gregas que abdiquem do sexo com seus maridos para dar um fim à Guerra do Peloponeso é uma estranha e pouco realista escolha para uma produção escolar, e os leitores são obrigados a dar esse desconto a Wolitzer. No entanto, “Lisístrata” lança um feitiço que rapidamente toma conta das mulheres da escola, causando nelas uma súbita e gélida aversão ao sexo. “Por toda a cidade”, escreve Wolitzer, “era possível ouvir a palavra ‘não’”.

À medida em que os ensaios para a peça continuam, a maldição misteriosa piora. Os Lang deixam de dormir juntos, com Dory inventando desculpas para seu intrigado marido. “Não estou fazendo isso de propósito”, ela diz a seu marido. “Você não está fazendo isso por acidente”, responde ele. Como em “Lisístrata”, a abstinência sexual desperta o lado rude de Robby. “Era só isso o necessário para descobrir o lado ruim de um homem?”, se pergunta Dory. “Foi como privá-lo de um nutriente essencial?”

Wolitzer mostra os efeitos do feitiço sobre outros casais. O enredo é veloz, e em pouco tempo chega o momento da peça, que traz ao mesmo tempo uma medida da catarse, e explicações que os leitores considerarão tolas e desnecessárias. Em “Lisístrata”, Aristófanes tornou a recusa sexual hilária; em “The Uncoupling”, pega o enredo emprestado para dramatizar a depressão sexual. Ela faz isso com uma leveza, que é ao mesmo tempo cativante e confusa. A escolha de não ser nem inteiramente trágica, nem inteiramente cômica pode frustrar alguns leitores. É como se Needy Merrill, o sofrível protagonista do conto “Enigma de uma Vida” (“The Swimmer”) tivesse saído da piscina no meio de sua odisseia, e decidido ir ao shopping center comer um cachorro-quente.

Fontes:
The Economist - "Far from heaven"

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