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Desvendando os mistérios de Jane Austen

Dois livros analisam obras da escritora inglesa, autora de sucessos como 'Emma', 'Razão e Sensibilidade', e 'Orgulho e Preconceito'

Desvendando os mistérios de Jane Austen
Jane Austen (vivida aqui por Anne Hathahway no filme 'Amor e Inocência') tornou-se uma das romancistas mais lidas e reverenciadas do século XIX (ALLSTAR/BUENA VISTA)

Jane Austen nasceu no dia 16 de dezembro de 1775, na Inglaterra. A escritora foi responsável por grandes romances do século XVIII e XIX, tendo vivido apenas 41 anos. O volume de sua produção foi impressionante. Algumas de suas obras mais famosas, como “Razão e Sensibilidade” e “Orgulho e Preconceito”, receberam adaptações para teatro e cinema, algumas recentes.

A escritora dedicou sua vida a escrever sobre relacionamentos, mas pouco se sabe sobre sua vida amorosa. Austen chegou a noivar, mas no dia seguinte voltou atrás e cancelou o noivado. Acredita-se que ela era apaixonada por um homem que morreu prematuramente. De acordo com uma de suas cartas, não existia nada pior do que se casar sem afeto.

Blocos de notas da escritora sugerem que ela teria começado a escrever aos 12 anos. O sucesso só veio em 1811, com “Razão e Sensibilidade”. O livro foi publicado anonimamente, seis anos antes da morte da escritora por uma doença no fígado.

Jane Austen escreveu seis romances, viveu tranquilamente em Hampshire, e morreu aos 41 anos, tendo alcançado um sucesso moderado. Desde então, um culto de “Janeismo” tem assegurado o seu legado, e Austen tornou-se uma das romancistas mais lidas e reverenciadas do século XIX. Dois novos livros exploram a paixão e a proliferação desse Janeismo de diferentes maneiras. John Mullan (um fervoroso janeista) se deleita numa leitura atenta de suas obras, e Claudia Johnson (uma janeista com objetividade) traça o desenvolvimento do Janeismo do final do século XIX até os dias atuais.

Mullan, um professor de Inglês na University College London, consegue tirar sarro da crítica literária. Em What Matters in Jane Austen? (“O que importa em Jane Austen?”), ele resolve 20 quebra-cabeças cruciais, fazendo perguntas como “Existe algum sexo na obra de Jane Austen?”, e “Por que é arriscado ir ao litoral?”, vasculhando sua obra em busca de pistas e fornecendo respostas dentro do contexto social da Inglaterra georgiana. Este livro oferece curiosidades divertidas para os fãs de Austen, que se encantarão com o conhecimento enciclopédico de Mullan sobre os textos e os tempos em que ela viveu. Ele tem prazer em “tornar-se tão inteligente e perspicaz quanto a própria autora”.

Os melhores capítulos são aqueles em que Mullan relaciona um tema nos romances à história social – momentos que os leitores modernos poderiam não captar. Assim, a obra de Austen nunca inclui ou dá voz às classes mais baixas e os servos. Os leitores não podem vê-los, mas, observando os diálogos e as maneiras dos outros personagens, fica claro que eles estão lá. Leitores contemporâneos, porém, estariam acostumados com servos presentes, e iriam simpatizar, por exemplo, com a frustração de Elizabeth Bennet no fato de sua mãe fofocar na frente deles em Orgulho e Preconceito. Jogos também são significativos. Leitores modernos podem não intuir a configuração das mesas de jogo, mas elas são um truque útil para que Austen aproxime alguns personagens e mantenha outros à distância (tudo em nome do flerte). Ela também julga sutilmente a prática comum do jogo. O capítulo sobre o dinheiro é revelador, pois a riqueza e a herança estavam inseparavelmente ligadas à posição social e ao altamente cativante negócio do casamento.

Como Mullan, o livro de Johnson, Jane Austen’s Cults and Cultures (“Cultos e Culturas de Jane Austen”), mostra que os romances exigem releitura e podem ser interpretados de muitas maneiras. Professora de inglês na Universidade de Princeton, ela escreve em um estilo mais acadêmico, apoiando-se em pesquisa feita por críticos e colegas, e literatura relacionada a Austen, abrangendo os períodos largos do final do século XIX, as duas guerras mundiais, e os dias atuais. Às vezes, o leitor pode sentir que as prateleiras da biblioteca estão se fechando, mas há algumas passagens reveladoras que mostram como a mudança da cultura convida a uma reinterpretação de Jane Austen e suas obras.

O capítulo de abertura, sobre o corpo de Jane Austen e sua imagem é o mais memorável. Poucas imagens de Austen sobreviveram, e ao longo das décadas, ela foi reimaginada em pinturas, livros, peças teatrais e filmes. Seu lugar e significado na cultura também mudaram com as mudanças da sociedade. Os vitorianos viram mágica em suas histórias: desencantados com o modernismo, eles alinharam seus romances com contos de fadas e uma Inglaterra idealizada. Soldados da Primeira Guerra Mundial carregavam seus livros para o front como companheiros em um conflito terrível, percebendo o perigo nas páginas e tenacidade em suas palavras. Durante a Segunda Guerra Mundial, Austen foi considerada a epítome da cultura inglesa, que precisava de proteção.

Ambos os livros são importantes. Os textos de Johnson oferecem ao leitor uma apreciação mais completa de Jane Austen e seus admiradores, mas é Mullan que você deve ler para uma lição inesquecível de como superar seus companheiros janeistas.

Fontes:
The Economist - A puzzle inside an enigma

1 Opinião

  1. Regina Caldas disse:

    Ler e reler Jane Austin é e será sempre um prazer inesquecível.

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