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No dia 18 de maio deste ano, o colunista e criador do site Digestivo Cultural Julio Daio Borges publicou um artigo em que já no título fazia um questionamento polêmico: Publicar em papel? Pra quê?. O texto dizia, em linhas gerais, que apesar de o objetivo maior de muitos escritores amadores e autores de blogs na Web ser o de publicar um livro através de uma editora e portanto de forma tradicional, eles não deveriam se limitar a essa meta. “Ambições literárias são saudáveis para quem escreve, mas publicar um livro não pode ser o único fim hoje. Publicar, como diz o clichê, é tornar público – e, nesse sentido, a internet vai muito mais longe do que o livro”, disse o colunista.

Assim como existe o questionamento a respeito de qual será o caminho tomado pelos jornais impressos diante do desenvolvimento, crescimento e enriquecimento da internet, naturalmente discute-se na rede a literatura e seus rumos em tempos de Web.
Dentre as variadas pautas debatidas em sites de cultura, blogs, listas de discussão, comunidades do Orkut e outras ferramentas de comunicação online, sabe-se que a internet serve como “vitrine” e ponto de partida para determinados escritores. Esse foi o caso de André Takeda, gaúcho bastante conhecido no meio da “literatura pop” e que, em 2000, lançou seu romance Clube dos Corações Solitários na TXT Magazine, publicação online hoje desativada da qual foi editor. Com dois mil downloads em menos de três meses, Clube chamou a atenção de uma editora, a Conrad, que comprou os direitos da obra e fez com que o romance já consagrado na Web chegasse às livrarias.
Caso parecido aconteceu com Daniel Galera, que tem em comum com Takeda o fato de ser gaúcho. As semelhanças, no entanto, não param por aí. A carreira de Galera como escritor também teve a internet como trampolim. Sua coletânea de contos Dentes Guardados, escrita entre 1998 e 2001, foi lançada online – e está disponível em versão PDF aqui. Depois, Galera fundou a editora Livros do Mal, em parceria com o também escritor Daniel Pelizzari, e através dela publicou seus contos em forma de livro.
Galera acredita que a Web facilita a vida dos escritores em geral, mas pôde dar um impulso especial à sua carreira porque vivia um momento diferente quando ele lançou seus primeiros textos na rede. “Nunca foi tão fácil estabelecer contatos, publicar textos e formar um público inicial. Tudo isso ajuda os escritores. Quando comecei a publicar na internet, isso era um pouco novidade, o que me ajudou ainda mais, chamou mais a atenção. Hoje a internet é coisa velha, suas possibilidades não são novidade pra quase ninguém”.
Mesmo com três livros publicados – depois de Dentes Guardados, Galera publicou Até o dia em que o cão morreu (2003), também pela Livros do Mal, que foi adaptado para o teatro por Mário Bortolotto e para o cinema por Beto Brant, e Mãos de Cavalo, pela Companhia das Letras – o escritor não deixa de considerar a Web um importante meio de levar o que escreve aos seus leitores. Ele acredita que a internet e a literatura em sua forma tradicional podem caminhar juntas. “O livro ainda é o suporte principal da literatura, mesmo com a popularização da internet como meio de publicação. Claro que muita coisa mudou em relação a décadas passadas, mas o essencial permanece. Vejo livros e internet evoluindo juntos, se complementando”.
No entanto, Galera vê diferenças entre o tipo de texto que funciona melhor na Web e o que cai melhor para os livros. “Acho que a internet se presta mais a textos rápidos, opinativos e confessionais, enquanto o livro é um suporte melhor para textos mais longos ou densos, mas isso é uma generalização. Há casos e casos, mas não acho que exista um tipo de literatura específico que tenha surgido na Web. Existe um formato de texto específico, isso sim, mas nem sempre isso tem a ver com literatura”, opina.
Mesmo fazendo essa distinção, Galera conta que a forma instantânea e direta como se dá a comunicação online não influenciou a sua forma de escrever. A Web, sempre associada a textos curtos e objetivos que funcionariam melhor online do que textos mais longos e rebuscados, apenas foi um meio eficiente para abrigar as primeiras publicações do escritor. “Nunca adaptei nenhuma das características dos meus contos para poder encaixá-los em publicações online. Meus contos daquela época eram curtos porque minha forma de escrever era essa, e por sorte o tamanho deles favoreceu a publicação na web, que foi muito importante para eu começar a ter leitores e melhorar minha escrita”, avalia, contando que quando publicou contos maiores resolveu dividi-los em três partes, para não sobrecarregar o tamanho da edição do zine Cardosonline, para o qual escrevia. “Mas condicionar o tamanho ou a linguagem às exigências do meio, isso nunca fiz nem farei”, completa.

Apesar de a internet ser uma ótima vitrine para os autores mostrarem seus trabalhos, ainda não há uma forma eficiente de os escritores terem retorno financeiro com publicações na Web. Além da divulgação do trabalho, Galera afirma que a rede é um bom local para se estabelecer contatos e conhecer um material que só circula online. “Pode ser que num futuro próximo a evolução dos e-books (livros em versões digitais) permita que autores vendam textos pela internet a valores muito baixos, e que isso atraia o interesse de alguns leitores”, avalia.
A internet vai acabar com a literatura tradicional?
“Antes de mais nada precisamos separar o conteúdo de seu suporte. A gente tende a considerar eternos e imutáveis certos conceitos e formatos que conhecemos, como o livro, por exemplo. Mas o livro nem sempre foi o veículo de palavras e imagens”, analisa Mateus Kacowicz, jornalista e fundador da editora Xenon. “O primeiro suporte foi o próprio cérebro, no tempo em que a informação era passada de boca a orelha, formando as tradições orais; depois foi o barro, a pedra, o papiro, o pergaminho, o papel, a tela do computador. Ou seja, a humanidade tem percorrido um belo caminho do oral ao visual, do individual ao coletivo e de volta ao individual, do virtual ao virtual”.
Kacowicz enfatiza ainda que, para uns, o livro como objeto é importante, enquanto para outros o que tem valor é somente o conteúdo da obra. “O estudante que xeroca apenas as páginas do livro que vão cair na prova exemplifica bem essa situação. Ele não tem o menor interesse em possuir o livro, muito menos pagar por ele. Quer apenas o trecho de conteúdo que lhe interessa”.
A facilidade de download – legal ou pirata – estaria colocando em xeque a estrutura tradicional da edição e distribuição de livros. “A internet tende a aproximar os autores, publicadores e editores dos consumidores de livros, o que tende a reduzir a importância das livrarias. Estas, por seu lado, parecem se comportar como as supernovas: vão se conglomerando, tornando-se mais e mais aquecidas até que venham a colapsar e se tornarem buracos negros”, analisa Kacowicz, que acredita na existência de uma solução. “Para que os produtores de conteúdo não quebrem, eles terão que superar os piratas, terão que se aproximar dos consumidores”.
Na opinião da revisora Juliana Borges, de 23 anos, do Rio de Janeiro, em alguns casos os livros “palpáveis” são insubstituíveis, apesar da possibilidade de acesso ao seu conteúdo em formato digital. “Penso que e-books e livros impressos irão conviver bem, cada qual com sua importância. Um exemplo simples, tolo talvez, é o das HQs (histórias em quadrinhos). Atualmente, boa parte delas está disponível online para quem quiser baixar, mas esse fato só aumentou o número de leitores dos exemplares impressos, uma vez que foi comprovado empiricamente que se um fulano gosta da revista, ele quer tê-la de maneira, digamos, ortodoxa”. Esse seria, provavelmente, um exemplo de situação em que a internet acabou aproximando ainda mais os leitores da obra.
Durval Augusto Jr., 55 anos, morador de Belo Horizonte que se define como “escritor por paixão e funcionário público por necessidade” e é autor do romance Almas Tontas, publicado na cidade onde mora, se mostra reticente ao dar sua opinião. “Na verdade, acho que o livro digital será um complemento de peso para as edições tradicionais, ‘engolindo’, sim, a maior fatia do mercado. Entretanto, o livro de papel encontrará sempre, creio, ‘ecos atávicos’ em muitos leitores de qualquer idade – ou é romantismo meu?”
A psicóloga Renata Farret, que tem 35 anos e mora em Brasília, não tem o hábito de baixar ou ler textos longos na internet, e acredita que os tradicionais livros em papel jamais serão substituídos pela leitura eletrônica. “Não gosto muito de ler pelo computador, não tenho o hábito, prefiro ler o livro mesmo. Para mim, nada melhor do que ter o livro em mãos e poder ler em qualquer lugar. Baixar na internet e ler pelo computador cansa muito a vista, além de gastar muita tinta caso vá imprimir”.
Talvez o problema encontrado por Renata tenha uma solução a caminho, que ao mesmo tempo seria mais um obstáculo com o qual editores teriam que lidar. “O golpe de misericórdia será dado pela Sony, a Microsoft ou a Apple ao criar um novo suporte, leve e portátil, confortável para ser usado na cama, e que já venha carregado com o conteúdo de tudo o que há em domínio público e que formou o Cânone Ocidental”, diz Kacowicz, prevendo o significado derradeiro da verdadeira união entre livros e computadores. Por enquanto, o recurso mais próximo disso parece ser o Sony Reader, lançado em 2006 e que permite o armazenamento de 80 livros, blogs e fotos, mas ainda é cheio de limitações.
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