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Resenha

Matar para não morrer

A morte de Euclides da Cunha e a noite sem fim de Dilermando de Assis

por 1

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Recentemente em artigo escrito por nosso colaborador Claudio Carneiro, intitulado  “A censura à literatura biográfica – a tesoura em novo design”, este livro era mencionado. O tema era o fato de que algum estranho artigo em nossa legislação dá à família de um biografado o direito de bloquear a publicação sem necessitar qualquer justificativa. Não se trata de alegar calúnia ou difamação – não precisa alegar nada.

Assim, as filhas de Garrincha tentaram bloquear a biografia do pai, aparentemente com o intuito de arrancar algum dinheiro do autor ou da editora. Já Roberto Carlos talvez tenha bloqueado a sua porque confirmava o boato de que ele usa uma perna artificial, e como foi o acidente que levou a isso (não adiantou bloquear o livro porque todas as revistas do país publicaram o trecho). A filha do grande escritor Guimarães Rosa aparentemente quis bloquear uma biografia do pai que os jornais davam como muito boa porque iria atrapalhar as vendas de uma escrita por ela, muito pior. Pena para o pai, que deixou de ser convenientemente homenageado, e para nós amantes dos livros dele, que ficamos privados de boas informações.

No caso do livro Matar para não morrer, não foi divulgada a razão da ameaça de processo da família (será dinheiro?). O livro é inteiramente favorável a Dilermando de Assis, o jovem amante da mulher de Euclides. Ele foi atacado covardemente a tiros, estando desarmado. Depois de baleado gravemente foi pegar sua arma e, vendo Euclides dar um tiro pelas costas em seu irmão, menor de idade, alvejou Euclides e o matou. Apesar dessas circunstâncias, foi condenado pela imprensa sensacionalista e antimilitarista (ele era cadete do Exército) e pela opinião pública, sendo levado a julgamento por assassinato duas vezes e nas duas absolvido.

Naquele tempo, o conceito de “lavar a honra com sangue” era aceito pela sociedade e pelos tribunais. Ainda que não fosse um escritor famoso e membro da Academia Brasileira de Letras, Euclides da Cunha teria tido sua absolvição quase garantida.

Já Dilermando, matando na mais clara legítima defesa, de si mesmo e de seu irmão, teve em seu primeiro julgamento o júri empatado em 6×6, com o juiz decidindo a seu favor dentro do princípio legal do in dubio pro réu.

Dilermando, uma vez absolvido, casou-se com a amante treze anos mais velha que ele, com quem teve vários filhos. Inocentado pela justiça, mas não pela opinião pública, nem pela imprensa, que durante longos anos continuou a persegui-lo, Dilermando viveu o resto de sua vida obcecado em mostrar ao público os fatos verdadeiros e limpar seu nome. Morreu ainda pensando nisso.

Não vou entrar aqui no restante da história, pois tem fatos que eu não conhecia e suponho que muita gente não conheça e não quero tirar o suspense. Só direi que a autora, Mary Del Priore, historiadora ilustre com títulos acadêmicos e prêmios importantes em seu currículo, usa esse conhecimento para fazer sua pesquisa, mas redige o texto em linguagem de escritor moderno, mantendo o suspense o tempo todo e nos surpreendendo até o final. A acadêmica tem talento também de romancista. Vale a pena ler!

Matar para não morrer, de Mary Del Priori

temente em artigo escrito por nosso colaborador Claudio Carneiro, intitulado “A censura à literatura biográfica – a tesoura em novo design” (veja aqui: http://opiniaoenoticia.com.br/cultura/a-censura-a-literatura-biografica-%E2%80%93-a-tesoura-em-novo-design/) este livro era mencionado. O tema era o fato de que algum estranho artigo em nossa legislação dá à família de um biografado o direito de bloquear a publicação sem necessitar qualquer justificativa. Não se trata de alegar calúnia ou difamação – não precisa alegar nada.

Assim, as filhas de Garrincha tentaram bloquear a biografia do pai, aparentemente com o intuito de arrancar algum dinheiro do autor ou da editora. Já Roberto Carlos talvez tenha bloqueado a sua porque confirmava o boato de que ele usa uma perna artificial, e como foi o acidente que levou a isso (não adiantou bloquear o livro porque todas as revistas do país publicaram o trecho). A filha do grande escritor Guimarães Rosa aparentemente quis bloquear uma biografia do pai que os jornais davam como muito boa porque iria atrapalhar as vendas de uma escrita por ela, muito pior. Pena para o pai, que deixou de ser convenientemente homenageado, e para nós amantes dos livros dele, que ficamos privados de boas informações.

No caso do livro Matar para não morrer não foi divulgada a razão da ameaça de processo da família (será dinheiro?). O livro é inteiramente favorável a Dilermando de Assis, o jovem amante da mulher de Euclides. Ele foi atacado covardemente a tiros, estando desarmado. Depois de baleado gravemente foi pegar sua arma e, vendo Euclides dar um tiro pelas costas em seu irmão, menor de idade, alvejou Euclides e o matou. Apesar dessas circunstâncias foi condenado pela imprensa sensacionalista e antimilitarista (ele era cadete do Exército) e pela opinião pública, sendo levado a julgamento por assassinato duas vezes e nas duas absolvido.

Naquele tempo o conceito de “lavar a honra com sangue” era aceito pela sociedade e pelos tribunais. Ainda que não fosse um escritor famoso e membro da Academia Brasileira de Letras, Euclides da Cunha teria tido sua absolvição quase garantida.

Já Dilermando, matando na mais clara legítima defesa, de si mesmo e de seu irmão, teve em seu primeiro julgamento o júri empatado em 6×6, com o juiz decidindo a seu favor dentro do princípio legal do in dubio pro reu.

Dilermando, uma vez absolvido, casou-se com a amante treze anos mais velha que ele, com quem teve vários filhos. Inocentado pela justiça, mas não pela opinião pública, nem pela imprensa, que durante longos anos continuou a persegui-lo, Dilermando viveu o resto de sua vida obcecado em mostrar ao público os fatos verdadeiros e limpar seu nome. Morreu ainda pensando nisso.

Não vou entrar aqui no restante da história, pois tem fatos que eu não conhecia e suponho que muita gente não conheça e não quero tirar o suspense da história. Só direi que a autora, Mary Del Priore, historiadora ilustre com títulos acadêmicos e prêmios importantes em seu currículo, usa esse conhecimento para fazer sua pesquisa mas redige o texto em linguagem de escritor moderno, mantendo o suspense o tempo todo e nos surpreendendo até o final. A acadêmica tem talento também de romancista. Vale a pena ler!

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  1. Maria Silva disse:

    Gostei bastante do livro e fiquei impressionada com o elemento trágico na vida das personagens. De fato, se tivesse se passado na Grécia, o episódio teria sido aproveitado por muitos autores trágicos. Gostaria de saber mais sobre Dilermando, que me pareceu um verdadeiro herói.

  2. Wilson Simão disse:

    Realmente que não entendi essa do irmão menor de idade, que não estava em evidencia, surgir do nada e ainda ser baleado em fuga. Certas coisas quanto mais mexem mais confusas ficam.
    Terá sido uma emboscada? (só vendo nos laudos do processo)
    Mas vou comprar o livro.