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REDES SOCIAIS

Uma abordagem mais plural para o Facebook

No momento em que a era digital investe em conteúdos personalizados, um livro faz uma abordagem diferente baseada na casualidade, no espírito da curiosidade e na abertura a novas ideias

Uma abordagem mais plural para o Facebook
Na era digital as redes sociais funcionam como fóruns públicos onde as pessoas trocam ideias em um ambiente democrático (Foto: Pexels)

Em junho de 2016, o Facebook anunciou uma mudança em seu feed de notícias. O site reorganizou a forma de classificação das histórias, com o objetivo de garantir o acesso “às histórias que as pessoas acham mais importantes”. Mas o que significa “mais importante”? Fotos da família, dos amigos e dos usuários que as pessoas “curtem” com frequência. O feed de notícias precisa ser “subjetivo, pessoal e único” e o Facebook prometeu trabalhar na construção de ferramentas para dar aos usuários “uma experiência mais personalizada”.

Cass Sunstein, professor de Direito na Universidade de Harvard e ex-diretor do Escritório de Informações e Assuntos Regulatórios do governo Barack Obama, é um dos usuários insatisfeitos com o Facebook. “O Facebook poderia ter um desempenho melhor”, escreveu em seu novo livro #Republic: Divided Democracy in the Age of Social Media, que aborda a questão da democracia na era das redes sociais.

Alguns aspectos da informação ultrapersonalizada o incomodam, mas Sunstein é discreto em suas críticas. Sem dúvida, ele quer influenciar Mark Zuckerberg e outros gigantes da tecnologia, porém sem criar atritos com eles. Embora Zuckerberg tenha saído de Harvard sem concluir o curso de graduação, talvez ele consiga um exemplar do livro com um professor de Harvard, junto com seu diploma honorário concedido pela universidade.

De certa forma, #Republic é uma revisão dos requisitos básicos do curso DPI 101 – I: Political Institutions and Public Policy da Universidade de Harvard. De acordo com esses requisitos, os cidadãos precisam ficar expostos a uma abordagem mais ampla de ideias e perspectivas, sobretudo, a conceitos que não escolheriam ver ou ouvir.

Encontros casuais ao caminhar pelas ruas, como protestos de ativistas ou comentários conflitantes noticiados no jornal televisivo noturno, ajudam a proteger as pessoas contra “a fragmentação, a polarização e o extremismo”. Assim, as pessoas não estariam ouvindo apenas o eco de sua própria voz. A exposição a temas variados e imprevistos diminui o impacto de fatos assustadores, como o terrorismo. E promovem o compartilhamento de informações e experiências, facilitando a solução de problemas e a convivência em uma sociedade heterogênea.

Na era digital as redes sociais funcionam como fóruns públicos onde as pessoas trocam ideias em um ambiente democrático. Mas a crescente “personalização” das informações online ameaça a democracia. As pessoas vivem em mundos separados. Sunstein defende a ideia de uma “arquitetura de descobertas importantes ou felizes por acaso” para combater a polarização, ou seja, meios de comunicação e redes sociais que promovem encontros fortuitos e debates democráticos, como os antigos fóruns públicos.

O Facebook poderia criar o botão “casual”, sugeriu Sunstein, que daria acesso a pontos de vista opostos ou perspectivas não filtradas. Os sites de notícias conservadores poderiam incluir links para sites liberais e vice-versa, permitindo, assim, que as pessoas consultassem informações diferentes de suas fontes habituais. Um site como deliberativedemocracy.com, cujo domínio ainda não foi registrado, poderia ser um espaço de discussão de opiniões divergentes. As democracias também deveriam se inspirar nas palavras de Billings Learned Hand, um juiz americano, que disse que “o espírito da liberdade não tem muita certeza do que é certo”.

Fontes:
The Economist-In praise of serendipity

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