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RESENHA

‘Uma sensação estranha de Orhan’ Pamuk

Novo livro de Orhan Pamuk acompanha a história da vida e dos sonhos de Mevlut Karatas

‘Uma sensação estranha de Orhan’ Pamuk
Novo livro publicado pela Companhia das Letras (Foto: Divulgação)

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“[…] de uma cidade a história

depressa muda mais que um coração infiel.”

              Baudelaire, “O cisne”.

Istambul, a cidade natal de Orhan Pamuk, o celebrado escritor turco e prêmio Nobel de Literatura em 2006, é o protagonista onipresente de seu mais recente romance, Uma sensação estranha, publicado pela Companhia das Letras. A cidade acompanha a história da vida e dos sonhos de Mevlut Karatas, um vendedor ambulante de iogurte e boza, a típica bebida turca feita com trigo fermentado.

A transformação da cidade ao longo dos anos é apresentada pelos olhos de Mevlut, que passeia pelas ruas com seus potes de iogurte e boza. Nascido em uma aldeia pobre da Anatólia Central, partiu aos 12 anos de seu vilarejo para se reunir ao pai em Istambul. Quando tinha 25 anos voltou para a aldeia e fugiu à noite com uma jovem, que conhecera em uma festa e com quem se correspondera durante três anos.

Já distante do vilarejo, Mevlut percebeu que havia fugido com a irmã mais velha de Samiha, Rayiha. Apesar do desapontamento, na longa viagem melancólica de trem para Istambul, os dois se aproximam, apaixonam-se e Mevlut constrói seu lar na cidade ao lado de Rayiha.

Assim que chegou a Istambul, Mevlut instalou-se na casa simples e pobre do pai na periferia da cidade e começou a acompanhá-lo nas vendas de iogurte e boza. Nos primeiros meses o pai o levava ao cume de Kültepe, a colina na qual moravam. Lá, lhe mostrava as favelas que avançavam rapidamente pelas colinas ao redor, as fábricas, as garagens, oficinas, depósitos e, ao longe, a silhueta de Istambul, com seus espigões e minaretes. Logo, Mevlut começou a admirar e amar a paisagem que se descortinava aos seus olhos.

Ao chegar à meia-idade, Mevlut lembra como a cidade desapareceu diante de seus olhos, desfigurada por estradas novas, arranha-céus, túneis e elevados. Os antigos chafarizes cobertos por belos caracteres e as casas de madeira haviam sido substituídos por casas de concreto, lojas iluminadas com neon e blocos de apartamentos intimidadores.

Nostálgico, pensou que já vivia em Istambul há 43 anos. Nos primeiros 35 anos, a cada ano seus laços com a cidade estreitavam-se mais. Porém, aos poucos a sensação de deslocamento aumentou e a cidade deixou de ser um lar acolhedor.

Neste magnífico romance Pamuk captura não só a imagem e o espírito de Istambul, mas também sua cultura, tradições e valores, com uma rara sutileza emocional.

 

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