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Certamente o ensolarado domingo de 14 de outubro não foi o que esperava grande parte da juventude parisiense. Os jovens amanheceram com o gosto amargo de uma derrota no campeonato do mundo. Na noite da véspera, bares e cafés de Paris estouravam de tão lotados com a moçada torcendo loucamente pelos "bleus". Foi uma decepção. Perderam a semifinal para os ingleses que há um século não conseguem derrotar. "A Inglaterra continua sendo a pérfida Albion", resumiu Le Figaro.
Desculpe decepcionar o prezado leitor julgando que estou escrevendo sobre futebol. "Copa do mundo em 2007?" estará indagando intrigado. O campeonato em questão é de rugby, um esporte para o qual os brasileiros são tão indiferentes quanto para o crickett, o que já não acontece com os argentinos que disputariam o 3o lugar dias depois. Nos anos 50 a mais bonita revista esportiva da América do Sul, "El Grafico", já estampava lindas reportagens coloridas sobre o desenvolvido rugby portenho mas apesar disso, ao contrario dos badalados profissionais da seleção francesa, os jogadores da Argentina são até hoje praticamente amadores, engenheiros, médicos e até um cantor lírico. Mesmo assim impuseram nova derrota aos franceses na "petit finale", dias depois, chutando a França para o quarto lugar.
Se a juventude gramava tristeza naquele domingo à tarde, os coroas estavam felizes caminhando alvoroçados à entrada do monumental o "Palais de Congrès" para assistir um espetáculo de seu grande ídolo. Tem 83 anos e há fortes indicações que este seja seu "Adieu". Comenta-se que desta vez ele se despede dos palcos para sempre. Seu nome é uma instituição na música francesa: Charles Aznavour.
Nas festas dos casamentos que se realizam no Brasil há um momento em que o disc jockey se prepara para encher a pista de romantismo ao colocar a gravação de Aznavour de sua composição "The old fashioned way", o fox trot suavemente dançante, na versão que ele gravou em inglês. Nem bem a música começa o efeito, é fatal. Todo mundo é tomado por um impulso de dançar com a mulher amada e, de preferência, "cheek to cheek". Nesse caso, "joue contre joue".
Nessa tarde, a platéia de 3.423 lugares do Palais estava literalmente ocupada por um publico acima dos 45 anos, ávido em assistir seu grande ídolo, quase certamente o último dos "Grandes" depois da morte de Frank Sinatra, com quem aliás ele gravou varias vezes. Acreditem, Aznavour está em plena forma física e vocal, com seu timbre ligeiramente arranhado e a dose de vibrato que é uma marca.
O baixinho de 1,60 entra antes da orquestra atacar o primeiro número, vestido de negro dos pés ao pescoço, caminha elegantemente – sem desfilar – para o centro do grande palco, seu habitat de trabalho, onde comanda um espetáculo impecável recheado das canções que todos ali conhecem quase de cor. Descreve a origem de cada uma com a autoridade de autor e a intimidade de um pai, cantando-as sem esforço, incitado pelo impressionante domínio com que desempenha a arte que teceu ao longo de sua vida.
Além de "Aznavoice", como é apelidado, também pode ser Monsieur Charm. Com marcante naturalidade, Aznavour é um mestre no palco. Seus gestos são envolventes, usa o tempo e o espaço com tanta pertinência que, se quisesse, poderia prescindir do texto poético e ainda estaria dando uma aula de interpretação vocal. Para acompanhar a expressão de suas mãos valeria uma câmera cinematográfica exclusiva, captando uma hipotética lição destinada a cantores aprendizes e diplomados.
No momento certo, recua até a coxia e retorna dançando consigo mesmo, envolvendo-se com o braço esquerdo pelo ombro direito enquanto esconde o microfone com o outro braço para interpretar em francês o célebre fox em francês, "Les plaisirs démodés", que conquistou o mundo deixando a platéia emocionada. Aznavour é impressionante como autor, é absoluto como cantor: "Viens découvrons toi et moi / les plaisirs démodés / Ton coeur contre mon coeur / malgré les rythmes fous / Je veux sentir mon corps / par ton corps épousé / Dansons joue contre joue ……". Canta ainda La Boheme, Mourir d'amour, Qui, etc. O público aplaude como quem recebe uma dádiva. E é mesmo uma dádiva ver e ouvir Aznavour que some na coxia depois de receber bouquets de flores aos montes, saindo de uma vez após dois bis.
Possivelmente seja a derradeira chance. Pelo menos até o dia 10 de novembro, o último chansonier canta em Paris. Quem se habilita ? À moda antiga ! Como indica o Guia Michelin para atrações excepcionais: il vaut le voyage.