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Clóvis Marques

A felicidade ordinária da Osesp

Prezados leitores, o Opinião e Notícia encerrará suas atividades em 31/12/2019.
Agradecemos a todos pela audiência durante os quinze anos de atuação do site.

Juntos, o escárnio desesperado de Chostakovich diante da morte, na Sinfonia nº 14, e a inocência solar da Italiana de Mendelssohn são uma bela idéia de programação de concerto. Ela adquire dimensão especial com a Sinfônica de São Paulo e dois cantores de exceção, Tatiana Pavlovskaya e Serguei Leiferkus, solando na acústica ampla e lustrosa da Sala São Paulo. É a 'usina' Osesp em mais uma noite de esplendor sinfônico ordinário.

John Neschling por João Musa

Nunca será demais saudar essa 'banalizacão', no quotidiano da maior cidade brasileira, de um organismo cultural de serviço público com o grau de excelência que vai sendo conquistado, sempre mais, pelo sonho de John Neschling. O que primeiro chama a atenção é o estar-em-casa de um público numeroso desfrutando quase distraidamente de um luxo que deixou de ser um luxo. Um visitante carioca comenta: mas eu esperava um público mais chique… Justamente, a boa música entrou nos hábitos.

A USINA _ Quem fala de usina é o próprio Neschling, justificadamente orgulhoso da proliferação das atividades: além dos 140 concertos por ano, das constantes turnês nacionais e internacionais e dos convidados de prestígio, é de formação e capilarização musicais que estamos falando. A Osesp acolhe e cultiva crianças, adolescentes e mestres, inaugurou uma Academia para formar futuros profissionais de orquestra, edita partituras de compositores brasileiros do passado e do presente, grava o grande repertório brasileiro (todos os Choros e Bachianas de Villa-Lobos, as Sinfonias de Camargo Guarnieri e Claudio Santoro, discos de Mignone e Braga…) mas também Beethoven, Schumann, Liszt ou Tchaikovsky.

Vai, em dezembro, reunir-se durante três dias com dezoito outras sinfônicas do país, administradores, regentes e músicos, num seminário para explorar os caminhos e descaminhos dessa atividade bizarra e necessária: investir, num país cheio de problemas, numa arte requintada (e por isto mal compreendida ou até mal-vista) que eleva o espírito e amaina a brutalidade ambiente. A Osesp cresceu muito nesses nove anos. O número de concertos da temporada na magnífica Sala São Paulo aumentou em 2006 para três por semana, e deverá subir para quatro em alguns casos em 2008. São 140 músicos, quatro coros, mais de 300 pessoas trabalhando na Fundação Osesp, desde o ano passado reconhecida como organização social pelo governo do estado de São Paulo, que desembolsa 43 dos 54 milhões de reais hoje necessários ao conjunto e a sua casa: perto de metade do orçamento da Sinfônica de Chicago, mais provavelmente que o de qualquer outra congênere na América Latina. Aumentando em valores absolutos, a proporção do investimento do estado diminuiu com a possibilidade de captar recursos privados, gerada pelo estatuto de organização social, que também permitiu a consolidação da situação dos músicos e empregados.

O SOM 'IN PROGRESS' _ O casamento de uma orquestra com seu maestro rende frutos a longo prazo. Embora a nova Osesp já esteja para completar uma década, Neschling sabe que sempre haverá caminhos a percorrer em matéria de homogeneidade, virtuosismo e maleabilidade. É um trabalho de construção no tempo. A orquestra cresce acusticamente, tecnicamente, culturalmente, no convívio do dia a dia, dos ensaios, discos e turnês, no desenvolvimento de uma intimidade musical, de uma linguagem, diz ele, em seu gabinete. No concerto da última sexta-feira 11, a Osesp era regida pelo isralense Yoram David, que não imprimiu carisma ou relevo particulares à Sinfonia de Mendelssohn, trabalhada no entanto em todas as camadas e nuances com uma orquestra que responde com plasticidade coletiva e brilho individual em cada naipe. Mas o Chostakovich foi outra história. É uma música agressivamente sofrida, sinfonia atípica em que onze poemas de Appolinaire, Rilke, Lorca e Küchelbecker transmitem uma visão brutalmente pessimista do tema da morte. Dois cantores, cordas, percussão leve e uma desolação sem saída, banhada na violência não raro cruel de uma espécie de missa negra da descrença.

Em música tão árdua, combinando a nudez da expressão a uma linguagem com freqüência serial que não costumamos associar a Chostakovich, é a força de convicção no sofrimento que primeiro ressalta. É preciso estar ali, presente, e querer mergulhar fundo na dor para ir a algum lugar. Meia dúzia de membros do público se retiram, apesar (ou por causa) da carga de energia densa no ar, com um Leiferkus que já é um valor quase histórico no canto russo, mas sobretudo uma Tatiana Pavlovskaya que parece ter nascido _ em 1969, ano de estréia da sinfonia _ para cantar essa música, Loreley raivosa, incestuosa e dolorosa de timbre quente, metal forte e expressão dilacerante. A execução de uma obra dessa dificuldade e grandeza, como de tantas outras, fala do aporte que John Neschling, programador de concertos, oferece a São Paulo _ e a diversidade e abrangência do repertório da orquestra, ano após ano, não tem equivalente na história da música de concerto no país. O Brasil entrou na modernidade sinfônica com a nova Osesp, a primeira orquestra brasileira de padrão mundial na era de massa.

Essa realidade feliz, que se tornou 'ordinária', quotidiana, tem sido atropelada, sobretudo na imprensa paulista, pelas confusões e trocas de acusações em torno do Concurso Internacional de Piano Villa-Lobos, a que a Osesp dá início neste dia 14. Quaisquer que sejam as cabalas ou disfunções envolvidas no 'escândalo', seria uma pena que a árvore ocultasse a floresta.

Veja aqui a programação completa no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Fontes:
O Estado de S. Paulo - Notas sobre o futuro da música clássica

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

3 Opiniões

  1. Markut disse:

    Seria uma pena que uma questão de egos inflados empane um empreendimento de tal importância e magnitude para a cidade.

  2. Arnaldo Moleiro disse:

    Em verdade, me admirava desde há muito que uma orquesra de altissimo significado como a OSESP existisse para nosso deleite, tendo-se em consideração a pequenez das “autoridades”que se que se colocam como diretores da mesma! Ora, esses Snrs. não têm o menor sentimento e conhecimento do que representa a música dos grandes Mestres! Para mim,está acontecendo o óbvio: “OS SEMELHANTES SE ATRAEM” e seres que se comprazem com ruidos e esgares não poderiam abraçar, assimilando algo que do céu advem em direção daqueles que se comprazem com algo divinal! Que pena!

  3. emmanuele baldini disse:

    Obrigado…

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Clóvis Marques

A felicidade ordinária da Osesp

Prezados leitores, o Opinião e Notícia encerrará suas atividades em 31/12/2019.
Agradecemos a todos pela audiência durante os quinze anos de atuação do site.

Juntos, o escárnio desesperado de Chostakovich diante da morte, na Sinfonia nº 14, e a inocência solar da Italiana de Mendelssohn são uma bela idéia de programação de concerto. Ela adquire dimensão especial com a Sinfônica de São Paulo e dois cantores de exceção, Tatiana Pavlovskaya e Serguei Leiferkus, solando na acústica ampla e lustrosa da Sala São Paulo. É a 'usina' Osesp em mais uma noite de esplendor sinfônico ordinário.

Nunca será demais saudar essa 'banalizacão', no quotidiano da maior cidade brasileira, de um organismo cultural de serviço público com o grau de excelência que vai sendo conquistado, sempre mais, pelo sonho de John Neschling. O que primeiro chama a atenção é o estar-em-casa de um público numeroso desfrutando quase distraidamente de um luxo que deixou de ser um luxo. Um visitante carioca comenta: mas eu esperava um público mais chique… Justamente, a boa música entrou nos hábitos.
A USINA _ Quem fala de usina é o próprio Neschling, justificadamente orgulhoso da proliferação das atividades: além dos 140 concertos por ano, das constantes turnês nacionais e internacionais e dos convidados de prestígio, é de formação e capilarização musicais que estamos falando. A Osesp acolhe e cultiva crianças, adolescentes e mestres, inaugurou uma Academia para formar futuros profissionais de orquestra, edita partituras de compositores brasileiros do passado e do presente, grava o grande repertório brasileiro (todos os Choros e Bachianas de Villa-Lobos, as Sinfonias de Camargo Guarnieri e Claudio Santoro, discos de Mignone e Braga…) mas também Beethoven, Schumann, Liszt ou Tchaikovsky.

Vai, em dezembro, reunir-se durante três dias com dezoito outras sinfônicas do país, administradores, regentes e músicos, num seminário para explorar os caminhos e descaminhos dessa atividade bizarra e necessária: investir, num país cheio de problemas, numa arte requintada (e por isto mal compreendida ou até mal-vista) que eleva o espírito e amaina a brutalidade ambiente.

A Osesp cresceu muito nesses nove anos. O número de concertos da temporada na magnífica Sala São Paulo aumentou em 2006 para três por semana, e deverá subir para quatro em alguns casos em 2008. São 140 músicos, quatro coros, mais de 300 pessoas trabalhando na Fundação Osesp, desde o ano passado reconhecida como organização social pelo governo do estado de São Paulo, que desembolsa 43 dos 54 milhões de reais hoje necessários ao conjunto e a sua casa: perto de metade do orçamento da Sinfônica de Chicago, mais provavelmente que o de qualquer outra congênere na América Latina.

Aumentando em valores absolutos, a proporção do investimento do estado diminuiu com a possibilidade de captar recursos privados, gerada pelo estatuto de organização social, que também permitiu a consolidação da situação dos músicos e empregados.

O SOM 'IN PROGRESS' _ O casamento de uma orquestra com seu maestro rende frutos a longo prazo. Embora a nova Osesp já esteja para completar uma década, Neschling sabe que sempre haverá caminhos a percorrer em matéria de homogeneidade, virtuosismo e maleabilidade. É um trabalho de construção no tempo. A orquestra cresce acusticamente, tecnicamente, culturalmente, no convívio do dia a dia, dos ensaios, discos e turnês, no desenvolvimento de uma intimidade musical, de uma linguagem, diz ele, em seu gabinete.

No concerto da última sexta-feira 11, a Osesp era regida pelo isralense Yoram David, que não imprimiu carisma ou relevo particulares à Sinfonia de Mendelssohn, trabalhada no entanto em todas as camadas e nuances com uma orquestra que responde com plasticidade coletiva e brilho individual em cada naipe.

Mas o Chostakovich foi outra história. É uma música agressivamente sofrida, sinfonia atípica em que onze poemas de Appolinaire, Rilke, Lorca e Küchelbecker transmitem uma visão brutalmente pessimista do tema da morte. Dois cantores, cordas, percussão leve e uma desolação sem saída, banhada na violência não raro cruel de uma espécie de missa negra da descrença.

Em música tão árdua, combinando a nudez da expressão a uma linguagem com freqüência serial que não costumamos associar a Chostakovich, é a força de convicção no sofrimento que primeiro ressalta. É preciso estar ali, presente, e querer mergulhar fundo na dor para ir a algum lugar. Meia dúzia de membros do público se retiram, apesar (ou por causa) da carga de energia densa no ar, com um Leiferkus que já é um valor quase histórico no canto russo, mas sobretudo uma Tatiana Pavlovskaya que parece ter nascido _ em 1969, ano de estréia da sinfonia _ para cantar essa música, Loreley raivosa, incestuosa e dolorosa de timbre quente, metal forte e expressão dilacerante.

A execução de uma obra dessa dificuldade e grandeza, como de tantas outras, fala do aporte que John Neschling, programador de concertos, oferece a São Paulo _ e a diversidade e abrangência do repertório da orquestra, ano após ano, não tem equivalente na história da música de concerto no país. O Brasil entrou na modernidade sinfônica com a nova Osesp, a primeira orquestra brasileira de padrão mundial na era de massa.

Essa realidade feliz, que se tornou 'ordinária', quotidiana, tem sido atropelada, sobretudo na imprensa paulista, pelas confusões e trocas de acusações em torno do Concurso Internacional de Piano Villa-Lobos, a que a Osesp dá início neste dia 14. Quaisquer que sejam as cabalas ou disfunções envolvidas no 'escândalo', seria uma pena que a árvore ocultasse a floresta.

Fontes:
O Estado de S. Paulo - Notas sobre o futuro da música clássica

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