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Silvio Barbato realiza agora em dezembro o sonho de qualquer compositor: reger a orquestra com que trabalha há anos em uma obra que acaba de compor para o teatro que dirige. Será no dia 8 a estréia, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, de sua ópera O Cientista, revivendo poeticamente em dois atos e cinco récitas, até o dia 17, a saga sanitarista de Oswaldo Cruz, cujas campanhas de vacinação cem anos atrás sacudiram o Rio insalubre e mudaram rumos na república.
Barbato, cuja atividade como diretor musical do Municipal do Rio e do Teatro Nacional de Brasília o tem obrigado a deixar um pouco de lado a criação como compositor, parecia outro dia exultante com os ensaios para tornar concreta, no palco, a sua visão. Ele trabalhou com o poeta e libretista Bernardo Vilhena e contará com a encenação de Eduardo Álvares, o eminente tenor brasileiro que há algumas temporadas está à frente da programação artística do teatro carioca.
A revolta das vacinas, como ficou conhecida em 1904 a violenta reação suscitada em setores da população pela obrigatoriedade da vacinação contra varíola, febre amarela e peste bubônica, é, naturalmente, um episódio conhecido e marcante da vida brasileira. Barbato e Vilhena se apoderaram desse marco do nosso imaginário histórico com idéias de abertura e fluidez, despreocupados de montar um 'documentário' da vida de Oswaldo Cruz.
| Silvio Barbato Foto: Ari Gomes |
Mas o maestro não deixa de frisar, na conversa abaixo, certas similitudes com o Rio de Janeiro de hoje. Ele reivindica sobretudo uma filiação à linguagem tradicional da ópera. E Eduardo Álvares comenta: Oswaldo Cruz aparece na ópera como homem de família, como homem mundano e como cientista, que se imola por seu ideal. Vamos falar de amor bandido – não existe ópera sem conflito amoroso. E queremos mostrar a participação fundamental de Oswaldo Cruz na saúde pública brasileira sem montar hipóteses sobre o contexto social da época.
- O senhor deve ter aprendido muita coisa sobre o Brasil ao compor esta ópera…
Silvio Barbato: A ação de Oswaldo Cruz e as conseqüências que teve foram um episódio muito significativo para o Rio de Janeiro. Ele saneou a cidade ao mesmo tempo em que acontecia a reforma promovida pelo prefeito Pereira Passos, com a construção da Avenida Central e do Theatro Municipal, entre outros marcos do nosso urbanismo. Foi um momento decisivo na vida do Rio, e ao mesmo tempo, quando hoje abrimos o jornal, cem anos depois, vemos que a cidade está precisando de um outro tipo de saneamento. Não é possível ler os jornais e ficar insensível ao que está acontecendo, à violência, sem liga-la ao que aconteceu há cem anos, e sentimos um pouco falta de homens como Oswaldo Cruz. Por causa disso, a ópera é muito atual em seu discurso. Sabemos por exemplo que o principal foco de resistência à ação de Oswaldo Cruz estava no morro da Providência, no centro.
– Qual a impressão ou o perfil que lhe ficou de Oswaldo Cruz como homem?
S.B.: O de um grande referencial científico, o cientista número um do Brasil, numa época em que se poderia considerar que o país estava na vanguarda da ciência. Homens como ele e Carlos Chagas, seu contemporâneo, inseriram o Brasil no contexto internacional, tinham acesso a meios de pesquisa. Hoje a obra dele continua, considerando-se a importância que a Fundação Oswaldo Cruz tem no panorama científico internacional. Sem Oswaldo Cruz, a ciência no Brasil seria impensável.
Como figura humana, me chama mais a atenção o aspecto do cientista que, como o artista, tem um trabalho solitário, sentindo saudades da mulher, enquanto ela sente também a sua ausência. E talvez, sobretudo, o fato de ter sido um homem que queria mudar um pouco o mundo. Oswaldo Cruz morreu aos 44 anos como prefeito de Petrópolis, e já estava impaciente para voltar a usar a criatividade que tinha para transformar as coisas. Foi um grande transformador, um homem que nasceu com o DNA da transformação.
- Como foi sua colaboração com Bernardo Vilhena, o libretista?
S.B.: Trabalhamos com muita liberdade. Bernardo me forneceu um texto muito sólido, para que eu pudesse usar nas formas da ópera tradicional. Neste sentido, pude sempre contar com a colaboração dele quando precisava versos mais metrificados nas árias ou versos mais livres nos recitativos. Sem essa disponibilidade, sem essa possibilidade de adaptação do poeta à métrica da forma operística tradicional, não teria sido possível fazer uma ópera no sentido real da palavra. Seria um espetáculo cantado. O uso dessas formas métricas tradicionais, abertas, fechadas, com metrificação específica, é que faz a ópera existir. É um gênero muito específico, não se pode abrir mão da grande tradição formal.
- Na construção dramatúrgica, vocês evitaram um encaminhamento cronológico…
S.B.: Desde o início a gente quis que as cenas começassem de uma forma muito interrogativa, e que no final ainda permanecessem essas interrogações. Algo no espírito de uma obra aberta, com uma fabulação começando aberta e permanecendo em suspensão. Foi uma forma de privilegiar a abstração para evitar que se fizesse um documentário sobre a vida de Oswaldo Cruz. Uma forma de empurrar a linguagem no sentido da abstração. E também de determinar através da música e da versificação a reflexão sobre os assuntos que fomos levantando. Não estávamos preocupados em dar respostas.
- Que tipo de linguagem musical vamos ouvir em O Cientista?
S.B.: Usei o mesmo pensamento do Cláudio Santoro nas últimas obras: ele dizia para eu procurar a música dentro de mim mesmo. É o que eu faço. Baseado nas técnicas de contraponto, de harmonia, eu uso as formas tradicionais da ópera e a liberdade de expressar que tenho dentro de mim. O Cientista contém todas essas formas da tradição operística que vem desde o século XVIII, mas especialmente as da tradição italiana, que é a nossa, como em Carlos Gomes e outros grandes compositores do fim do século XIX. Contém duetos, trios, árias da capo, cabalettas, recitativos, cantabiles, tempo di mezzo – a passagem entre duas árias que configura uma modificação da situação dramatúrgica. Eu diria também que O Cientista é uma ópera pan-tonal, usando sobreposições de tonalidades. Numa das passagens, a valsa, uso inclusive uma tonalidade bem clara, ré bemol maior, que é uma tonalidade favorita minha.
- Como pensou na distribuição dos tipos vocais?
- Na verdade, trabalhando esses anos todos, me identifiquei com algumas vozes que considero das melhores do Brasil. Para mim, o Sebastião Teixeira é o barítono mais importante do Brasil, o que fez com que eu escrevesse a ópera para ele. A mulher de Oswaldo Cruz, Emília, é vivida pela Claudia Riccitelli, que é um soprano lírico maravilhoso. Temos depois a Luciana Bueno, uma das mezzos mais belas, com recursos vocais mais bonitos. E o Lício Bruno, que além de ser um amigo querido é um baixo-barítono excepcional, fazendo um personagem paterno, o presidente Rodrigues Alves, que decide que o projeto de Oswaldo Cruz tem de ser levado adiante. E ainda o amigo, o tenor Marcos Lizemberg, completando o apanhado das tessituras vocais típicas da ópera tradicional.
- Fale um pouco de sua atividade como compositor.
S.B.: Minha formação é como compositor. Fui aluno do Cláudio Santoro, devo a ele toda a minha formação em contraponto e harmonia. Depois, obtive diplomas de composição no Conservatório Verdi de Milão e na Academia de Siena. O contato com Santoro desde os 17 anos, convivendo com ele durante 12 anos, é fundamental na minha formação, como intérprete e como compositor. O Santoro estreava minhas músicas com a Orquestra de Brasília, até hoje tenho algumas dessas gravações, de que me orgulho. Mas a carreira como regente acabou ficando mais importante, e agora volto à minha casa, que é a composição. Recentemente, apresentei no Teatro Bellini de Catânia meu balé Terra Brasilis, em dois atos. Foram nove noites de felicidade em Catânia. Repetir agora uma experiência como esta no Theatro Municipal do Rio é um sonho.
- Deve ser uma enorme alegria ver tomar forma concreta aos poucos e subir ao palco uma criação musical e vocal desse porte…
S.B.: A maior alegria é poder ter escrito para a minha orquestra, a Orquestra do Teatro Municipal. Pensei neles ao compor, nos solistas, no som, no fraseado dessa orquestra. Eu também tinha um sonho de escrever grandes coros, e criei algumas peças corais importantes em O Cientista. Pensei basicamente nas forças artísticas do Teatro Municipal, a ópera foi escrita para elas. Na verdade, acho que recupero também, assim, um hábito dos compositores dos séculos XVIII e XIX, que escreviam para teatros específicos. É mais um sinal da minha ligação profunda com o mundo da ópera.
Veja aqui a programação completa da semana no Rio e em São Paulo.