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Existem destinos e circunstâncias que mudam a história. A convergência da morte de Eleazar de Carvalho em 1996 com a vontade do governo de São Paulo de reviver a então abandonada Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) e a ambição de John Neschling de dotar o Brasil de um organismo sinfônico de categoria internacional já está gravada para sempre nos nossos ouvidos e espíritos agradecidos.

Pois agora Neschling relata num livro disfarçado de autobiografia – Música mundana (Rocco, 190 páginas) – esta grande aventura que há 15 anos talvez parecesse impossível, mas hoje é tão real e indispensável que não poderia deixar de ter acontecido, considerando-se a pujança e a inventividade de São Paulo em tantas frentes. Por que não a da música sinfônica?
A aventura da refundação da Osesp está no centro de Música mundana, e é natural que assim seja, embora a divulgação do livro e certas repercussões na imprensa pareçam querer desviar a atenção desse foco, como se se tratasse de um livro de memórias que “entre outras coisas” trata do tema. É como se ninguém quisesse mais falar da acidentada saída de Neschling da Osesp, em janeiro deste ano.
Claro que é bom ser lembrado de outros momentos da trajetória e da vivência de John Neschling: sua formação no Rio e em Viena, entre outras cidades, as incursões pelo Teatro Municipal do Rio e o de São Paulo, as passagens profissionais por Viena, Lisboa ou Bordeaux, a Itália e a Suíça, os aprendizados de um rapaz de origem judaica criado para se adaptar ao mundo cristão, as coisas que décadas de estudo e trabalho sussurraram em seu ouvido sobre a gestão de uma orquestra, o fazer musical, a psicologia dos músicos e dos políticos…
Mas é evidente que o livro foi escrito para deixar à posteridade – e sem demora – a versão de Neschling sobre a reconstrução da Osesp, uma ímpar história de sucesso e vontade de ser feliz na música de concerto no Brasil; e também sobre a maneira desgraciosa, digamos, como terminou o casamento do criador com a criatura – sobre a qual se lançaram, como não podia deixar de ser, os olhares cobiçosos dos políticos.
Neschling está hoje empenhado num projeto ambicioso de ópera itinerante com apoio do governo federal, mas não quer falar do assunto, embora algumas informações já tenham vazado na imprensa paulista. A seguir, suas respostas sucintas às perguntas que lhe fiz mostram que o maestro já deixou mesmo para trás o capítulo mais glorioso de sua história profissional.
Seu nome ficará indelevelmente associado à criação no Brasil de uma orquestra sinfônica de categoria internacional pela primeira vez. Isto compensa a tristeza das incompreensões que precipitaram seu afastamento?
John Neschling: Não acho que uma coisa tenha a ver com a outra. Uma coisa é a tranquilidade do dever cumprido e a consciência da importância do meu trabalho. Outra é a mágoa, que vai ficando mais distante, mas que na verdade nunca passará.
A maneira como se deu o afastamento indica – como dá a entender no livro – que a interferência política persiste como problema, apesar do salto qualitativo de modernização e independência artística da refundação da Osesp? Como se deu ou se dá essa interferência?
J. N.: A fritura é uma prática provada na política brasileira. As interferências são formas de desestabilizar o trabalho e a segurança de um indivíduo que quer trabalhar com calma. São boatos, tentativas de estabelecer parâmetros artísticos inaceitáveis, ensaios de cortes de verba, etc…
Você identifica atualmente mudanças na condução da Osesp, em termos de filosofia de gestão e programação?
J. N.: Inúmeras mudanças de fundo e de forma. Qualquer ouvinte ou espectador nota isso, tanto na política de preços quanto na forma de administração artística e na programação.
Que pensa da aparentemente pretendida separação entre as funções de direção artística e regência? Quais as vantagens de ter as duas funções exercidas pelo maestro principal? Ou as possíveis vantagens da separação?
J. N.: Há uma visão “moderna”, sobretudo americana (de onde vem um dos consultores – Henry Vogel), de que é necessário separar as funções e sobretudo valorizar excessivamente a direção executiva. Não vejo nenhuma vantagem nisso, ao contrário, percebo que isso é programar conflitos inevitáveis. Mas um burocratês que fala em “novos modelos de gestão”, “democratização do poder” (!!!), “curva de aprendizado” e outros termos que tais acaba por administrar um orquestra como se fosse uma fábrica de pregos ou uma mercearia.
Que hipóteses imagina no processo de escolha de um novo regente titular para a Osesp?
J. N.: Sinceramente, não me interessa o caminho que vão trilhar.
Que escolhas da sua gestão (repertório, encomendas a compositores brasileiros, convites a compositores estrangeiros vivos, Academia de instrumentistas da Osesp…) acredita possam vir a ser comprometidas?
J. N.: Teoricamente todas, e na prática o público e os críticos só se darão conta disso com o tempo. Isso se tiverem o interesse de investigar.
Como vão suas atividades musicais? Quais seus planos?
J. N.: Minhas atividades musicais como regente estão se recompondo aos poucos, como era de se esperar após um corte tão abrupto como o que ocorreu no início deste ano. Regi na América do Sul e na Europa durante esse ano e vou me apresentar nesses continentes e na Ásia durante o ano que vem. Além disso, tenho planos ambiciosos no Brasil que serão anunciados assim que estiverem maduros e assegurados. Espero que seja em breve.
Leia na próxima página a programação completa dos concertos da semana no Rio de Janeiro e São Paulo.
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