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Música Clássica

Andrei e András

O russo Andrei Gavrilov e o húngaro András Schiff vêm de planetas psicoestéticos que se estranham. Por Clóvis Marques

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Dois pianistas de peso no cenário internacional há mais de trinta anos tocaram no Teatro Municipal do Rio em dias seguidos, e o contraste foi revigorante. Os nomes são parecidos, as idades, próximas (eles nasceram respectivamente em 1955 e 1953) e até a procedência europeia oriental poderia falar de aproximações. Mas o russo Andrei Gavrilov e o húngaro András Schiff vêm de planetas psicoestéticos que se estranham; e nos conduzem em direções tão diferentes que nem parecem militar na mesma arte.

Figura corpulenta que já entra no palco gesticulando e olhando em todas as direções, Gavrilov ocupa o espaço e toma conta da situação com gana sanguínea, com seus cabelos visivelmente tingidos de um castanho claro levemente avermelhado. Ao chegar, ao se despedir, ele saúda a plateia com beijos e gestos das mãos que parecem abarcar o mundo, e a todo momento fala ao público para contar um pouco da história das peças ou de sua relação com elas. Na série Os Pianistas da OSB, ele deu um programa centrado em música robusta dos compatriotas: o Concerto nº 1 de Prokofiev e sua angulosa Sonata nº 8, mais o ondulante e romântico Concerto nº 2 de Rachmaninov. As duas primeiras obras, por sinal, marcaram nos idos de 1979 sua estreia discográfica na EMI, depois da consagração com o primeiro lugar no Concurso Tchaikovsky de Moscou em 1974.

András Schiff (Fonte: Los Angeles Times)

András Schiff, vejam vocês, ficou em quarto lugar no mesmo concurso. Silhueta pequena e esquiva de professor ou padre, metido numa bata escura, os cabelos grisalhos revoltos contribuindo para dar-lhe uma aparência mais velha, ele avança até o piano em passos curtos, banhado num sorriso subentendido de gênio afável, em que os olhos brilham mais que a arcada dentária. Ofereceu em recital da Dell’Arte um daqueles programas sérios, coerentes e substanciosos formatados à antiga: Beethoven (as Sonatas Ao luar e Waldstein) e Schumann (as Danças dos companheiros de David e a Fantasia em dó maior op. 17). Detalhe: o extra que não podia ter deixado de brotar ante a aclamação intensa mas não ruidosa – contrastando, mais uma vez, com a ovação estrepitosa com que o público reagiu ao colega russo na véspera – foi simplesmente a integral das Cenas infantis do mesmo Schumann, como se o pianista continuasse simplesmente fazendo música para si mesmo em seu estúdio.

Seria fácil dar relevo ao miniescândalo causado pela apresentação às vezes estapafúrdia de Gavrilov – esmurrando o teclado, interferindo violentamente no teor da música -, para louvar a pureza expressiva evidenciada por Schiff. Mas, que diabos, a Sonata nº 8 de Prokofiev, raramente ouvida mas de reputação bem estabelecida no repertório do século XX, é uma peça conflituada, composta durante a Segunda Guerra Mundial (culmina, inclusive, uma “trilogia de guerra”), cheia de contrastes, momentos de brutalidade motorística, marchas e martelatos, muito embora também cante aqui e ali com as melodias inconfundíveis de seu autor e comece em tom lírico – mesmo se num lirismo duro e áspero de modernista.

Fui ouvir de novo a gravação famosa de Lazar Berman – outro grande do piano russo que estreou nos estúdios ocidentais (Deutsche Grammophon, 1975) com essa obra difícil. Se Berman confere mais clareza às linhas e trabalha mais contido a violência instrínseca da música, é verdade que não oferece o arrebatamento interessante pelo qual Gavrilov às vezes paga e nos faz pagar preço alto; e também parece mais anônimo na introdução ascética do atípico primeiro movimento. Aqui, justamente, não terá ficado longe da esfera da proeza a concentrada depuração com que Gavrilov pintou essa paisagem de calma desolação logo ao sentar ao piano, quando sequer se constituíra ainda, na sala, um clima propício para passeios tão rarefeitos.

Se o Concerto nº 1 de Prokofiev, composto na juventude estudiosa, pôde se beneficiar dessa intensidade de todos os momentos, Gavrilov perdeu-se no Concerto nº 2 de Rachmaninov, com rompantes e descontroles expressivos que chegaram a descadeirar a orquestra.

Se o russo concluía um arrebatador movimento final de concerto atirando o braço para trás, o húngaro remata uma sonata ou uma peça característica com a mão levemente suspensa num no man’s land provisório de silêncio e sentir do acontecer musical que se esvai… Foi assim que ele chegou à última peça das Davidsbündlertänze, espécie de sonho branco em ritmo de valsa lenta-quase-parando, que parece um comentário a posteriori das exaltações e estados de ânimo contrastados do coração schumaniano nessa suíte de 1837.

Schiff é um artista fino e recatado que aposta na verdade íntima daquilo que convida o ouvinte a compartilhar. Ele não quer convencer nem muito menos aparecer. Em seu âmbito contido, na elocução simples e mesmo na sonoridade enxuta, eu diria – invocando outra vez o detestável e sagrado direito de comparar – que para o meu gosto falta às vezes derramamento e anseio no seu Schumann, além da palpitação inesquecivelmente conferida a essa peça pelo pianista franco-tunisino Jean-Marc Luisada, em gravação de 1988 (Harmonic Recodrs) que é, de longe, a minha favorita.

Em Beethoven, em contrapartida, a conversa calma e direta de Schiff paga dividendos notáveis: respiração e oscilações naturais e pausas internas que nos falam como que de longe, como se ouvíssemos “uma música do tempo de Beethoven”… O famoso Adagio sostenuto inicial que é a exaltação “ao luar” da Sonata op. 27 nº 2 foi acaso seu único gesto de ousadia em todo o recital, envolvendo os arpejos sonhadores numa bruma que, sustentada no pedal una corda, parecia fazer-nos ouvir um coral de Bach.

Se me perguntarem qual companhia eu prefiro, direi que é a de Schiff: seriedade, profundidade, serenidade, intensidade sem ostentação. Mas foi bom conhecer a generosidade larger than life de Gavrilov.

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2 Opiniões

  1. helo, Rio de janeiro disse:

    Na política também prefiro o estilo Schiff.

  2. Ricardo Almeida disse:

    Caro Clóvis,
    O Gavrilov é mesmo um vulcão (em erupção). Sentei bem na frente e nunca vi o palco tremer tanto. O homem martelou o piano sem piedade e desfigurou a música. O engraçado é que quando vinha algum ruído da plateia ele fazia cara de contrariado. E como deu bis! Alguém soprou, no final do terceiro bis: “vai para casa”. Enfim… Uma experiência única, não necessariamente boa.
    Grande abraço,
    Ricardo

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