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Música Clássica

As Sinfonias de Villa-Lobos

Veja nossa coluna semanal de Música Clássica com Clóvis Marques

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Isaac Karabtchevsky

Isaac Karabtchevsky

A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) anunciou uma gravação das onze Sinfonias deixadas por Heitor Villa-Lobos, sob a batuta de Isaac Karabtchevsky. Será uma realização importante por vários motivos, entre eles a possibilidade de um trabalho editorial que consolide a clareza e praticabilidade das partituras.

Como lembra na entrevista abaixo o maestro Karabtchevsky, as doze Sinfonias compostas por Villa-Lobos entre 1916 e 1957 (uma das quais, a quinta, se perdeu numa de suas viagens, assim como os Choros 13 e 14) ficaram em muitos casos sem o último grau de acabamento nos manuscritos, o que pode tornar problemática a execução.

Entre o fim dos anos 90 e o início deste século, o maestro americano Carl St. Clair gravou uma integral das Sinfonias de Villa para o selo alemão CPO, com a Orquestra Sinfônica da Rádio de Stuttgart. Em entrevista que então publiquei no Jornal do Brasil, ele também falava do problema: “As partes estavam cheias de erros”, explicava St. Clair. “Creio que Villa-Lobos não teve oportunidade de ouvir cada sinfonia e fazer pequenos ajustes. Se tivesse podido ouvi-las e regê-las muitas vezes, elas talvez fossem hoje diferentes.”

As Sinfonias sempre foram uma espécie de patinho feio na obra orquestral de Villa-Lobos. Roberto Duarte, o regente brasileiro que mais tem investigado e gravado a música sinfônica de Villa, também se pronunciava anos atrás sobre a questão. Ele ponderava na mesma reportagem do JB que as características de brasilidade das Bachianas e dos Choros, para não falar de poemas sinfônicos como Amazonas e suítes como a do Descobrimento do Brasil, falam mais diretamente ao público: “Nas sinfonias, a linguagem é mais universalista. Concordo que às vezes ele é prolixo, como Mahler ou Bruckner, e pode perder a direção. Mas há coisas geniais nesta perda de direção”, ponderava Duarte, no contexto de um debate sobre a forma nas Sinfonias do mestre brasileiro.

Nesse debate, além de Duarte e St. Clair, eu ouvira a maestrina uruguaia Giselle Ben-Dor, que acabava de gravar a Sinfonia nº 10 com a Sinfônica de Santa Barbara e se mostrava a mais exaltada na defesa das Sinfonias de Villa frente às críticas de heterodoxia formal: “Também Dvorak ou Tchaikovsky sofreram esse tipo de crítica: se a música não respeitar padrões germânicos, não é boa. Mas eles sabiam estruturar uma sinfonia e optavam por um tipo de estrutura que tinha a ver com suas próprias ideias musicais.”

Karabtchevsky e a Osesp iniciarão em 2011 as gravações para os selos BIS e Biscoito Fino, que até 2016 lançarão um CD por ano com versões revistas e editadas das obras, aos cuidados do Centro de Documentação Musical da Osesp. Começaremos com as Sinfonias nº 3 (A Guerra) e nº 4 (A Vitória). Este mês, a BIS sueca lança no mercado internacional a gravação da Floresta do Amazonas feita pela Osesp em julho de 2007 na Sala São Paulo. A discografia da Osesp já conta, como sabemos, com as integrais dos Choros e das Bachianas.

A seguir, Isaac Karabtchevsky fala a Opinião e Notícia sobre o projeto.

– Em sua longa experiência da obra de Villa-Lobos, como diria que as Sinfonias se destacam dos outros ciclos ou obras orquestrais importantes?
Isaac Karabtchevsky: Foi no contato com os debates estéticos que ocorreram na transformação do Império na República que o jovem Heitor Villa-Lobos se formou. Integrante da geração que se seguiu a Miguéz e Nepomuceno, Villa-Lobos compreenderia as diferentes estéticas musicais de acordo com o panorama traçado por seus antecessores: a “antiguidade” e a “nobreza” da ópera italiana; a “modernidade” de Wagner e Saint-Saëns ou a estética “revolucionária” de Claude Debussy. Assim, diferentemente de Nepomuceno, que buscava a pureza da forma de sonata, Villa-Lobos trilhava uma estética que, mesmo apoiada nesta forma, traçava outros rumos – eles provinham do impressionismo francês, da palheta orquestral de Ravel e de um grupo de compositores que iriam moldar suas primeiras sinfonias, Vincent d’Indy e Saint-Saëns, entre outros. As primeiras sinfonias de Villa-Lobos são uma incursão no território da grande música e apenas o preâmbulo para as formas que surgiriam posteriormente, principalmente aquelas que utilizariam o folclore como ponto de partida, elemento indispensável à sua fantasia e criatividade. Essas obras, como as Bachianas brasileiras e os Choros, mereceram sempre maior atenção dos intérpretes e passaram por amplo trabalho de revisão e burilamento. Não foi o que aconteceu com as sinfonias, infelizmente.

– Quais as Sinfonias que já regeu, e com quais orquestras?
I. K.: Exatamente pela falta de um trabalho mais completo na correção dos manuscritos, excetuando o recentemente realizado nas sinfonias 3, 4, 6 e 7 pela Osesp, abstive-me de regê-las. Quando fui convidado pela orquestra para gravar todas as onze sinfonias até 2016, conversamos, Arthur Nestrovsky (diretor musical da Osesp) e eu, sobre a empreitada que adviria de um estudo meticuloso dos manuscritos a ser desenvolvido por uma equipe de musicólogos. Seria esse o passo definitivo para tornar as sinfonias acessíveis a todas as orquestras do mundo, sem as aberrações que estamos acostumados a ouvir.

– Diria, como certos observadores, que nas Sinfonias Villa-Lobos se afasta dos cânones de estrutura e forma habituais nesse gênero?
I. K.: Villa-Lobos foi o primeiro compositor brasileiro a entrar de corpo e alma no modernismo. Sua preocupação era abordar o inédito, aquilo que julgava não desbravado dentro da estética de seu tempo. Tarefa árdua, principalmente quando se sabe que todos os mestres do princípio do século XX buscavam um caminho que os diferenciasse de Wagner e de toda a revolução decorrente da Tetralogia, do cromatismo – este, a apenas a um passo da atonalidade. A linguagem de Villa-Lobos buscava, no decorrer das sinfonias, uma identidade que seria o caminho entre o nacional e o universal.

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4 Opiniões

  1. Dorival Silva disse:

    Muito importante essa gravação das sinfonias de Heitor Villa-Lobos, e muito importante o O&N nos trazer essa entrevista com o maestro Isaac Karabtchevsky.

  2. Nueli Medeiros disse:

    Boa tarde.
    Excelente matéria.
    Gostaria de fazer uma sugestão: Poderia colocar uma música clássica (claro), sempre que abrirmos a sua página, nos deleitaremos um pouco mais, que tal?
    Obrigada.

  3. Antenor Correa disse:

    sou fã ardoroso de Vill Lobos, mas desinformado.

    Esse projeto foi desenvolvido?

  4. Leonardo Villela disse:

    Adoraria poder começar e terminar a ouvir uma sinfonia do Villa-Lobos. Tenho a impressão que, definitivamente, Villa-Lobos nao era um “sinfonista” por excelencia, apesar de toda a sua indiscutivel genialidade de compositor, principalmente no que tange ao seu vasto e magnifico repertório de musica de câmara.
    Talves, diriam os “entendidos” para mim : – Voce ainda nao esta a’ altura da profundidade sinfônica do Grande Villa!  Nao descarto essa possibilidade.  Mas como esta demorando chegar essa maturidade…
    Ao ler essa matéria, fiquei um pouco mais aliviado, pois eu nao sabia que o Villa havia deixado as suas sinfonias assim tao “desleixadas”, a ponto de um grande maestro como o Isaac Karabtchevsky se recusar a rege-las sem uma profunda revisão de especializados musicologos. Mas, fica a pergunta : Será que correções de notas e harmonias vao mudar a essência das obras? Claro que nao! O problema e’ que Villa-Lobos ousou demais e se perdeu nas suas ousadias sinfonicas. E nenhum musicologo pode interferir nisso. Muito menos um maestro, cuja função e’ expressar o que o compositor escreveu. Se o maestro Isaac diz que existem aberrações, ou ele aceita e rege essas aberrações ou então decide nao rege-las. Alias, e’ melhor mesmo que nao as reja…

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