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Clóvis Marques

Diana Kacso: o retorno

Quem viu e ouviu não esqueceu. Diana Kacso iluminou a vida musical brasileira nos anos 80 como um cometa de trajetória rápida e intensa, e depois sumiu. Mas ela está voltando a se apresentar, com seu pianismo vibrante, depois de uma ausência de duas décadas.

Certas coisas a gente nunca esquece mesmo. Para mim, os "Estudos de execução transcendental" de Liszt estão indelevelmente ligados ao nome e à arte de Diana Kacso: foi num recital seu, em setembro de 1980, que ouvi pela primeira vez na íntegra, ao vivo, esta maravilha da expressão romântica, vazada em técnica pianística de virtuosismo… transcendental, como já diz o nome.

Diana tinha um jeito elétrico, uma intensidade e uma força de comunicação impressionantes. Transcrevo aqui os comentários então publicados por Ronaldo Miranda no 'Jornal do Brasil', em crítica na qual falava da "inteligência musical verdadeiramente superior" da pianista:

"Para tocar os 'Estudos transcendentais' de Liszt não basta apenas uma boa técnica. É necessária – ou melhor, indispensável – a capacidade para extrair toda a música que há dentro (e em volta) do turbilhão de notas e testes de virtuosismo, bem como o dom de criar atmosferas com os elementos expressivos que os textos sugerem. É preciso saber transmitir a cor, o envolvimento e a emoção contida em cada um deles."

Para tocar a série dos 12 Estudos num único recital, deve-se acrescentar à lista de requisitos para o intérprete coragem, autocontrole, preparo físico e nervos bem resistentes. Pois essa proeza é algo que exige uma disposição – atlética e emocional -incomum.

"Diana Kacso, na juventude dos seus 27 anos, possui todos esses requisitos e mostrou, em seu recital de quarta-feira, na Sala Cecília Meireles, que já é capaz dessa empreitada que poucos pianistas podem realizar."

O nível de interesse despertado por Kacso transparecia também na lista de pianistas presentes no recital, conforme arrolava ainda Miranda em sua coluna: Nelson Freire, José Carlos Cocarelli, Heitor Alimonda, Miguel Proença, Salomea Gandelman, Clélia Iruzun. "Uma platéia de astros aplaude a estrela", dizia o título da matéria que encabeçava a crítica, por sua vez intitulada "Diana, intérprete fulgurante de Liszt".

Do silêncio que se seguiu àqueles anos de abertura de caminhos, dos quais fizeram parte uma magnífica gravação da Sonata de Liszt para a Deutsche Grammophon, Diana não fala muito hoje. Foram decisões de vida pessoal, ligadas ao casamento, limita-se ela a indicar em conversa num bar do Rio, dias depois de um recital privado em que se apresentou, na casa de amigos, com seu filho Gabriel Panny, que aos 14 anos desponta como excepcional talento no violoncelo.

Diana apresentou-se neste mês de junho em concertos com a Orquestra Sinfônica de Campinas; tem recitais e concertos agendados para o Rio e São Paulo em agosto e setembro, sozinha e com Gabriel. Em entrevista por e-mail, ela rememora um pouco de sua trajetória:

– Fale um pouco da 'volta': o momento, as circunstâncias, a decisão…

D.K.: Como nunca imaginei que minha paixão pelo violoncelo, o instrumento pelo qual prontamente trocaria o piano na próxima encarnação, me traria de volta para a grande paixão de minha vida anterior, cá estou eu abismada com o que pode haver de imprevisível nos caminhos da vida.

Diana Kacso/Divulgação

Aqui vai, então, uma breve história de como meu amor pelo cello me trouxe de volta para o piano e as salas de concerto. Como sempre achei que a voz do violoncelo me falava como nenhuma outra, sugeri a meu filho Gabriel, então com dez anos, que começasse a estudar o instrumento. Gabriel atacou pela primeira vez as cordas de um cello há quatro anos e meio, usando um instrumento alugado, e em questão de duas semanas estava evidente para todo mundo que nascera para tocar violoncelo, que se transformou na maior paixão de sua vida. Caso estejam se perguntando o que isto pode ter a ver com minha volta ao circuito profissional de concertos, posso garantir-lhes que, na medida em que exista alguma certeza na vida, se Gabriel nunca tivesse tocado um violoncelo eu não estaria aqui dando esta entrevista. Foi quando Gabriel começou a procurar um instrumento melhor, no ano passado, que conheci Henrique Autran Dourado, contrabaixista e educador 'par excellence', músico incrível e autêntico 'Mensch'. Henrique é, não tenho a menor dúvida, a motivação, a energia e a razão do meu retorno à carreira de concertista. Posso afirmar sem hesitação que, não fossem as forças do destino e a 'alma de um cello' que me aproximaram de Henrique, eu não estaria voltando a tocar profissionalmente nesta vida… Talvez na próxima, como violoncelista!

– E as contingências que a levaram a interromper a carreira de concertista?

D.K.: Foi mesmo uma longa interrupção. Minha última apresentação pública num concerto no Brasil havia sido em Campos do Jordão em 1986, e, no resto deste vasto mundo, em Savannah, Geórgia, EUA, em 1992.Os motivos deste 'longo descanso' podem ser encontrados numa extensa lista de fatos e fatores, que no entanto também não deixam de ser intrigantes, inexplicáveis e já agora até mesmo absurdos para mim mesma. Não vou, portanto, expô-los aqui, pois correria o risco de desinteressar e mesmo de não conseguir fazer sentido para mim mesma nem para os leitores.

– Como você descreveria a 'primeira parte' da sua carreira? Como veria hoje aquele tempo, do ponto de vista pessoal e artístico? Quais os momentos culminantes que ficaram na lembrança?

D.K.: Acho que os 'primeiros tempos' de minha carreira foram mesmo 'tempos iniciais' em que eu passava de 'momento a momento', sem nunca ter pensado profundamente e portanto entendido que minha vida seria dedicada a comunicar através dos dedos o que sinto no coração. Fazia o que me parecia natural, nunca pensava muito a respeito, ficava feliz com o reconhecimento, e ainda mais quando alegrava o coração das pessoas com a música. Nesse período de aproximadamente quinze anos de minha carreira profissional mundo afora, houve dois momentos muito tocantes do ponto de vista pessoal, ambos envolvendo Artur Rubinstein. Da primeira vez, depois de ouvir minha interpretação da Sonata nº 7 de Prokofiev, ele disse, com seu jeito sempre tão intenso: "Se Prokofiev estivesse vivo, teria beijado você por essa interpretação da Sonata, mas, como não está, eu é que vou beijá-la." A segunda ocasião foi quando ele comentou que minha franja estava longa demais, e disse: "Seu cabelo está muito comprido e esconde seus olhos tão lindos…" Tirou então um pente do bolso e penteou minha franja, afastando-a dos olhos. Conheci pessoas realmente maravilhosas nesses anos, mas não poderia destacar determinado lugar ou performance como o mais memorável ou emocionante, pois todos ofereceram alguma satisfação ou recompensa. Foram publicadas algumas críticas muito favoráveis, mas nunca fui de correr para comprar os jornais no dia seguinte e procurar resenhas ou artigos a meu respeito. Por mais que goste e me sinta bem com uma crítica favorável, sempre darei valor sobretudo aos comentários e cumprimentos simples e sentidos de algum membro do público. E se no fim de uma apresentação consegui que pelo menos uma pessoa achasse que valeu a pena estar ali, sentada por duas horas, e que o faria de novo, acho que minha 'missão foi cumprida'. Nada mais importa.

– Fale um pouco da sua formação como pianista: o impulso inicial, os primeiros rumos pedagógicos e professores, os caminhos tomados pelo repertório…

D.K.: Comecei minha jornada com o piano aos seis anos, com minha avó, Lea Araguari, e embora as lembranças daqueles anos sejam meio vagas, lembro que me divertia com as aulas, pois não se pareciam tanto com aulas, mas com uma espécie de 'recreio', momentos em que ela tocava piano e eu ouvia. Também passei bons momentos na Escola de Música da Lapa , aos quatro ou cinco anos, e lembro que caminhava muito depressa, e mesmo corria, por aqueles longos corredores e maravilhosas escadas. Houve também momentos divertidos, como aquele em que, segurando uma enorme cartolina recortada em forma semibreve ou semínima, caminhávamos pela sala de aula marcando o tempo. Mas devo confessar que gostava sobretudo da parte em que tínhamos de correr marcando o tempo de uma semicolcheia!

Aos oito anos, comecei a estudar piano 'a sério' com Celina Pimenta de Mello, professora de grande sabedoria mas discreta, influência indelével em meu período de formação, não só como pianista, mas também como ser humano. Ela era tranqüila, compreensiva e estava sempre pronta a aceitar, o que na época me parecia difícil entender, mas hoje considero algo muito importante na vida quotidiana. Estudei com ela durante cerca de cinco anos e comecei meu percurso pelo mundo dos concursos de piano, vencendo e perdendo alguns em nível local e do conservatório. Matriculei-me então no Conservatório Brasileiro de Música do Rio de Janeiro, e por volta dos quatorze anos comecei a estudar com Elzira Amabile, cuja fama de mestra inspiradora e exigente era mil vezes maior que sua figurinha 'mignone', com sua 'sotto você'. Ela acreditou em mim, exigiu muito de mim e me levou a estudar piano com verdadeiro amor e dedicação, o que até então não me dava realmente prazer! Mas é claro que eu devia estudar, pois milagres não existem, certo?

Aos dezoito anos, ganhei uma bolsa para estudar na Juilliard School em Nova York, na classe de Sascha Gorodnitzski, que seria meu 'último professor de piano'. Mais uma vez, tive muita sorte na parceria aluna/professor. Gorodnitzski era considerado nos corredores da Juilliard School uma espécie de Deus, um grande mestre procurado por alunos do mundo inteiro. A primeira vez em que entrei em sua sala, um enorme estúdio na Juilliard, com dois pianos Steinway Grand e a vista da Lincoln Center Plaza à esquerda, foi um momento decisivo na minha vida. Ele recebeu aquela menina brasileira com os braços mais abertos que os do Cristo Redentor e um abraço de urso russo. Comecei então a tocar a Sonata em si menor opus 58, de Chopin, com toda a confiança e o orgulho de que era capaz, para descobrir em seguida que minha próximas aulas consistiriam em aprender a tocar… os primeiros oito compassos da Sonata – não as primeiras oito páginas, mas os primeiros oito compassos! A lição, no caso, era: "Diana, minha querida, você precisa prender a atenção do público nas cinco primeiras notas da mão direita…". Gorodnitzski viria a se tornar a mais forte influência musical para mim, como concertista. Sempre dava ênfase à necessidade de comunicar os sentimentos através de uma técnica fenomenal e do controle de cada aspecto do pianismo. O controle que ele próprio demonstrava era a perfeita combinação da mente mostrando ascendência sobre o coração. Seu coração estava sempre à frente de sua arte, a sonoridade do piano sempre – e quero dizer sempre, mesmo – bela, e quando ele tocava, era para fazer música. Devo dizer que, nos seis anos em que aprendi com ele, não posso imaginar que ele fosse para casa depois de um dia inteiro de ensino e prática… E no entanto, como era sempre capaz de tocar um Scherzo de Chopin ou a Sonata de Liszt nas aulas, simplesmente para nos mostrar como devia ser? Um mistério que até hoje não pude esclarecer… Entre 1973 e 1980, participei de vários concursos de piano, nos Estados Unidos e em outros países, vencendo uns e perdendo em outros. Alguns foram divertidos, outros, nem tão gratificantes. Globalmente, contudo, aprendi muito sobre minha arte e sobre mim mesma – como sempre, coisas boas e nem tão boas.

Comecei a dar concertos pelo mundo afora, e embora sempre tivesse a sorte de ser bem recebida e apreciada, as lembranças mais queridas que ficaram foram as dos poloneses.

– Qual o lugar de Liszt na sua arte e na sua experiência? Ele tem uma importância maior que outros compositores para você? A 'hungaridade' da sua ascendência tem algo a ver com isto?

D.K.: Sinceramente, não sei se minha afinidade com Liszt decorre dos cinqüenta por cento de sangue húngaro que correm em minhas veias. Há quem o diga. Sinto Liszt como qualquer outro compositor que me disponho a tocar. Será que me saio melhor quando se trata de comunicar a música de Liszt? Não sou a mais indicada para avaliar. Minhas interpretações das grandes obras de Liszt, como a Sonata e os 12 Estudos de execução transcendental, sempre foram bem recebidas pelo público e a crítica, de modo que pode ser mesmo o caso.

Tendo acabado de tocar dois Concertos da primeira fase de Mozart, os Concertos K 238 e K 271, com a Sinfônica de Campinas, eu diria que hoje também posso me considerar mais apta a tocar Mozart que em qualquer outro momento. Gostaria de poder ainda nesta vida tocar todas as obras de Beethoven. Brahms e Schumann também têm um lugar especial em meu coração. Como toquei os dois Concertos de Brahms em várias oportunidades, posso dizer que são obras-primas em matéria de comunicação de todo um leque de sentimentos.

– Conte um pouco a história da 'conquista' desse monumento da literatura do piano que são os "Estudos de execução transcendental".

D.K.: Abordei esses Estudos pela primeira vez ainda na Juilliard. Todo mundo lá tinha uma espécie de 'atração fatal' por "Feux-Follets", e era quase uma questão de honra ser capaz de tocá-lo, e tocá-lo depressa. Eu nunca consegui tocar "Feux-Follets" tão rápido quanto meus colegas na Juilliard, e com o tempo vim a aprender que é uma questão de disposição física, e não de capacidade de tocar esta peça. Dou o melhor de mim, o que nem sempre significa que é o melhor que se pode alcançar.

Meus dois Estudos favoritos são "Harmonies du soir" e "Chasse-neige", duas obras-primas, e embora apresentem certas exigências extremamente difíceis para as mãos de um pianista (claro que Liszt não estava nem aí para essas dificuldades! Qual a dificuldade de cantar três vozes com uma das mãos apenas, como em "Chasse-Neige"?), a melhor maneira de descrever a execução desses Estudos é que na verdade o elemento "transcendental" está na necessidade incontornável que sentimos de transmitir o que eles têm a dizer. Sinto que é preciso ir além e acima das notas, muito além do que os dedos são ou não capazes de fazer, deixando de lado quaisquer idéias preconcebidas, para talvez então chegar perto do que Liszt pretendia. Ou talvez nunca chegar lá…

Veja aqui a programação completa da semana.

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

3 Opiniões

  1. Marcelo de Alvarenga disse:

    Parabéns pela entrevista.
    Certamente o mais esperado retorno de 2007. São Paulo já saiu na frente, mas logo a veremos de volta aqui no Rio.

  2. ernando disse:

    É ótima a entrevista, e são pessoas como a pianista que fazem bem aos brasileiros e ao Brasil, e mais ainda a humanidade, pois trata-se de um renome internacional e o horizonte atingido por enquanto o mais fértil e com bons prenúncios de uma grande mulher, dama,senhora da sociedade universal.Parabens entrevistadores e viva,viva para a entrevistada, cordialmente um ex´pianista que fracassou aos 14 anos quando uma plateia enorme o esperava e a timidez veio ao seu encontro, e fez desaparecer um músico, mas não o prazer e o viver a música.Parabens a todos.

  3. Renato Salles disse:

    Nunca tinha ouvido Diana: 15 minutos ouvindo-a tocar num programa na televisão (um concerto em uma igreja, ao lado de seu filho), me deixaram completamente boquiaberto, com a precisão a técnica apurada, o volume e a intensidade de sua execução. Beethoven, ele mesmo, teria sido surpreendido com tão maravilhosa executora! O Brasil tem esta capacidade de esconder seus talentos em reconditos tão inacessíveis – deveriam ter-se lembrado dela nestes festivais que acontecem todos os anos pelo Brasil afora. Diana, obrigado por voltar… E por tocar pra nós.

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