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Música Clássica

Eliane Coelho com a OSB

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Eliane Coelho era esperada nas “Nuits d’été”, de Berlioz, mas foi especialmente em três canções orquestradas de Henri Duparc que mostrou neste sábado, na Sala Cecília Meireles, a voz magnífica e a cantora fina que é. Ainda por cima, era acompanhada por uma Orquestra Sinfônica Brasileira que anda voando em céu de brigadeiro.

Foi um programa de música francesa, começando com a suíte “Ibéria”, de Debussy, em que o maestro belga Ronald Zollman cultivou com a orquestra uma delicadeza de toque e uma transparência de fusões timbrísticas que honraram a leveza mediterrânea dessa música de sensuais celebrações.

Esquecemos até que a Sala não tem dimensões adequadas para música orquestral romântica ou posterior. A OSB, além do mais, está dando mostra de uma cultura sonora coletiva e de um engajamento nas nuances de que não se tem noticia há tempos no panorama orquestral carioca.

Os “Perfumes da noite” do segundo episódio de “Ibéria” mereceram das cordas todas as irisações e a maleabilidade necessárias. Na “Manhã de um dia de festa” final, o camerismo bem azeitado da conversa entre os naipes nos fazia perguntar se o senso de calibragem do maestro ou a ciência debussista das justaposições é que impediam qualquer excesso nos decibéis.

Na “Valsa” de Ravel que encerrou a noite, infelizmente, Zollman deixou a musica correr solta, sem uma concepção nem a sombra sequer do trabalho de modelagem que imprimira ao Debussy.

Terá sido porque o público e a noite já haviam chegado ao auge, após a passagem pelo palco da grande Eliane Coelho, talvez a única cantora de opera completa nascida no Brasil depois de Bidu Sayão, e não por acaso estabelecida – como a antecessora – num grande teatro do circuito internacional, a Ópera de Viena.

O que impressiona de entrada em Coelho é o volume da voz, que se projeta soberana e sobrepaira uma orquestra inteira com naturalidade. É verdade que Duparc e Berlioz trabalham com texturas delicadas, e umas oscilações melódicas e harmônicas que desenrolam um tapete aveludado para a cantora.

Segundo elemento de sedução de nossa diva: os densos harmônicos do registro médio, que adquirem colorações variadas conforme as necessidades expressivas. Já na “Chanson triste” de Duparc com que ela abriu os trabalhos, o mel espesso e refratado se derramava com firmeza e brandura, encantador. Na “Invitation au Voyage”, era no agudo que se exibia a arte envolvente da ‘messa di voce’, esse jeito de encher aos poucos a coluna sonora depois de atacar uma nota.

A plenitude dos pianos sobressaiu no terceiro e último Duparc, uma “Phidylé” conduzida por Eliane Coelho com um senso narrativo e um sutil envolvimento emocional que também se desdobrariam na coleção de seis canções de Berlioz. Aqui, no entanto, a magia operou menos, na minha expectativa, talvez porque a empostação operística de Frau Coelho, empenhada em conquistar e afirmar, tivesse deixado menos espaço para o cultivo dos desvãos da confissão e do abandono. Uma reserva ínfima num recital glorioso.

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1 Opinião

  1. Eduardo disse:

    Excelentes observações, mas em tempos de caos aéreo, é perigoso usar o termo "céu de brigadeiro" – pode significar o contrário do que estamos acostumados!

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