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Música Clássica

Minas filarmônica

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Minas Gerais resolveu dotar-se de um belo organismo sinfônico e já anunciou para 2009 a segunda temporada da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais.

Foi este fato -– a oferta de assinaturas e o detalhamento dos programas dos concertos do ano que vem, antes de terminar 2008 -– que me chamou a atenção: quantas orquestras brasileiras se prepararam para isto? Até agora, salvo erro, só a Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) o fazia. As orquestras do Rio de Janeiro ainda não consolidaram este hábito de elementar cortesia e organização: proclamar a plenos pulmões em outubro suas atrações do ano seguinte.

Que mais têm em comum a Osesp e a Filarmônica de Minas Gerais? Não é o caso de perguntar? Provavelmente é o fato de serem organismos geridos pelo sistema de organização social (no caso mineiro, formou-se uma Oscip, Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) que dinamiza e potencializa o funcionamento dessas instituições.

Critérios artísticos

Sandra Almeida, diretora artística da Fundação Clóvis Salgado – entidade do governo do estado de Minas Gerais que gere não só esta orquestra como uma outra, a Sinfônica de Minas Gerais – me explica por que considera o sistema da organização social mais adequado: “A diferença é que a gestão através da Oscip permite fugir a certas limitações burocráticas, especialmente na possibilidade de contratar e manter ou não músicos no corpo da orquestra, segundo critérios de desempenho e qualidade. Hoje é de consenso mundial, nessa área, que a qualidade artística é determinante. Ter músicos efetivados como funcionários não é a melhor solução.”

Um outro fator, segundo ela, é a questão do orçamento. A Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, vinculada ao Palácio das Artes de Belo Horizonte e financiada através das leis de incentivo (R$ 2,5 milhões este ano para a programação, fora custos fixos, como os salários), conta com 40 músicos em caráter permanente. “Toda a parte da remuneração está vinculada à política salarial do estado para os servidores públicos”, diz Sandra Almeida, referindo-se à Sinfônica de Minas Gerais. “A orquestra, assim, não consegue ter o tratamento diferenciado que seria desejável e necessário pelo caráter artístico da atividade: seus profissionais estão vinculados a uma política de recursos humanos que se aplica a todos os servidores do estado. O novo tipo de gestão que adotamos na Filarmônica realmente está sendo um sucesso por motivos como esses.”

Eu contactara Sandra para tentar entender por que o estado de Minas resolveu criar uma segunda orquestra. Segundo ela, o motivo principal é atender melhor os municípios do interior. O fato de a Sinfônica ter 40 músicos e a Filarmônica, 85 (muitos egressos da “rival”) também estabelece uma diferença de vocação e repertório, claro.

Em 2008, a Sinfônica fez 60 apresentações, sendo 40 na capital e 20 no interior. A Filarmônica (orçamento de R$ 12 milhões, incluindo custos fixos e programação) apresentou uma temporada de cerca de 20 concertos em Belo Horizonte (além de seis récitas da Aida, de Verdi), a maioria no mesmo Palácio das Artes, e fez meia dúzia de visitas ao interior – mas também foi ao Festival Internacional de Música de Campos do Jordão, em São Paulo, em evidente operação de prestígio no ano de seu lançamento.

Um maestro de peso

Dessa mesma filosofia de qualidade e prestígio fez parte o convite do Instituto Cultural Orquestra Sinfônica (ICOS), gestor da Filarmônica, para que o maestro Fabio Mechetti assumisse sua direção musical, como regente titular. Mechetti é um paulista que desde a década de 1980 faz o essencial de sua carreira nos Estados Unidos. Desde 1999 ele é regente titular da Sinfônica de Jacksonville, na Flórida, que se orgulha de estar entre as 40 maiores orquestras americanas e de ser uma das poucas que têm uma sala de concertos especialmente construída para ela.

Mas seu currículo, do qual não está ausente uma atividade freqüente em outras partes do mundo — especialmente no Japão, na Escandinávia e na Inglaterra — também inclui a direção permanente de duas outras orquestras americanas (as sinfônicas de Syracuse, no estado de Nova York, e Spokane, no outro extremo do país, no estado de Washington) e uma passagem que não foi muito concludente pela direção do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1999.

Na época, Mechetti, que chegou a obter resultados artísticos estimulantes mas não contou com o apoio institucional necessário, já me falava da necessidade de desburocratizar e “desfuncionarizar” o funcionamento dos corpos estáveis e da programação artística da casa de ópera carioca.

Hoje, pergunto-lhe, com base em sua larga experiência em orquestras americanas, que exemplos ou aportes considera que o universo sinfônico dos EUA tem a oferecer numa iniciativa como a da Filarmônica.

“O ‘modelo’ americano de sustentação de orquestras tem grandes vantagens e algumas desvantagens”, diz Mechetti. “A grande vantagem é a consideração da orquestra sinfônica como uma empresa, conceito que só recentemente começamos a entender. A maior desvantagem, principalmente no momento atual, é a falta de amparo estatal significativo. A maioria das orquestras americanas conta com uma contribuição do governo, em média, de menos de 5% de seus orçamentos. O lado positivo disso é que obriga a sociedade, através da compra de ingressos, de contribuições ou patrocínios, a manter as suas orquestras. Isso cria um laço estreito entre os amantes da musica e as instituições musicais. Mas em momentos de crise econômica as orquestras — e outras instituições culturais — sofrem muito. Essa participação maciça da sociedade civil na manutenção das orquestras americanas tem sido espelhada no Brasil e vem-se ampliando com relativo sucesso.

“Entretanto, na melhor das hipóteses” — prossegue o maestro — “não creio que alguma orquestra brasileira possa sobreviver financeiramente, especialmente se a preocupação com a qualidade for primordial, sem um relevante auxílio do Estado. Assim como receio que as orquestras americanas, particularmente as de menor porte, não consigam manter sua viabilidade sem maior participação do governo, seja a nível local ou nacional.”

Mechetti, que tem o maestro Fabio Costa como regente assistente, regeu mais da metade dos concertos em 2008; em 2009, regerá 13 dos 16 concertos da temporada de assinatura no Palácio das Artes, homenageando o cinqüentenário de morte de Villa-Lobos, mas também com uma interessante ênfase no repertório russo (inclusive com compositores raros, como Kalinnikov), sem contar as turnês e outros projetos especiais da agenda da Filarmônica.
Sobre a dedicação ao novo organismo, comenta o maestro: “Do ponto de vista administrativo, graças aos avanços da tecnologia, não passa um dia em que eu não me dedique horas e horas ao desenvolvimento do projeto, mesmo não estando fisicamente no Brasil. Desde a formulação do regimento interno às modificações em seu estatuto, na preparação e realização das audições, na elaboração da programação, no desenvolvimento do novo e inusitado plano de assinaturas, tenho me envolvido totalmente, pois se a coisa não começa certa torna-se difícil consertá-la depois. Na verdade, nunca trabalhei tanto, mas esse empenho tem-me dado muito orgulho, pois creio que hoje temos mais uma orquestra de qualidade no Brasil.”

Mechetti ainda não está envolvido no esforço de captação de recursos, mas sabe que não poderá se esquivar disso também: “Neste primeiro ano de estabelecimento de alicerces para o projeto, explica, “não houve condições humanas de buscar captação, embora essa seja absolutamente uma das metas principais do projeto de Oscip e da Filarmônica em particular. Para 2009, já temos vários contatos estabelecidos e em momento oportuno eles serão divulgados. Para alguém como eu, que tem feito carreira nos Estados Unidos há mais de vinte e cinco anos, o envolvimento em captação de recursos é uma necessidade básica e não será diferente em Minas Gerais nos próximos anos.”

Para conhecer a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais e sua programação para 2009 clique aqui.

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  1. heloisa disse:

    A notícia é ótima. A tradição mineira musical é forte e antiga. Tanto na capital como no interior muitas escolas em Minas mantem por iniciativa própria o ensino da música. Que pena que se extinguiu do currículo das escolas brasileiras as aulas de música, então canto orfeônico, hoje restrito às igrejas.